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Passamos os dias posteriores à estreia na Copa América de 2015 discutindo o talento de Neymar. Na segunda rodada, debatemos o destempero e o quanto a seleção brasileira depende de seu único fora de série. Depois, o assunto era o substituto do camisa 10 e como o time nacional se comportaria após a suspensão dele. A edição deste ano da competição continental tem sido um exemplo do quanto o futebol, a despeito de ser um esporte coletivo, é visto invariavelmente a partir de individualidades.

Questionar individualidades é o argumento mais corriqueiro entre os detratores da seleção brasileira. “Ora, fulano não pode ser titular do time”, “ah, mas essa equipe tem jogadores com baixo nível técnico” e “é um time excessivamente dependente de Neymar”: quantas vezes você ouviu algo do gênero?

O curioso é que as respostas também apelam a individualidades. “Quem você convocaria no lugar dos jogadores que estão aí?”, “Quem faltou no time?”, “Todos os jogadores representam equipes de bom nível no futebol internacional”: esses são apenas alguns exemplos do quanto a análise coletiva é sempre colocada em perspectiva individual.

A seleção brasileira talvez seja o melhor exemplo para isso, mas está longe de ser o único. A Argentina é incensada e avaliada como favorita em todas as competições que disputa há anos, ainda que o time não tenha um histórico de conquistas. Afinal, é o elenco que reúne Messi, Di María, Agüero, Mascherano, Higuaín e outros atletas que são destaques em suas equipes. A análise sempre parte dos talentos, independentemente de como é o subproduto dessa soma.

A mentalidade personalista é um dos gigantescos problemas que a análise de futebol sofre, e não apenas no Brasil. É muito por isso que o Campeonato Brasileiro tem oito técnicos decepados em oito rodadas – Doriva, que deixou o Vasco e foi substituído horas depois por Celso Roth, foi a última adição a essa lista. O fracasso de um projeto coletivo sempre é visto do ponto de vista individual.

Pense em qualquer análise sobre qualquer jogo, e essa análise pode partir da imprensa, de profissionais do futebol ou de torcedores comuns. Os gols sempre são vistos como méritos ou erros individuais, ainda que raramente aconteçam assim. As vitórias e as derrotas sempre são explicadas como resultado dessas ações.

O futebol é um esporte coletivo complexo, com 11 jogadores que realizam ações diferentes durante os 90 minutos. É raro existir em uma partida um instante em que qualquer um dos atletas esteja totalmente desprovido de função na movimentação ofensiva ou no balanço defensivo.

Por ser um ambiente complexo, com tantas coisas acontecendo concomitantemente, o futebol tem de ser visto do ponto de vista sistêmico. As ações importam, é claro, mas são partes de um contexto e causam impacto determinante nesse âmbito.

A seleção sub-20, que ficou com o vice-campeonato mundial em torneio disputado na Nova Zelândia, é um bom exemplo disso. O time foi convocado por Alexandre Gallo, técnico que não sobreviveu até o torneio e foi substituído pouco antes por Rogério Micale.

A mudança da peça de comando, com os mesmos jogadores, alterou drasticamente o perfil do time. Micale instituiu um novo padrão tático, fez mudanças significativas – a linha defensiva mais adiantada, a marcação pressão e o meio-campo mais cheio, por exemplo – e incutiu na equipe um padrão de toque de bola que Gallo não havia conseguido (ou desejado) impor.

A seleção brasileira vice-campeã mundial sub-20 pode ser individualmente inferior ao time que conquistou o Mundial da categoria em 2011 (aquela geração, que tinha nomes como Danilo, Casemiro, Oscar, Philippe Coutinho, Lucas e Neymar, prescindiu de alguns titulares e ainda assim obteve a taça). No entanto, seria simplório demais comparar os dois times apenas do ponto de vista individual.

Mesmo sem o título, o time de Micale é um projeto bem feito. Um projeto de curto prazo, diga-se, mas um projeto bem feito. É uma seleção com recursos, padrão e boas ideias no sentido coletivo. São características que a equipe nacional não tem entre os profissionais, por exemplo.

Dunga, que voltou ao comando da seleção brasileira após a vexatória participação na Copa de 2014, amealhou 11 vitórias em seus 11 primeiros jogos na segunda passagem pela equipe nacional. A base disso foi uma combinação entre velocidade, talento individual e proposta de contragolpes.

No entanto, o time de Dunga ficou marcado apenas pelo talento individual. Baseado na força de Neymar, um dos principais nomes do futebol brasileiro nas últimas décadas, o elenco montado pelo treinador virou “a seleção do Neymar”. Mais uma vez, a análise individual foi posta à frente de um senso de contexto.

E por que esse é um problema para quem avalia o futebol? A Alemanha, campeã da Copa do Mundo em 2014, é um bom exemplo: é um time recheado de excelentes jogadores, mas não há um supercraque. Os maiores talentos individuais são colocados em funções que contribuem para um contexto vitorioso.

A Espanha que venceu a Copa de 2010 também era assim. Era uma geração de jogadores que mudaram o futebol, como Xavi e Iniesta, e havia ali uma proposta de domínio da bola que fazia total sentido para aproveitar aqueles talentos. Contudo, não era um projeto alicerçado apenas em individualidades.

Nós nos acostumamos a repetir que “Garrincha ganhou sozinho a Copa do Mundo de 1962” e que “Maradona carregou a Argentina ao título em 1986”. Esse padrão de análise perpassa tudo que falamos sobre times ou seleções: tudo é olhado a partir dos talentos individuais e de como eles podem render isoladamente.

A questão é que o futebol é um jogo de ações individuais, mas não um jogo individual. É uma sutileza, mas entender isso é fundamental para dar profundidade a qualquer análise sobre o que acontece em campo.

Se não for assim, seguiremos buscando projetos individuais e apoiando nossas visões em avaliações isoladas. Precisamos crescer a ponto de superar isso e olhar para o contexto.

É a falta de contexto que produz coisas como a atual seleção brasileira: um time montado pensando no curtíssimo prazo, focado em vencer jogos a despeito do que pode acontecer no próximo mês ou num futuro não tão iminente.

Quando a Copa do Mundo de 2018 acabar, independentemente do resultado, estaremos discutindo “por que os talentos brasileiros foram aproveitados de tal forma” ou “por que formamos jogadores com determinada característica”. Se mantivermos a atual mentalidade, seguiremos sempre olhando para o ponto individual e vamos ignorar o que é realmente relevante: o contexto.

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