Concepções sobre o futebol a partir do materialismo dialético

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Crédito imagem – Diogo Reis/AGIF/Site CBF

Algumas pessoas dizem que o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes existentes no mundo; já outras afirmam que o futebol não é um dos temas mais importantes do mundo: ele é precisamente o mais importante! Ainda que considerando estes flertes teóricos com o senso comum que emerge da sabedoria popular, procuramos nesse texto realizar uma abordagem acerca do futebol enquanto dimensão da vida que, ao perpassar os contextos do lazer, da cultura, da política e da economia, se encontra na posição de objeto de análise da ciência.

Uma questão deve ser inicialmente colocada: de que ciência falamos? Qual o paradigma epistemológico – de produção do conhecimento – que pode se constituir em método de análise a respeito do tema futebol? Precisamos retroceder à natureza da vida do homem primitivo para buscar respostas à pergunta formulada. No tempo das cavernas os homens se encantavam e também se amedrontavam diante de fenômenos da natureza como os raios, relâmpagos, trovões e tempestades. Para o homo sapiens dos primórdios as intempéries do tempo seriam mitos e mensagens dos deuses que habitavam o seu imaginário, uma vez que inexistiam possibilidades de elucidação de tais vozes e imagens dos céus. O obscurantismo permaneceu entre nós até a fundação do positivismo por Auguste Comte, no século XIX, que representou o início das concepções científicas sobre o homem e a natureza.

A ciência positivista, no entanto, recorre a avaliações dos objetos a partir da métrica, do cálculo e dos postulados das “ciências duras”, como a matemática, a física e a química. As características de imutabilidade (ou não permeabilidade) destas áreas do conhecimento resulta na captação imediata e palpável das propriedades dos fenômenos investigados. A realização de projetos de engenharia e a descoberta de vacinas e medicamentos decorrem, em grande e majoritária proporção, da produção de conhecimentos pelo viés positivista. Outra questão também se coloca: o futebol pode ser analisado pela lente do positivismo?

De acordo com Adorno e Horkheimer (1985), na Dialética do Esclarecimento, o positivismo, ao elucidar os mitos que atormentavam os homens na pré-história, se converteu em nova espécie de mito ao se configurar como veículo único para acessar a verdade absoluta a respeito dos fatos. Os cientistas positivistas estariam superando a antiga mitologia e afirmando uma ciência incapaz de apreender as contradições históricas que determinam notadamente os fatos sociais. O positivismo, enfim, pode analisar o futebol a partir de dados como médias de gols em diferentes copas do mundo, tempo de posse de bola das equipes que disputam o campeonato brasileiro ou diferenças de movimentação financeira entre a Premier League inglesa e a Bundesliga alemã. No entanto, pretendemos interpretar o futebol à luz de uma epistemologia que não se fundamente no dado estatístico e nos modelos matemáticos, mas que se sustenta por compreender nosso objeto de estudo a partir de seus nexos constitutivos históricos, sociais e culturais. Recorremos, então, ao materialismo dialético como meio de produção do conhecimento.

Embates entre gigantes da filosofia proporcionaram a criação do materialismo dialético. Georg Hegel defendia que as concepções do indivíduo (o idealismo do sujeito) seriam responsáveis pela construção do mundo palpável, que também exerceria suas influências sobre a subjetividade. Tratava-se da dialética hegeliana, invertida por Karl Marx de forma radical ao depositar nas condições materiais da existência o ponto de partida de sua dialética. Surgiu assim o materialismo dialético, como pensamento científico marxista apoiado na existência de pares dialéticos capazes de apreender as contradições características dos fatos sociais. Esses pares são: aparência / essência, exclusão / inclusão, parte / todo, processo / produto e racionalidades instrumental / emancipatória.

As condições materiais do mundo contemporâneo estão organizadas segundo formas específicas de racionalidade, ou modo de organização da razão: temos então a racionalidade instrumental (ADORNO e HORKHEIMER, 1985) e a racionalidade tecnológica (MARCUSE, 1979). A primeira compreende que os fenômenos sociais e culturais, dentre os quais incluímos o futebol, são instrumentalizados pelo sistema capitalista de produção em favor do lucro, da produtividade, do pragmatismo e do utilitarismo; a segunda entende que a razão fundamentada na tecnologia pressupõe a supremacia dos aparatos técnicos sobre os mais nobres ideais humanos. Se compreendermos que o progresso científico e tecnológico resultou na bomba atômica lançada pelos americanos sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial, mas não foi capaz de erradicar a fome e a violência do planeta, identificamos a barbárie exposta pela razão em que o capital e a técnica relegam o ser humano a um segundo plano.

O futebol é um fenômeno de lazer, quando compreendemos este último como uma dimensão lúdica da experiência humana, associada à cultura e dependente das relações de tempo e espaço (GOMES, 2011). Quando jogado na rua, nas praias e nos campinhos de várzea, o futebol se encontra com suas raízes lúdicas e se move em direção à emancipação do sujeito, existente na criatividade, na modificação e na adaptação das regras e na prioridade do processo (o jogo em si) em relação ao produto (o resultado numérico do jogo). Por outro lado, quando o futebol se torna business as determinações que sobre ele incidem são originárias do modo de produção capitalista, ávido por lucros e pelas vitórias acima do fair play. É nesse contexto pragmático que o futebol deixa de lado a arte, a singularidade de cada futebolista, e cede espaço aos clubes, treinadores e atletas convertidos em mercadorias.

Na aparência, o futebol de alto rendimento promove valores como a educação, o respeito às regras, a ascensão social e o espírito “olimpicamente” ético. Por outro lado, verificamos no futebol “espetáculo” uma essência construída historicamente a partir de alguns pilares menos nobres: a exclusão dos menos aptos, a conversão dos atletas em mercadorias, a busca pela vitória a qualquer preço e a falsa propagação de valores disseminados por uma Indústria Cultural (Adorno e Horkheimer, 1985) que fabrica necessidades artificiais de consumo como se genuinamente humanas fossem, afinal os pacotes de pay per view das redes de TVs por assinatura precisam ser comercializados.

Ora, o futebol não é uma instituição revestida por uma redoma de vidro, impermeável às contradições e desigualdades sociais e culturais de nosso tempo. Pelo contrário, o futebol é um microcosmo da realidade mais ampla com todas as suas mazelas e virtudes, dos pontos de vista ético e financeiro. Trata-se da relação existente entre a parte (o futebol) e o todo (o sistema do capital, notadamente no mundo ocidental). O todo constitui a parte, o que confere ao futebol o poder de exprimir a realidade do planeta, tanto na exclusão quanto em eventuais inclusões, tanto na violência quanto na fraternidade.

A seleção brasileira nos serve como um referencial das modificações pelas quais o Brasil e o mundo passaram desde os tempos da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética até os dias de hoje. A derrota para o Uruguai, na Copa de 1950, fez com que a nossa seleção simbolizasse o complexo de vira-latas, uma expressão criada por Nelson Rodrigues para evidenciar uma suposta falta de autoestima do povo brasileiro diante de outras nações. A derrota para os húngaros na Copa de 1954 agravou esse tipo de preconceito, definitivamente superado com a conquista do nosso primeiro título mundial, na Copa de 1958, na Suécia. Algumas circunstâncias de outros mundiais apontam para conexões entre a política e o futebol, como no caso do tricampeonato mundial brasileiro em 1970, quando a ditadura militar, através do governo Médici, procurou capitalizar os ganhos esportivos em prol do regime nacional de exceção. É interessante ressaltar que fato semelhante ocorreu na Copa de 1978, disputada na Argentina, quando a conquista do mundial pelo país sede obteve repercussão favorável à ditadura portenha do General Videla. Mais recentemente, podemos observar nas seleções latino-americanas e africanas, em diversas copas do mundo, um grande número de atletas atuando no futebol da Europa. Trata-se da nova colonização, que expropria o país dominado em favor da metrópole: não nos referimos à extração de pau-brasil ou de ouro, mas à contratação dos atletas brasileiros, argentinos, marfinenses ou camaroneses pelos grandes clubes da Inglaterra, da Espanha, de Portugal, da França, da Itália e da Alemanha. O futebol, nesse contexto, não representa a globalização: ele é a globalização das relações econômicas que implicam relações de poder.

A dicotomia entre processo e produto é uma outra perspectiva da compreensão do futebol pela via do materialismo dialético, ainda considerando a seleção brasileira como referencial. A paixão e o saudosismo nacionais estão voltados mais para a nossa seleção da Copa de 1982, que encantou o mundo, do que para o Brasil tetracampeão em 1994. Essas constatações partem do pressuposto que a estética e a arte podem superar o pragmatismo na consciência coletiva de uma nação, uma vez que os lances maravilhosos de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Júnior, na Espanha (1982), representam a nostalgia em relação a um modo de jogar futebol que não venceu, mas convenceu a todos que apreciam o esporte em sua essência lúdica e artística. Ainda que contasse com a arte de Romário e Bebeto, o futebol pragmático apresentado pelo Brasil em 1994 traduz um traço de comportamento social que destaca o resultado final, o título e o produto, em detrimento do processo. Para os poetas e sonhadores, afinal, a travessia não conduz a um determinado fim: a travessia é o caminho. Assim, quem ousaria afirmar que o produto teria hegemonia sobre o processo? A resposta pode estar na fantástica seleção brasileira dirigida por Telê Santana, em 1982.

O materialismo dialético, através de seus pares, não realiza o diagnóstico de momento, como faz um exame de ressonância magnética. Essa vertente de produção do conhecimento não deposita a verdade absoluta em compartimentos rígidos, a partir de testes de controle, placebos, variáveis e hipóteses. O materialismo dialético encontra respaldo na teoria de Marx, que possivelmente nunca chutou uma bola, mas que sabia que a verdade depende de condições concretas postas e de contradições que caracterizam os fenômenos da sociedade, da cultura, da política, da economia, da razão enfim. O futebol é o produto (e fundamentalmente o processo) de construção de verdades que podem ser provisórias. O futebol é composto por razão e emoção, leis e suas transgressões, relações viscerais entre torcedores e clubes, arte e pragmatismo, ídolos genuínos e outros fabricados, afirmativas transitórias e contradições permanentes, e por tudo isso não podemos encarcerá-lo em conceitos definitivos. Os parágrafos acima escritos não totalizam uma conceituação, que na verdade é infinita e não pode ser realizada pelas pretensões de qualquer autor.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

GOMES,  Christianne  L.  Estudos  do Lazer  e  geopolítica  do conhecimento. Revista Licere. Belo Horizonte, V.14, N.3, p.1-25, set./2011.

MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.

Guillermo de Ávila Gonçalves é Doutor em Educação (UFG), Mestre em Ciências do Esporte (UFMG), docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) e treinador de futebol com licenças A (em andamento) e B da CBF.

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Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás, doutor em Educação / UFG, mestre em Ciências do Esporte / UFMG, licenciado em Educação Física/Esefego. Treinador Licença B / CBF (Licença A em curso)

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