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, Universidade do Futebol
Lionel Messi: o talento se encerra em si? (Divulgação: Site Oficial FC Barcelona)

 
Em algum momento, pretendo me deter mais atentamente à ótima Six Dreams (Amazon Prime), série recém-lançada que acompanha a temporada de seis personagens importantes do futebol espanhol de elite durante todo o último ano. Um deles é Saúl Ñiguez, do Atletico de Madrid.
Na reta final da última temporada, o Atletico estava a cinco pontos do então líder Barcelona, quando foi visitá-lo no Camp Nou. Como têm sido os confrontos recentes entre as equipes (grande mérito de Diego Simeone neste sentido, diga-se), o jogo foi absolutamente equilibrado. A vitória do Barcelona se deu pelo placar mínimo, com um gol obsceno de Messi. Depois do jogo, conversando com seu pai, Saúl ainda estava indignado. A fala dele, já no final do diálogo, me chamou a atenção:
– O pior é que ele nem treina. (…) Ele não treina! Ele é tão bom que não precisa treinar. É muito fácil para ele.

***

Messi não é o primeiro e nem será o último jogador que nos parece ser tão bom que não precisa treinar (mesmo que seja um fundamento, apenas). Jogadores como ele, na nossa visão, foram agraciados com um tipo especial daquilo que nos habituamos a chamar de talento. Sabemos muito bem, ao menos são as informações que nos chegam, que Messi é um excelente profissional, responsável, cuida de si e do grupo, e que há um longo trabalho oculto na magia daquele pé esquerdo. Ao mesmo tempo, parece haver alguma coisa nele que não há nos outros.
Enquanto isso, ainda nos degladiamos para saber qual é a real proporção deste talento na performance de um jogador como ele. Sabemos que, por um lado, ainda é latente a ideia de que o talento basta: não há trabalho que possa afiná-lo. Por outro, há uma vertente que acredita na ideia de que através do trabalho absolutamente tudo é possível. Não nego que me soa uma ideia bastante perigosa, mas é fato que jogadores e equipes não são, eles estão: podem ir para o alto e adiante. É disso, afinal, que cuidamos na Pedagogia do Esporte. De toda forma, há uma espécie de dualidade, que talvez possamos dissolver aqui.
Para isso, acho importante uma lembrança filosófica.
Quando falamos de talento, falamos basicamente do assim chamado inatismo. O talento, para além da parábola bíblica, seria uma habilidade inata, um traço distintivo do indivíduo desde o seu nascimento. No inatismo a que estamos habituados, parece comum entender que o talento basta: quem nasceu com ele, está dispensado do trabalho duro. Mas será mesmo assim? Bom, como bem sabemos, a paternidade do inatismo pode ser dada a Platão. Platão foi discípulo de Sócrates que, décadas antes, havia entrado em um jogo duro com um grupo de filósofos que migrara da Ásia Menor em direção à Ática: os sofistas.
As diferenças básicas entre Sócrates e os sofistas eram duas: Sócrates acreditava na verdade; os sofistas, não. Por isso, os sofistas eram tidos como relativistas, ou céticos. Além disso, havia uma divergência metodológica. Enquanto os sofistas acreditavam na retórica (eloquência individual com o objetivo de persuadir), Sócrates acreditava na dialética, no diálogo entre sujeitos, que permitia que o ouvinte chegasse à verdade por si mesmo, através das rigorosas perguntas feitas pelo interlocutor. Assim como a mãe fora uma parteira de corpos, Sócrates queria ser um parteiro de almas. O conhecimento, assim como um trabalho de parto, era doloroso e deveria vir do próprio indivíduo.
Pois bem, o mais notório herdeiro do pensamento socrático é exatamente Platão. Mas ele (de forma ligeiramente religiosa) acredita que existem dois mundos: um mundo das ideias (ou inteligível), onde está a verdade, e um mundo sensível, este em que vivemos, um mundo das ilusões (pois os sentidos nos enganam). No olhar platônico, repare bem, não se pode aprender nada: todos nascemos sabendo. A explicação está no Mito de Er: no mundo das ideias, prestes a reencarnar neste mundo sensível (Platão acreditava na imortalidade da alma), nós mergulhamos em um rio, o rio Lethe. O rio Lethe é o rio do esquecimento. Quanto mais profundo o mergulho no Lethe, maior o esquecimento, ou seja: mais distante estará a verdade no mundo sensível. Quanto menor o mergulho, mais próximo. A intensidade do mergulho está diretamente relacionada com o tipo de atividade intelectual que o sujeito realizará no mundo sensível. Os filósofos, por exemplo, mergulhavam apenas brevemente no Lethe. Qual seria, aliás, a intensidade do nosso mergulho como treinadores?
Isso significa que Platão não entende o conhecimento como contemplação (como fará Aristóteles mais tarde), mas como reminiscência. Conhecimento é lembrança: é lembrar-se de algo que se sabe, sem saber que se sabe! Assim, o talento, em si, não seria suficiente, pois estaria adormecido, à espera de um parteiro/obstetra de (um treinador ou treinadora, por exemplo), que possa despertá-lo e trazê-lo à vida.

***

Na fala de Saúl sobre Messi, imagino que os leitores e leitoras também percebam um certo descompasso em relação ao que escrevi nos parágrafos anteriores. Saúl (ainda sob efeito do jogo, compreensível) dá a entender que, para Messi, o talento basta. Mas, nas linhas que escrevi acima, me parece que não: qual foi a quantidade e a qualidade dos estímulos a que Messi esteve submetido desde a mais tenra idade? Qual é o seu envolvimento afetivo com o clube, em todas as suas dimensões? Em que nível está enraizado o DNA do clube e o modelo de jogo nas suas estruturas cognitivas? Assim como o mais belo instrumento não toca as melhores notas se não estiver corretamente afinado, Messi poderia ser menos genial, talvez fosse comum, se não estivesse em um ambiente frutífero, sob estímulos adequados. Talvez o talento não baste. É preciso afinação.
A afinação, aliás, não ocorre no excesso, nem na falta. A afinação é precisa! A afinação do atleta e da equipe passam, evidentemente, pela inteligência e pela sensibilidade do treinador, que pode tanto lidar com um talento evidente, como o de Messi, quanto com o talento escondido, adormecido, daqueles atletas que sabem sem saber que sabem (me lembro aqui de Guimarães Rosa). Não somos inatistas, somos prudentes: quanto talento não se perde por mau treino? Quanto talento não se perde porque damos ao humano um tratamento de coisa? Despertar o que já está desperto não é necessariamente simples, mas despertar o que está silenciado, ver o que não é normalmente visto, iluminar a escuridão, são tarefas das mais sofisticadas, e que exigem de nós, treinadores e treinadoras, o mesmo afinamento que queremos dos nossos atletas e da equipe.
O que, evidente, não é fácil.
Mas é possível.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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