Fatores que influenciam a participação de brasileiros na Champions League – Indicadores de tamanho corporal

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Crédito imagem – Vitor Santos

Pelé, Garrincha, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Kaká, Neymar. São inúmeros os talentosos futebolistas brasileiros que nos encantaram e continuam a nos encantar com tamanha qualidade tático-técnica colocada em prática nos gramados mundo afora.

De fato, ao longo do tempo, o Brasil tem se caracterizado como um país formador de grandes jogadores para o futebol mundial. De norte a sul, todos os anos surgem novos talentos oriundos das categorias de base dos diversos clubes brasileiros. Além de oferecer uma carreira esportiva ao jovem futebolista, os clubes formadores buscam otimizar os processos de prospecção, detecção e formação de jogadores visando alimentar as suas equipes profissionais, bem como gerar receitas com a venda dos futebolistas talentosos formados “em casa” para os clubes europeus, asiáticos e até mesmo norte-americanos.

Um processo formativo virtuoso e capaz de revelar tais talentos ao futebol reclama aos profissionais envolvidos neste contexto a adoção de métodos de treinamento que trabalhem o ensino-treinamento das dimensões físicas, técnicas, táticas e psicológico-comportamentais.

Apesar do futebol ser reconhecidamente um esporte multifatorial, tem sido observada uma maior representatividade de futebolistas com maiores proporções corporais em equipes de futebol (MALINA et al., 2010), revelando um possível viés na prospecção de talentos. Isso vem ocorrendo porque os jogadores maiores e que amadurecem precocemente apresentam melhores resultados nos indicadores de tamanho e composição corporal (MALINA et al., 2000) e no desempenho físico (COELHO-E-SILVA et al., 2010), provocando uma aparente vantagem competitiva (GIL et al., 2007).

Por outro lado, diversas investigações têm apontado para a limitada contribuição do tamanho corporal e da maturidade precoce sobre o desempenho técnico (MALINA et al., 2005; GOUVÊA et al., 2017) e tático dos futebolistas (BORGES et al., 2018).

Diante de informações contraditórias acerca do impacto do tamanho corporal sobre o desempenho nas dimensões físicas, técnicas e táticas, surge a questão: os futebolistas brasileiros corporalmente maiores são aqueles que jogam nas melhores equipes europeias?

Para tentar responder a esta questão, buscamos no artigo de Mendes e colaboradores (2021) identificar os efeitos do tamanho corporal sobre a ascensão profissional de futebolistas brasileiros atuando na Europa. Foram coletadas informações provenientes de 309 jogadores brasileiros que atuam nas dez principais ligas europeias – Espanha, Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Rússia, Portugal, Ucrânia, Bélgica e Turquia, conforme ranking de coeficientes de clubes da UEFA.

A partir de análises estatísticas, identificamos que o aumento de 1 cm em estatura amplia em 7% as chances de o jogador atuar em um escalão inferior (P=0,03), diminuindo, consequentemente, as chances de atuar em uma equipe de escalão superior, participante da Liga dos Campeões da UEFA. Por sua vez, a massa corporal não foi capaz de predizer a atuação dos jogadores brasileiros em diferentes escalões competitivos.

Importante fazermos uma ressalva: esta análise não considerou a posição de jogo do futebolista. Acreditamos que as diferentes posições trazem consigo diferentes características morfofuncionais aos jogadores, o que não nos permite estender essa informação para todas as posições de jogo, sendo apenas uma análise generalista.

Considerando os dados previamente publicados na literatura, conjugados aos achados da nossa investigação, observamos que as estratégias de prospecção de talentos que buscam selecionar majoritariamente jovens futebolistas altos e fortes em detrimento daqueles que apresentam qualidades tático-técnicas pode diminuir as chances destes futebolistas participarem de elencos de grandes clubes.

Em síntese, recomendamos aos profissionais que trabalham com jovens futebolistas a adoção de uma visão integrada e multifatorial do desempenho esportivo, pois enviesar os processos de prospecção e seleção de talentos apenas pela dimensão morfofuncional pode trazer resultados imediatos dentro de campo a partir das momentâneas vantagens competitivas que o tamanho corporal ocasiona, mas ao longo do tempo o tamanho corporal sozinho parece não favorecer a um maior sucesso esportivo, tampouco ser um preditor de desempenho em campo.

Link para o artigo completo

Referências consultadas

BORGES, P.H.; CUMMING, S.; RONQUE, E.R.V.; CARDOSO, F.; AVELAR, A.; RECHENCHOSKY, L.; TEOLDO, I.; RINALDI, W. Relationship Between Tactical Performance, Somatic Maturity and Functional Capabilities in Young Soccer Players. Journal of Human Kinetics, v. 64, n. 1, p. 160-169, 2018.

COELHO-E-SILVA, M.J.; FIGUEIREDO, A.J.; SEABRA, A.; NATAL, A.; VAEYENS, R.; PHILIPPAERTS, R.; CUMMING, S.; MALINA, R.M. Discrimination of U-14 soccer players by level and position. International Journal of Sports Medicine, v. 31, n. 1, p. 790-796, 2010.

GIL, S.; RUIZ, F.; IRAZUSTA, A.; GIL, J.; IRAZUSTA, J. Selection of young soccer players in terms of anthropometric and physiological factors. The Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, v. 47, n. 1, p. 25-32, 2007.

GOUVEA, M.; CYRINO, E.S.; VALENTE-DOS-SANTOS, J.; RIBEIRO, A.S.; SILVA, D.R.P.; OHARA, D.; COELHO-E-SILVA, M.J.; RONQUE, E.R.V. Comparison of skillful vs. less skilled young soccer players on anthropometric, maturation, physical fitness and time of practice. International Journal of Sports Medicine, v. 38, n. 5, p. 384-395, 2017.

MALINA, R.M.; CUMMING, S.; KONTOS, A.P.; EISENMANN, J.; RIBEIRO, B.; AROSO, J. Maturity-associated variation in sport-specific skills of youth soccer players aged 13–15 years. Journal of Sports Sciences, v. 23, n. 5, p. 515-522, 2005.

MALINA, R.M.; REYES, M.P.; EISENMANN, J.; HORTA, L.; RODRIGUES, J.; MILLER, R. Height, mass and skeletal maturity of elite Portuguese soccer players aged 11–16 years. Journal of Sports Sciences, n. 18, v. 9, p. 685-693, 2000.

MALINA, R.M.; REYES, M.P.; FIGUEIREDO, A.J.; COELHO-E-SILVA, M.J.; HORTA, L.; MILLER, R.; CHAMORRO, M.; SERRATOSA, L.; MORATE, F. Skeletal age in youth soccer player: implication for age verification. Clinical Journal of Sport Medicine, v. 20, n. 6, p. 469-474, 2010.

MENDES, C.; MENEGASSI, V.; JAIME, M.; COSTA, L.C.A.; MARQUES, P.G.; RECHENCHOSKY, L.; RINALDI, W.; BORGES, P.H. Impacto do tamanho corporal, da idade relativa e do índice de desenvolvimento humano sobre a participação de futebolistas brasileiros na Liga dos Campeões da UEFA. Retos, v. 39, n.1, p. 271-275, 2021.

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Bacharel em EF pela Universidade Estadual de Maringá. Doutorando em Educação Física pelo Programa de Pós Graduação Associado em Educação Física UEM/UEL. Treinador de futebol com passagens pelo Centro de Excelência Regional de Futebol, Fogo Maringá, Escola Furacão Sede Maringá, Associação de Surdos de Maringá, Dragon Force FC Porto, Grêmio Maringá sub-15. Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá.

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