Carta aberta ao João Paulo Medina

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Meu muito querido amigo,

 

Depois de conhecê-lo e de consigo dialogar fraternalmente, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde o João Paulo era, há 21 anos, o professor de futebol; depois de reler o seu livro, A Educação Física cuida do corpo… e “mente”; depois de ter sentido a inquietude contínua do Lino Castellani Filho e do João Batista Freire, depressa concluí, nesse Brasil, eterno caminhante da Esperança: que era preciso analisar, com atenção, a interpretação latino-americana de Marx; que, filho de uma Europa debilitada por um profundo cepticismo, nascia um pensamento novo, na franca disponibilidade e profunda curiosidade da América Latina; que o futebol brasileiro não se distinguia unicamente pela valia técnica dos seus jogadores, mas também pela qualidade invulgar de alguns dos seus treinadores. Posso acrescentar, hoje, sem leviandade, que entre os técnicos de futebol mais qualificados com que fiz amizade, em toda a minha vida, está o seu nome.

 

Eu já me tinha doutorado e defendia, contra uma multidão de plumitivos, que a área da impropriamente denominada “educação física” se fundamentava num novo paradigma científico, a ciência da motricidade humana (CMH), onde cabiam a Educação, a Saúde, o Trabalho, o Lazer e o Desporto; que não havia necessidade de preparadores físicos, mas de metodólogos do treino que criassem exercícios onde a complexidade humana do jogador estivesse presente e… não só o físico; que, pela CMH, o ser humano deve. Deve lutar contra todas as formas de alienação e de exploração; deve lutar contra o positivismo que separa os factos dos valores; deve lutar em prol da utopia e da esperança.

 

O meu amigo escutava-me e, com liberdade crítica, acrescentava ao meu discurso mais uma ou outra ideia, onde o meu teoricismo não chegava. Tendo nascido e vivido, até aos 50 anos, à beira de um estádio de futebol, convivi com muitos dos nomes maiores da história do futebol português. Só que nunca pratiquei futebol profissional, como jogador ou treinador. E quem não pratica não sabe! Como modestíssimo filósofo, tento redescobrir aquilo que esclarece o presente e anuncia o futuro. Quando me ocupo do futebol (a minha modalidade preferida) não o faço como especialista do futebol, mas como filósofo que interpreta, no futebol, os sinais do tempo. E o João Paulo de tal forma se sintonizava com um futebol-emancipação que ousei classificá-lo como o primeiro verdadeiro intelectual que conhecera, no mundo do futebol! E, para além do mais, pessoa de admirável formação moral em quem passei a confiar como se de um irmão se tratasse! Recordo que ambos realçávamos (porque conferíamos primazia à complexidade Humana sobre o físico, isolado do todo) a importância da liderança, no trabalho quotidiano do treinador desportivo. É o homem (a mulher) que se é que triunfa no treinador que se pode ser.

 

Em conversas com antigos alunos meus que não têm êxito, como treinadores, na alta competição, não tenho dúvidas em declarar a cada um deles: “O que você aprendeu, na Universidade, não lhe basta para ser treinador, com êxito. E porquê? Porque é bem possível que você não seja um líder; porque muitos dos seus professores desconheciam a alta competição; porque os currículos escolares, na Universidade, podem fazer estudiosos do desporto, mas líderes não fazem, com toda a certeza”.

 

Não basta um conhecimento livresco, é preciso viver. Os médicos, os advogados, os engenheiros, etc., etc. não são experientes e competentes, logo no dia em que findam os seus cursos universitários, mas após muitos anos de prática profissional. Por isso, nos cursos universitários de desporto, bem é que se promova o respeito pelo saber de treinadores de grande prática e sucesso, embora não tenham passado pela Universidade. Demais, o principal objectivo de uma disciplina não é tanto acumular conhecimentos, mas contribuir ao nascimento de novos modos e novas estruturas de pensamento. O meu amigo sabia tudo isto, porque trabalhava, no futebol, com os melhores treinadores brasileiros. Não, nem o meu amigo, nem eu, defendíamos a ausência do ensino escolar, na profissão de treinador de futebol. Éramos universitários, com honra e prazer. Acentuávamos tão-só o primado da realidade objectiva sobre a idealidade das formas cognoscitivas.

 

O conhecimento (e portanto o conhecimento do futebol) assenta e radica, primordial e determinantemente, na própria realidade objectiva. Ocorre-me, neste passo, o Karl Marx de A Ideologia Alemã: “A consciência não pode ser outra coisa senão o ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real”. Há uma falsa consciência em quem teoriza e não pratica, porque não tem em conta as relações entre o ser e o pensar. Volto a uma frase que eu, com alguma felicidade, criei: não é pensando que somos, mas é sendo que pensamos!

 

A carta vai longa. Sou forçado a terminá-la. E faço-o com gratidão, admiração e amizade. Seu amigo,

 

Manuel Sérgio

*Antigo professor do Instituto Superior de
Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é
licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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