A ascensão da insignificância

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O livro A Ascensão da Insignificância, de Cornelius Castoriadis, traduzido para português pela Editorial Bizâncio, parece-me de grande atualidade. “Qual o exemplo que as sociedades do capitalismo liberal fornecem ao resto do mundo? O único valor que existe nelas é o dinheiro, a notoriedade mediática ou o poder, no sentido mais vulgar e irrisório do termo” (p. 70). Por outro lado, o trabalho da esmagadora maioria dos jornalistas, dos comentaristas, dos intelectuais são mais “justificadores da ordem estabelecida” (p. 97) do que um contra-poder ao poder do neoliberalismo vigente.
O defeito não é de hoje, de fato. Heidegger e Sartre chegaram ao ponto de manifestar entusiasmo incontido: Heidegger pela ditadura de Hitler e Sartre pelas ditaduras de Castro e Mao. Cornelius Castoriadis é da opinião que “temos de nos desembaraçar, ao mesmo tempo, da sobre e da subvalorização do intelectual. Existiram pensadores e escritores, que tiveram grande influência, na História, mas nem todos no melhor sentido” (p. 98).
Hoje, segundo o mesmo autor, o intelectual faz parte do sistema que o contrata, que o remunera, que o condiciona (p. 99). E, por isso, ”há traição da parte dos próprios críticos, quanto ao seu papel de críticos; há traição, por parte dos autores, quanto à sua responsabilidade e rigor; e há a vasta cumplicidade do público, que está longe de ser inocente, neste assunto, na medida em que aceita este joguinho e que se adequa àquilo que lhe é fornecido” (pp. 99/100). A sociedade não degenerou biologicamente, a tecnociência progride diariamente e, diariamente também, a medicina rasga novos horizontes – a sociedade degenerou, sim, etica e culturalmente, quando é de bom tom entoar ladaínhas ao conformismo diante do consumo, do deus-dinheiro, de um capitalismo demencial, da crise de sentido e significação.
Não, não recebo o termo “atual”, com grande carga afetiva, dando-lhe um significado de mau, de falso, de execrável. Digamos antes que nunca, como hoje, uma crise económica e social e política se tornou tão visível (até nas próprias religiões). Não é por acaso que vivemos a Sociedade do Conhecimento da Era da Informação! Nos meus tempos de rapaz (bem me lembro), havia um sentimento de firme estabilidade e de radical confiança em determinados valores – e valores que eram uma continuidade do mundo clássico e do cristianismo.
Vivíamos então, em Portugal, um regime político de ditadura e um clima social de catolicentrismo? Não o nego, mas quando se apontavam “os amanhãs que cantam”, no capitalismo ou no marxismo, uma grande esperança iluminava as palavras, porque se descortinavam Absolutos em que se acreditava: Deus (Senhor e Pai), a Razão, a Liberdade, a Democracia, a Luta de Classes. E o mundo, se era um mistério, não era um absurdo.
Só que uma igreja sem cristianismo e um cristianismo sem igreja; o desmoronamento paulatino de muitas das ideologias de esquerda; o descrédito dos caudilhos que se dizem marxistas; o triunfo da sociedade de consumo; o espírito quantitativista, sem uma réstea de solidariedade, do neoliberalismo que nos sufoca – tudo isto gerou um mundo onde os valores vitais de solidariedade e democracia desaparecem, diante dos valores numéricos, unicamente numéricos, do capital. Por isso, no nosso tempo, o ser humano é parte, não é pessoa. E, porque parte de um todo, ao serviço do lucro, a facilidade com que é explorado, manipulado e… sem consciência da sua eminente dignidade, dado que “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”.
A ascensão da insignificância, ou seja, da corrupção, do compadrio, do mediático, do conformismo, do absentismo e de um tipo de homem que se contenta com a pseudo-felicidade do ter que não sabe ser gerou um futebol que reproduz e multiplica uma sociedade economicamente desigual e de um saber onde a dimensão antropológica não conta. Cornelius Castoriadis escreve: “Deveríamos querer uma sociedade, na qual os valores económicos deixassem de ser centrais ou exclusivos, em que a economia voltasse a ser posta no seu devido lugar, enquanto simples meio e não enquanto finalidade última da existência humana” (p. 110).
Se não laboro em erro grave, tudo o que venho de escrever deveria ser escutado e posto em prática pelos dirigentes da Fifa e da Uefa e dos maiores clubes de futebol para que um dia acontecesse o anseado desenvolvimento desportivo.
É que o desenvolvimento supõe tudo para todos e não só para o Real Madrid, ou o Manchester United, ou o Manchester City, ou o Bayern de Munique, ou o Barcelona, ou o Chelsea. Mas não é próprio do neoliberalismo mundializado que nos governa dar tudo a meia dúzia de endinheirados, conluiados com o poder, e umas migalhas aos outros? Até no futebol se pode vislumbrar a sociedade em que vivemos.
Não é possível pensar o desporto sem um quadro de valores. Ser pessoa e agir como tal implica a referência a valores, incluindo os valores morais. Mas não é amoral o mundo empresarial que preside ao futebol? Verdadeiramente, o que tem a ver a moral com as vitórias e as derrotas nas competições desportivas?
Repito o que venho dizendo há muitos anos: o desporto de alta competição reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista. Esquecer isto é não compreender o futebol que entusiasma e apaixona o mundo de hoje.

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br
 

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