Ego Sum

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Se você acompanha essa coluna há pouco tempo, você deve saber que eu faço um doutorado.

Se você acompanha essa coluna desde seu começo, você deve imaginar que eu estou chegando ao final do meu doutorado.

Mas ninguém deve acompanhar essa coluna desde seu começo. Talvez apenas os editores da Universidade do Futebol, já que eles são obrigados a revisar semanalmente o que eu escrevo para evitar que os incontáveis erros gramaticais sejem publicados. E olha que acho que por essas alturas eles já devem estar usando a correção automática.

De qualquer maneira, o problema com o doutorado é que você começa a pesquisar uma coisa achando que você vai chegar em algum lugar, mas, depois de um tempo, você não apenas se dá conta que você não está chegando em lugar algum, mas que tem muitas outras coisas que deveriam ser pesquisadas.

Uma questão que eu acho que merece uma discussão detalhada para a melhor compreensão possível sobre o comportamento da indústria do futebol brasileiro é a influência que o ego possui nas ações dos tomadores de decisão envolvidos com o jogo. Até que ponto as pessoas tomam decisões baseadas em princípios lógicos, desprovidas de qualquer necessidade de auto-sustentação? Até que ponto essa necessidade de se auto confortar influencia o rumo das suas ações?

Eu venho batendo na tecla de que o futebol gera mais exposição do que dinheiro há muito tempo. Assumindo que isso seja verdade, é natural imaginar que boa parte das pessoas que se envolvem com o futebol buscam mais exposição do que dinheiro. Isso explica, por exemplo, o grande envolvimento de diretores não remunerados com os clubes. O cara larga o trabalho, a casa e a família para se dedicar ao clube. Muita gente vê nisso, não sem subsídios, uma ação de picaretagem. Afinal, se o cara se dedica tanto assim, o cara deve levar uma boa grana por fora. Por vezes, isso é verdade. Mas a impressão que eu tenho é que na maioria das vezes isso se dá por uma questão de auto-estima.

Pessoas que se envolvem com o futebol rapidamente alcançam um status de importância não necessariamente relacionada ao seu currículo pessoal. Isso acontece, por exemplo, com um cara qualquer que de repente vira presidente do clube de futebol. Do dia pra noite, o cara larga o anonimato e se torna uma figura pública. Alguns não gostam disso. A maioria acaba se embebedando. E não larga o osso. Pior, acha que a exaltação é pessoal, e não institucional. Acha que a bajulação se dá pela figura individual, e não pelo fato de ser presidente de uma organização muitas vezes histórica e influente. Aí começa a confundir as coisas. Faz uma conta no Twitter e vai pro abraço. Tenta ser maior que o clube. Logicamente, não é. E tudo, hora ou outra, acaba se esfacelando.

Mas não é só o presidente. Talvez pior sejam os diretores. Afinal, presidente é presidente. Justo que seja minimamente egocêntrico. Diretor, porém, é outra história. O cara é eleito, nunca foi nada, e de repente acha que é o ó do borogodó, que eu não sei se está relacionado apenas à última vogal ou ao fato de ocupar 50% de uma palavra oito letras. Enfim, o cara sobe nas tamancas e, por ter feito parte de uma chapa – uma vez que na maioria dos clubes os diretores não são eleitos individualmente, mas sim fazem parte de um grupo encabeçado pelo presidente – acha que tem certeza daquilo que está fazendo. Afinal o cara é diretor. E diretor é da diretoria. E diretoria é vip. É nata. É elite. É qualquer outro adjetivo que indique superioridade. Tipo a última bolacha do pacote, ainda que eu ache que não seja muito apropriado uma vez que a última bolacha está sempre quebrada e sai junto com um monte de farelo. Ainda assim, ele vai lá, acha que sabe, faz o que quer e dificilmente alguém vai reclamar, uma vez que isso pode gerar um problema político.

Normalmente, portanto, há forte influência do ego no processo cognitivo dos principais tomadores de decisão do futebol.

O problema é que o esquema não para aí. Afinal, não é só dentro do clube que o ego impera. Fora dele pode ser pior ainda, principalmente na imprensa. Muito jornalista que trabalha com futebol ganha muito pouco. Muito comentarista que comenta futebol não ganha nada. Ainda assim, o cara não larga o osso por duas razões: a) porque ele gosta do que está fazendo e é feliz, o que é muito justo; e b) porque ele aparece na televisão e assim ele se torna uma pessoa conhecida e respeitada, o que até pode ser justo também, mas pode carregar um lado nefasto.

Ao aparecer todo dia e ser reconhecido na rua, um jornalista pode eventualmente achar que automaticamente sabe tudo sobre aquilo que ele está falando, e não se preocupa em aprofundar muito a sua opinião. Seu ego influencia na não necessidade do aprimoramento profissional. Muitas vezes, essa opinião é crítica em relação às decisões tomadas pelo clube, que por sua vez também são geradas pela necessidade de auto-estima. Aí, quando um ego bate outro ego, a coisa se complica. E o rumo das decisões começa a tomar a direção do caos.

Se você é psicólogo, você deve ter percebido que eu não sei muito bem sobre o que eu estou falando. Por isso que eu mencionei a necessidade do assunto ser mais bem pesquisado. O entendimento mais profundo dessa questão me parece ser bastante importante para o desenvolvimento mais apropriado da indústria.

E, se eu estou falando, pode ir com fé.

Acredite.

Não seje burro.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

Autor

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on pinterest

Deixe o seu comentário

Deixe uma resposta

Mais conteúdo valioso