A eterna comparação entre os salários de Neymar e Marta

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Crédito imagem – Orlando City/Site oficial

Desde a crítica da Presidência da República à questão do ENEM que destacou a discrepância entre os vencimentos de Marta e Neymar, a discussão sobre as diferenças entre os vencimentos dos dois principais jogadores brasileiros de futebol nos últimos anos voltou à tona nas mesas redondas e redes sociais.

Um dos pontos levantados com maior frequência nessa discussão é a evidente injustiça existente no fato de que dois seres humanos que entregam desempenhos similares – a discussão sobre o desempenho é bastante subjetiva, e não vamos nos aprofundar nela aqui – serem recompensados de maneira tão desproporcional. Outro aspecto relevante é o contraponto argumentativo que defende que o futebol masculino atrai um público muito maior, movimentando muito mais recursos, o que seria o suficiente para considerarmos normal, ou aceitável, tamanha discrepância. Para os mais desavisados, a diferença nos valores dos vencimentos de Neymar e Marta era de 269 vezes, de acordo com levantamento realizado pela revista France Football em abril de 2019. Escala de grandeza semelhante ao abismo entre os salários de outros grandes nomes do esporte, como Ada Hegerberg e Messi, por exemplo.

Retirar então essa carga individual para começarmos a discussão é fundamental: a questão aqui não é diminuir a importância ou os feitos de Neymar, tampouco exaltar Marta – o que é feito por muita gente oportunista apenas para atingir o jogador do Paris Saint Germain. O que é preciso entender em primeiro lugar, para começarmos discussões mais relevantes, são as razões que levam a essa diferença de quase 300 vezes na remuneração de homens e mulheres no futebol, e se acreditamos que tal realidade é admissível.

É um fato que o futebol masculino atrai um público maior e, por consequência, movimenta mais recursos. A competição pelos melhores talentos pressiona os salários cada vez mais para o alto. Não é só isso, mas essas linhas gerais já nos ajudam a compreender o que precisamos nesse momento. O futebol feminino, ao contrário, tem um público ainda mais restrito, movimentando menos recursos e, em muitos países, ainda buscando apenas sua viabilidade. Temos aqui um fato, que traz um aparente teor de normalidade para a discrepância de salários entre homens e mulheres na elite do futebol mundial, mas será que tal fato é realmente natural? Quais razões fazem o futebol masculino ter um público maior do que o feminino?

A chamada sociedade ocidental tem milênios de machismo para corrigir e, se estamos fazendo um caminho de volta em direção à igualdade de direitos entre homens e mulheres, a caminhada começou faz muito pouco tempo. A maratona ainda está nos seus primeiros passos. O esporte, e sobretudo o futebol, foi entendido como uma atividade exclusivamente masculina por muitos anos, praticamente durante todo o século XX. O exemplo que temos em nosso próprio quintal é a proibição da prática por mulheres ao longo de quatro décadas.

Já na Inglaterra, o futebol feminino deu passos muito promissores no período da Primeira Guerra Mundial, quando elas tomaram os campos e começaram a atrair cada vez mais público. Em 1920, mais de 53 mil pessoas acompanharam uma partida entre duas equipes formadas por mulheres, provando que o suposto menor interesse do público tem pouco de natural e muito mais de social, cultural e histórico. Foi uma escolha da federação inglesa ir minando o futebol feminino no país nos anos seguintes.

Marta, Hegerberg e outras estrelas precisam ganhar mais. Mas não por elas, e sim por serem símbolos e gerarem a repercussão que geram. É por essa razão que precisam, cada vez mais, serem tão bem remuneradas quantos seus pares masculinos.

Para além dos vencimentos das grandes estrelas, o que é realmente fundamental e urgente é que as chances de meninos e meninas se tornarem jogadores, jogadoras, ou qualquer coisa que queiram, sejam as mesmas, ou ao menos tão justas quanto possível no momento.

Quem defende a pureza teoricamente natural do mercado para regular essas desigualdades esquece os milhares de anos de um machismo nada natural que trazemos como herança e que oferecem como legado todas as discrepâncias entre homens e mulheres observadas no futebol e fora dele. Natural – ou humano – nesse caso, talvez seja buscar utilizar todos os mecanismos possíveis para diminuir essas injustiças tão rapidamente quanto possível.

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Jornalista mestre em Ciências em Motricidade especializado nos direitos das crianças e adolescentes no futebol e idealizador do site industriadebase.com. Analista de conteúdos institucionais na Universidade do Futebol.

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