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“Vai ganhar, vai perder. Vai ganhar, vai perder. Vai ganhar, vai perder. Perdeu… Ganhou!!!!”. Foi dessa forma que mais da metade da população brasileira ouviu a narração da sétima medalha de ouro do americano Michael Phelps no “fantástico” Cubo D’Água, como ficou batizado o complexo aquático dos Jogos Olímpicos de Pequim.

O autor da pérola, misto de torcida com (des) informação, não poderia ser outro além de Galvão Bueno. O narrador principal da Globo já se tornou figurinha carimbada em algumas competições na China, não estranhamente sempre aquelas em que vão “ficar para a história das Olimpíadas”, como sempre faz questão de frisar.

A maneira como se comporta nas transmissões faz de Galvão uma espécie de ser eterno dentro do gênero de narração esportiva no Brasil. Por aqui, a técnica é o de menos. Mais importante do que alguém que tenha propriedade no assunto, é preciso uma pessoa que coloque emoção na garganta, que faça do “vai ganhar, vai perder” um estilo.

Dependendo da modalidade esportiva abordada, não restam dúvidas de que esse tipo de narração é adequado. Num jogo de futebol, por exemplo, em que a esmagadora maioria da população está acostumada a acompanhar, cabem aos telespectadores e aos comentaristas repararem nos detalhes técnicos. Tanto que o estilo “fulano passa para cicrano” não dá mais para engolir durante o rolar da bola. Muito mais divertido é o “manda o bambu daí” de Silvio Luiz.

Mas quando chegam as Olimpíadas, vemos uma nova realidade na transmissão esportiva brasileira. Afinal, com tanta modalidade em disputa, as emissoras têm de chamar toda a sua equipe para poder participar da transmissão. E aí o que vemos é uma salada de frutas de gêneros de narração.

Galvão entra na lista dos “imortais”, juntamente com Luciano do Valle e Silvio Luiz. Ícones da antiga escola da narração, os três inspiraram muitos que hoje estão por aí, mas que tentam fugir daquele estilo que virou grife. Afinal, não dá para imaginar alguém falando “pelo amor dos meus filhinhos” numa transmissão que não seja Silvio Luiz. Da mesma forma, comemorar uma medalha com um “ééééééééééééé… do Brasil” só pode ser privilégio de Galvão.

Com isso, em tempos olímpicos (e com TV a cabo, é claro) começamos a observar que esse antigo gênero de narração começa a virar espécie em extinção na TV brasileira. O “showman” acabou. Ou melhor, está próximo de acabar, quando se aposentar essa trinca de “monstros sagrados” do esporte brasileiro na televisão.

Nos outros canais, nas outras vozes, a emoção dá lugar à tecnicidade. Nada contra, pelo contrário, é uma evolução do conhecimento de quem transmite o esporte para nós. Mas com quem vamos nos irritar ou emocionar até chorar? A técnica exagerada faz do esporte algo sem a mesma emoção que tem.

Cléber Machado não consegue (e nem quer) ser Galvão Bueno. Tem muito mais conhecimento técnico. Sabe que quando um jogo está 3 a 0 para o adversário, o torcedor sabe que a chance de o Brasil virar é muito menor. Com isso, a vontade de narrar um ataque brasileiro é infinitamente inferior. E isso faz, muitas vezes, sua transmissão ser mais “pasteurizada”.

É preciso esperar para ver se o torcedor brasileiro estará acostumado a esse estilo mais sóbrio de narração. Se ele quiser um “showman”, não encontrará tão rápido alguém nessa nova geração. Sorte que essa trinca pode ter ainda mais umas duas ou três Copas do Mundo na bagagem.

Mas daqui a uns dez anos o “knowman” vai ocupar o espaço da transmissão esportiva. Será que isso representará o início de uma era mais preocupada com o conhecimento no esporte?

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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