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Nos próximos dias celebraremos o final da primeira década do ano 2000. Como não poderia deixar de ser, até pela total falta de notícia da época, faço aqui uma breve revisão do que foi este período do ponto de vista da gestão, do marketing e do trabalho da mídia.

A primeira sensação que se tem é de que entramos, em 2011, numa espécie de ciclo da bola. Se, lá em 2001, o sentimento era de total abandono do futebol, especialmente no Brasil, agora a expectativa é totalmente diferente.

O Vasco x São Caetano que abriu o ano futebolístico em 2001 foi emblemático. Um jogo que foi adiado de 30 de dezembro de 2000 após a queda do alambrado de São Januário, encerrando de forma melancólica o mais melancólico dos Campeonatos Brasileiros da história recente. Nada contra o título vascaíno liderado por Romário, mas o fim da Copa João Havelange também começou a marcar, irônicamente, o término da liderança dos grandes monarcas do futebol nacional.

O ano de 2001 foi marcado por uma descrença total no futebol brasileiro. A virada de mesa da Copa JH teve como reflexo imediato a fuga de patrocinadores e a saída de dinheiro dos cofres dos clubes. O Brasileirão-01 teve diversos grandes clubes sem patrocínio na camisa (Santos, Palmeiras e Vasco foram alguns exemplos) e, mais do que isso, muitos poucos craques de bola dentro de campo. O torcedor, também descrente e com menos dinheiro no bolso pelo aperto da economia, relegou o consumo de futebol a um segundo plano.

Paralelamente a isso, as CPIs que corriam no Congresso e no Senado deixaram os dirigentes apavorados com seu futuro dentro do futebol, fazendo com que o foco deixasse de ser a gestão dos clubes para se tornar a permanência no comando. Foi nesse período que a mídia desempenhou papel fundamental para que as denúncias dos descasos dos cartolas tivessem efeito prático sobre o futuro do futebol nacional.

Em 2002, duas aberrações dentro de campo mudaram completamente a história de mudanças e reordenação da bola no país. O pentacampeonato mundial ganho pela seleção brasileira tirou o foco sobre Ricardo Teixeira na CBF, enquanto que o aparecimento de Robinho e Diego no Santos campeão nacional fez desaparecer o sentimento de “abandono” que tomava conta da produção de atletas no país.

Fora de campo, a maior contribuição para a evolução da gestão dos clubes vinha sendo dada pela criação do Estatuto do Torcedor, obrigando os dirigentes a colocarem o torcedor como prioridade em algumas questões relacionadas ao conforto do principal cliente do futebol.

Ainda com os reflexos de CPIs e Estatuto do Torcedor na cabeça, o ano de 2003 começou com uma lufada de novos tempos. A entrada do governo Lula, sancionando a Lei do Torcedor e a Lei de Moralização (que prevê o confisco de bens dos dirigentes por má gestão), mudou de vez a forma como os cartolas monárquicos tratavam o futebol.

O surgimento do Brasileirão em pontos corridos mudou de vez a cara do futebol brasileiro. Somou-se a isso a decisão de não se virar a mesa, mantendo Palmeiras e Botafogo, rebaixados no ano anterior, na Série B. Finalmente a seriedade voltou a dar o ar de sua graça na gestão dos clubes de futebol no Brasil, e isso foi o princípio para que a bonança atingisse parte dos times nos dias atuais.

A definição dos pontos corridos como fórmula de disputa do Brasileirão foi, também, o “cala-boca” que a CBF conseguiu dar na mídia. Com o penta e o Nacional na fórmula que sempre foi a mais defendida pela mídia, não tinha mais do que se falar de descuido da CBF e de Ricardo Teixeira com o futebol no país.

O processo de reordenação do futebol nacional foi acompanhado pelo crescimento da economia do país. A combinação desses dois fatores fez com que, no período inicial de adequação aos pontos corridos, os times brasileiros arrumassem suas casas e olhassem de que forma conseguiriam ser competitivos interna e externamente.

Com uma melhor ordenação fora de campo, e com mais dinheiro nas empresas do país, a segunda metade da década passou a ser de riqueza. Clubes com melhor poder de barganha para manter os craques dentro de seus clubes e empresas mais dispostas a investir no futebol para obter grande exposição na mídia.

Mas o que deveria ser o início de um ciclo virtuoso mostra, neste final de década, que pode ser o prenúncio de mais uma crise, ainda sem data para começar. A bonança dos altos patrocínios gerou, também, uma inflação no mercado do futebol do Brasil. Os clubes arrecadam mais, mas também gastam de maneira muito maior. A exemplo do que aconteceu no final dos anos 90, quando os grandes investidores entraram no futebol, levando os preços lá para cima, agora os clubes investem mais dinheiro para ter grandes jogadores.

Esse fenômeno, porém, não deve acabar tão cedo, uma vez que a Europa em crise financeira e o Brasil sendo a bola da vez por conta da Copa do Mundo de 2014 impulsionam para cá os investimentos.

Só que a dúvida que fica para a década que chega é essa. Até quando continuaremos a ter muito dinheiro no futebol? E quem não consegue acompanhar esse ritmo de evolução das receitas vai se endividar até quando para tentar manter o nível de competitividade?

São perguntas que a mídia deveria começar a fazer, em vez de se apegar apenas aos resultados dentro de campo. Essa é uma característica, porém, que não evoluiu ao longo da década, apesar de todas as mudanças no comando do futebol brasileiro.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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