Sobre boleiros e boleiras

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Há não muito tempo, o título desta crônica seria inimaginável, principalmente entre nós, brasileiros, pois futebol era tido como coisa pra homem e… Ponto final.

Hoje, muitos se pegam diante da TV acompanhando a nossa seleção feminina de futebol com muito mais entusiasmo do que assistem aos rapazes na Argentina.

Do que vejo, concluo que tem muita mulher jogando melhor do que muito marmanjo e que a tese de que a ginástica – assim se chamava a atividade física – deveria ser estendida às mulheres desde que respeitada suas formas feminis e as exigências da maternidade futura, como apregoava ao final do século XIX Rui Barbosa, tido em meados do século passado, até os anos 1980, nada mais nada menos como o “paladino da educação física brasileira”, ficou no passado, embora até hoje muita gente ainda não se conforme com outros papéis sociais da mulher que não o de mãe…

Mas não só no jogar futebol se percebem mudanças, como também na apropriação pelas meninas de jargões próprios à cultura futebolística, que até recentemente só faziam parte do vocabulário dos meninos…

Isso tudo me fez recordar uma situação por mim vivida na metade da década de 1980. Na ocasião estava vivendo com minha família em São Paulo, dando tratos ao meu processo de titulação acadêmica, cursando mestrado na PUC/SP. Morávamos em um apartamento em Perdizes, bairro paulista onde ela se localizava…

… Num belo dia, me via às voltas com o estudo de um – dos muitos – texto, quando vi entrar pela porta meu filho Alexandre, sujo, suado e com cara de poucos amigos.

Percebi mascarada em seu silêncio a vontade de falar. Fechei o livro, sinalização de que estava aberto à conversa, rapidamente por ele iniciada…

– Oi, pai! Tô vindo lá da quadra… Jogamos contra o time daquele prédio lá da esquina…

– E como foi o jogo, perguntei…

– IH pai! Nos f…! Perdemos de goleada…

Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, desandou a falar:

– Sabe pai, eles jogaram melhor… Nada deu certo pra nós…

E percebendo que eu estava interessado na história, se empolgou:

– Mas teve um lance pai… A menina veio pelo alto… Matei ela na caixa pai! Aí vi um carinha se aproximando e não tive dúvidas, meti ela no meio das canetas dele… Aí percebi outro chegando e… Dei um drible da vaca, pai! Quando dominei ela, vi o goleiro saindo e não tive dúvidas: taquei o pé embaixo dela e mandei ela lá onde a coruja dorme, pai, um golaço!

De imediato pensei com meus botões: “estou rico!”. Sim, pois se com aquela idade ele tinha feito tudo aquilo, era só uma questão de tempo pra ele chegar a algum time europeu… Mas logo em seguida caí na real e me dei conta tanto de como era grande a capacidade imaginativa da criança, quanto do fato de que aquele diálogo seria impossível de ser feito se no lugar dele estivesse uma filha…

Sim, pois àquela altura somente um menino teria acesso a expressões próprias ao universo do futebol, já que às meninas era vetada a entrada nele, sob pena de ser de imediato estigmatizada por se fazer presente em um lugar de ingresso restrito aos homens…

Assim sendo, dificilmente uma garota saberia que a menina do relato era a bola; que caixa era o peito e matar a menina na caixa era amortecê-la (carinhosamente) nele…

… Que canetas eram as pernas do moleque; que drible da vaca significa jogar a bola de um lado do adversário e ir buscá-la pelo outro; e, por fim, que lá onde a coruja dorme era o ângulo superior da meta ou arco defendido pelo goleiro…

Hoje esse diálogo já se faz possível, pois o futebol deixou de ser território exclusivo dos homens. Parte por conta do processo de emancipação feminina, da luta das mulheres por igualdade de gênero. Parte, por outro lado, da indústria cultural do entretenimento própria à sociedade de consumo, que percebeu o potencial consumidor de um segmento social até então impedido de consumir tudo aquilo que fosse pertinente ao mundo do futebol…

Mas o desafio da construção da cultura corporal esportiva dos brasileiros e brasileiras longe ainda está de superar os preconceitos. O portal UOL nos traz uma foto das nossas atletas de futebol com os seguintes dizeres: “Atletas defendem ensaios sensuais e reclamam de preconceito com gays”.

Nada melhor do que lembrar a frase do cartunista Laerte, “senta aqui, Bolsanaro”, proferida em tom de brincadeira por ocasião de sua participação em debate sobre homofobia realizado no espaço da FSP na Flip – Festival Literário de Parati, para, brincando, levar a sério a construção de valores ético-políticos que não os defendidos por aquele “nobre” deputado.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

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