André, o antropólogo, e seu encontro com Guimba

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Apresentação

Meu nome é Guimba. Isso mesmo, e me chamam assim por causa do monte de cigarros que eu fumava por dia e porque eu guardava as pontas para fumar depois. Isso até o dia em que eu já não conseguia mais correr atrás da bola.

Qualquer corridinha e eu botava a língua para fora. E foi por isso, e não porque eu era ligado nessas coisas de infarto e tal, que eu parei de fumar. Mas o apelido ficou.

Jogo no “Jura Que Sabe”, o time dos veteranos do bairro, e esse nome pegou porque todo mundo ali pensa que joga, mas quase ninguém joga nada, é só papo de botequim – por sinal, no boteco do Novelo, que fica ao lado do campo. Ali rola o maior papo, e cerveja.

Quem ouve a conversa jura que a gente joga bola. Teve até um moço antropólogo que veio aqui procurar por nós, achou interessante o nome, quis saber de onde veio essa denominação estranha, “Jurakissabi”, se era indígena, até que a gente disse para ele que não tinha essa de indígena, era “Jura Que Sabe”, assim mesmo, tudo separado.

O rapaz não gostou da história, mas gostou da gente, pena que ele não joga nada, não teve tempo de aprender, pois a mãe dele fazia ele estudar o tempo todo. De cerveja ele entende, e de conversa também, mas só depois de entornar três geladas.

E como a gente joga mais na mesa do que no campo, ele acabou virando um craque…

O primeiro encontro

Atraído mais pelo nome que pelos acontecimentos, que desconhecia, pôs-se André em campo; noviço nas artes da Antropologia, ansiava e temia o dia de deparar-se com uma autêntica comunidade daquelas cuja cultura enraizada resistia aos ataques de modernidade. Por um erro de grafia, uma pequena nota de canto de página na seção de esportes publicou o placar da peleja Jurakiçabi dois, Estação Central um. O erro do jornalista resultou em boa surpresa para André, o recém-formado antropólogo.

E lá se foi nosso André serra abaixo, rumo a Santos, disposto a realizar trabalho científico de causar orgulho aos pais e mães da ciência do homem, caso estivessem vivos. Pergunta daqui, procura dali, soube que o esquadrão de veteranos batia sua bola no bairro do Jabaquara, já na subida do morro da Nova Cintra. Quem sabe não encontraria entre eles descendentes dos próprios Tupinambás, ou dos Tamoios, daí o nome do time. Até onde se sabe, Jurakiçabi não consta do vocabulário de nenhum povo indígena conhecido, mas, até aí, não se sabe tudo. Os craques do portentoso onze se reuniam aos sábados, no período da tarde, ora no campo próprio, ora nas dependências do adversário. No próximo final de semana a porfia seria realizada em casa e indicaram a André que procurasse o Guimba, líder e um dos artilheiros do time, no boteco do Novelo, lá pela uma da tarde.

Fiel aos princípios da etnografia, nosso jovem antropólogo sentou moradia ali mesmo, no começo da Nova Cintra, num quartinho de fundos da casa de Dona Noca, senhora ponderada e apreciadora eventual dos eventos futebolísticos do bairro.

O sábado chegou, e André já não suportava mais a ansiedade da espera. Não à uma da tarde, mas ao meio-dia, fincava pé no boteco do Novelo, que de pronto lhe serviu uma brama gelada e disse que Guimba logo chegaria. O ambiente era favorável, o cenário bem armado. Que mais poderia querer André para sua estreia como pesquisador de campo, que um boteco servido por um português de bigode, no meio de uma autêntica comunidade de descentes Tupinambás. Ou Tamoios?

– Oi Guimba – cumprimentou Novelo, – está aí um moço que quer falar com você.

André virou-se emocionado. À sua frente o líder, fonte viva de conhecimentos. Guimba vinha em sua direção. Mas ele não parecia nada com um índio. Era alto e magro, seco até, cabeleira basta, além de grisalha, e vermelho, um vermelhão que ocupava todo o pescoço e partes do rosto. Os braços eram muito peludos. Junto com a barba por fazer, contrariava muito a imagem de um descendente de índios. No lugar de olhos amendoados e castanhos, olhos redondos e azulados.

– Boa tarde – cumprimentou Guimba.

– Boa tarde. É um prazer conhecer o senhor. Sou antropólogo e vim para estudar o seu time de futebol e a sua comunidade. Até aluguei um quartinho nos fundos da casa da Dona Noca.

– Caramba! – espantou-se Guimba, enquanto pedia uma brama. – É a primeira vez que vejo um antropólogo – disse, olhando para André, baixinho e magro, cabeleira farta e negra, barba e bigode, olhos fundos e óculos de lentes grossas. O antropólogo usava bata indiana, calça de algodão e sandálias de couro. Ao lado da cerveja, uma caderneta de capa verde e uma bic.

– Posso fazer umas perguntas para o senhor? – perguntou André.

– À vontade – respondeu Guimba.

– De onde vem o nome Jurakiçabi?

– Não foi a gente que inventou. Foi o pessoal aqui do boteco que escuta o que a gente fala depois do jogo. É que depois das bramas todo mundo começa a aumentar um pouco o que aconteceu no jogo.

– Sim, mas o que tem isso a ver com um nome indígena? – perguntou André.

– Indígena, o que é indígena?

– Esse nome do time, um nome que só pode ser Tupinambá ou Tamoio, os índios que habitaram o litoral séculos atrás, e dos quais vocês talvez sejam descendentes – disse André.

– Moço, que confusão. Meu pai, que Deus tenha, era português, minha mãe filha de turco, e eu fiquei assim.

– Mas, e o nome? – insistiu André, e mostrou o recorte de jornal.

– Ah, isso aí tá errado. É separado: Jura Que Sabe, aquilo que eu falei, a gente fala mais do que joga.

André virou de uma vez o copo de cerveja. Os outros craques chegavam. O Nonato, Pé de Valsa, Zoca, Chinelo, cada um menos parecido com índio que o outro, nem cara de índio, nem de jogador de bola.

– E agora? – Perguntou André – Eu até aluguei quarto. E minha pesquisa?

– Você sabe jogar futebol? – perguntou Guimba. – Pelo jeito, não.

André, desolado, explicou que nunca tinha jogado bola. Consumiu a infância e a adolescência estudando para entrar na Universidade. De vídeo game até que ele era bom.

– E de cerveja, você gosta? – perguntou Guimba.

Hoje André é o torcedor mais barulhento do Jura Que Sabe. Diz que um dia vai fazer uma tese de mestrado sobre o futebol de várzea.

Para interagir com o autor: jbfreire@universidadedofutebol.com.br

Autor

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on pinterest

Deixe o seu comentário

Deixe uma resposta

Mais conteúdo valioso