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Mauricio Pochettino, treinador do Tottenham: ao que tudo indica, uma liderança baseada na conexão humana. (Photo by James Williamson – AMA/Getty Images | Divulgação: Tottenham Hotspurs)

 
Desde quando passei a olhar para o futebol não mais como diversão, mas como uma profissão, percebo que existe, no entorno, uma preocupação bastante recorrente e quase que obsessiva com a noção de liderança. Lembro-me de ter feito uma disciplina com o Professor João Paulo Medina, há alguns anos, quando ele permitiu que a classe escolhesse os temas de maior interesse, e fiquei surpreso com o peso que a liderança parecia exercer sobre os meus colegas. Naquela época, ainda estávamos sob efeito de toda uma literatura que, muito embora tenha nos apresentado alguns dos métodos de colegas treinadores de extremo sucesso, também contribuiu para uma razoável romantização destes mesmos colegas, além de colocá-los em pequenos rótulos (carismático, situacional, democrático…) que acabaram não apenas demarcando a eles próprios, como também a nós mesmos. Por fim, todos os caminhos nos levavam, e ainda levam, à questão primordial: como expressar (bem) a minha própria liderança?
Sobre isso, em linhas gerais, tenho duas desconfianças: a primeira é que as discussões mais sisudas sobre a liderança acompanham os contributos científicos recebidos pelo futebol em um passado recente. Neste caso, especialmente, parece haver uma contribuição importante da administração e da gestão esportiva, cujas terminologias, depois de importadas, parecem ter alimentado alguns dos pequenos rótulos de que falei acima. Mas é a outra desconfiança que mais me preocupa: me parece que a obsessão sobre a liderança reside em uma insegurança bastante razoável sobre nós mesmos, sobre as nossas capacidades, ao lado de um importante anseio por aprovação, especialmente nas novas gerações. Não por acaso, este mesmo tema aparece, de forma epidêmica, em diversas outras áreas, para muito além do futebol. Por entre capítulos de livros e entrevistas quaisquer, buscamos um lugar, um porto que mostre que a nossa liderança pode, de fato, estar segura. Buscamos afirmar a nós mesmos.
Por isso, me incomodam profundamente alguns dos olhares mais objetivos e herméticos sobre a arte de liderar. No caso brasileiro, especificamente, sinto que alimentamos um sentimento autoritário, levemente belicoso, ao mesmo em que também existe uma visão absolutamente idealizada, distante daquilo que faz da liderança não uma face de si própria, mas sim da humanidade de quem a expressa. As imagens de liderança que nos parecem familiares estão associadas com a obrigação de acerto a todo custo, de portar sempre a última palavra, de ser o centro do debate e das ideias dentro de um determinado grupo, de ser o salvador/salvadora, de estar dotado de uma espécie de olhar de sobrevoo, como diria alguém (olhar de cima para baixo, visão panorâmica). Liderar, por fim, parece ser visto como um exemplo de força, não exatamente de poder.
Aqui, façamos um adendo: vamos refletir, por um instante, sobre a distinção entre poder e força. Veja bem, a condição a priori da força é a imposição. A força não pede licença, ela sobrevive à base da imposição, precisa ser empurrada goela abaixo, física ou mentalmente. Se não, provavelmente não é força. O poder, por sua vez, parte de outra premissa: ele deve ser conquistado. Para que se tenha poder, é preciso que ele lhe seja concedido, emprestado por uma pessoa ou por um grupo. Neste raciocínio, repare bem, existe uma peculiaridade: o poder exige que quem o conquista seja forte, para enfrentar os profundos riscos da aprovação alheia. A força, por sua vez, é solitária, é a admissão última da inabilidade do sujeito que a exerce em fazer-se poderoso. A força, veja só, é o instrumento do fraco.¹
Se defendemos um olhar humanizado para o jogo, é evidente que também precisamos defender um olhar humanizado da liderança – ou então, ela irá nos sufocar. Um dos personagens que parece ter percebido isso com enorme perspicácia é o excelente Mauricio Pochettino, hoje treinador do Tottenham. Em ótima entrevista, concedida há dois anos, Pochettino faz um apontamento muito interessante, quando perguntado sobre como se lidera as novas gerações:

Você tem que tentar sentir como eles se sentem, [demonstrar] empatia.
Hoje o líder humano é o líder que triunfa. A mão de ferro é coisa do
passado. Os meninos também sentem paixão, mas você precisa ajudá-los a
descobrir paixão, inspiração. Mais do que motivá-los, você precisa cuidar deles.
Hoje tudo tende a esfriar as relações, sustentá-las pelas mensagenzinhas,
whatsapp…É difícil para as pessoas se relacionar, conversar, olhar nos olhos,
tocar…Nós que viemos de outra geração, e que estamos no meio, temos a
responsabilidade de que esta nova geração não perca o contato, a fala, a relação,
que é definitiva no futebol. A tática nada mais é do que a relação que você
tem com seu parceiro, no final é isso. Com base em como nos relacionamos,
definimos como jogamos
(tradução livre).

Na resposta seguinte, quando responde como fazer tudo aquilo sem ser uma espécie de sargento, Pochettino é mais do que preciso:

Com espontaneidade. Não existem problemas se você, em frente a um grupo ou uma pessoa,
se comporta genuinamente. O pior que pode fazer a um jogador de futebol é esconder quem você é,
e agir de uma forma, depois de outra… Confiar em quem você é, sempre com a honestidade
à sua frente. (…) Pode ser entediante, pode mostrar sua face menos amável, pode estar perto ou longe,
mas será você. Seguir quem você é, crer na sua intuição, confiar em você mesmo
(tradução livre).

De imediato, as palavras de Pochettino me lançam para aquele conhecido aforismo de Friedrich Nietzsche: ‘torna-te quem tu és’. As leituras e os arquétipos diversos sobre liderança pouco serão válidos se não estiverem a nosso próprio serviço, se não fizerem com que saibamos não apenas sobre as coisas, mas principalmente sobre nós mesmos, por uma razão muito simples: este não apenas é o caminho da honestidade de que fala Pochettino, como também é o caminho da humanidade. E para além dos ideais doentios de sucesso, este também é o caminho do equívoco, da fraqueza, dos vícios (leia-se, contrário das virtudes), dos limites, da vulnerabilidade. Para que se tenha poder, para que se crie uma conexão profunda a ponto de que o outro nos conceda a sua confiança, também é preciso expressar o elo fraco, é preciso caminhar à noite, ainda que sutilmente, ao lado das sombras que não se vê. Se não cuidarmos disso, a vida cuidará por nós.
Ou o jogo, tanto faz.

***

¹ Citação feita sob a lembrança das notáveis aulas do Professor Mauro Cardoso Simões, na FCA Unicamp, a quem deixo uma grande saudação.
 
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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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