Sobre a beleza e a transcendência de uma final

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Outro dia, assistindo alguns videos antigos, encontrei um comentário maravilhoso deste grande sujeito que foi o Armando Nogueira, no programa Apito Final da noite que antecede a decisão da Copa do Mundo de 1994, entre Brasil e Itália. Em um minuto de fala, ele diz basicamente o seguinte:

“… uma final é uma transcendência, uma final é uma comunhão. Ela transcende todos esses limites extremamente humanos da técnica, da tática, da física. Essa equipe não é a melhor equipe que no Brasil se poderia formar, do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista físico, do ponto de vista mental (…) me infundem uma confiança muito grande, e sobretudo um jogador, que eu considero estar ungido, que é o Romário.”

Para quem tem um coração em ordem, é muito difícil não se sensibilizar com uma fala dessas, pelo menos por dois motivos. Primeiro, porque não é uma análise puramente objetiva, não é uma espécie de anatomia do jogo de futebol, como agora estamos nos acostumando a fazer: pelo contrário, é uma impressão absolutamente subjetiva, muito mais empírica do que teórica, e justamente por isso é quase que inteiramente poética – é uma compreensão mais do que lúcida sobre o funcionamento de um evento esportivo decisivo. Depois, é uma fala tão importante porque, passados 26 anos, ela praticamente não envelheceu. Além de ter acertado que Romário sairia daquela Copa do Mundo canonizado – sem que tenha sido o astro daquela final, o que nos leva a crer que Romário já estivesse canonizado quando Armando Nogueira disse o que disse, praticamente todas as palavras continuam valendo, para várias equipes diferentes, e uma final continua sendo uma transcendência, uma comunhão, que vai para muito além dos limites extremamente humanos da tática e da técnica e do físico e da mente.

Bom, foi com esse trecho em mente que recebi várias das críticas ao jogo entre Palmeiras x Santos, no último sábado, pela decisão da Conmebol Libertadores. Particularmente, achei muito interessantes as críticas que denunciaram uma certa falta de qualidade estética no jogo, como se uma final precisasse ser um espetáculo surrealista – ou mesmo como se várias das finais recentes de campeonatos importantes tivessem sido jogos inquestionáveis. Onde estávamos em Brasil x Itália em 1994, Espanha x Holanda em 2010, Argentina x Alemanha em 2014 – onde estávamos em Liverpool x Tottenham, em 2019, para citar um exemplo mais recente? Entendo que um jogo dessas proporções cause uma certa expectativa, mas acho curioso como as expectativas que criamos, a partir dos torcedores, da imprensa, e às vezes de nós mesmos, profissionais do futebol, são tão demasiadamente afastadas do real, de um jeito que não seja possível qualquer outro sentimento que não o da decepção – daí a importância da gestão de expectativas, como dizem alguns colegas.

Ao contrário de algumas das denúncias que li, não me parece que o problema estético de um jogo decisivo esteja no fato de ser jogo único. Não é disso que se trata. O ponto mais importante, anterior ao fato de ser jogo único ou não, é o fato de que quando falamos de futebol, falamos de jogo: falamos de um terreno em que reina a imprevisibilidade, a incerteza, falamos de uma espécie de suspensão temporária do real, que cria uma outra realidade (é por isso que, quando jogamos, o tempo passa de uma forma diferente). Quando falamos de jogo, acho que ainda precisamos nos educar no sentido de que as forças do jogo são maiores do que as nossas forças, o jogo não existe para atender as nossas próprias vontades enquanto sujeitos, mas existe para fazer valer as suas próprias vontades enquanto jogo. Quando nos dedicamos ao planejamento, à aplicação e à avaliação de processos de treino, nós precisamos ter em mente que não fazemos isso para controlar, de alguma forma, o jogo que se joga, porque essa é uma batalha perdida na origem: todas as tentativas de controlar o jogo deslizam pelos nossos dedos sem que tenhamos a mínima condição de segurá-lo, de fato. O que podemos fazer, ao menos da forma como eu vejo o treino/jogo, é refinar as nossas capacidades de resposta aos problemas que o jogo nos apresenta. Ou seja, ao invés de treinarmos para controlar o jogo, treinamos para responder, cada vez melhor – individual, grupal e coletivamente – ao jogo que se joga, evitando ao máximo nos apegarmos a qualquer delírio de controle, pois me parece que quanto mais confrontamos a força do jogo, mais ela se impõe sobre nós. É com esse tipo de pensamento que acho que deveríamos encarar, com a mais absoluta naturalidade, que duas equipes bem treinadas – ou equipes ‘ricas de ideias’, para usar um dos clichês da moda – possam fazer um jogo decisivo abaixo da expectativa do público médio.

Como eu mesmo falei em algum outro lugar, existe um texto muito bonito do Nietzsche – que falava de futebol sem saber, diga-se, salvo engano meu no Zaratustra mesmo, em que ele defende que o sentido de um texto não está no texto em si: está na capacidade do leitor em relacionar-se ativamente com o texto que se lê, porque as possibilidades de interpretação de um texto são infinitas – quanto mais refinado e insistente for o leitor, talvez mais amplas sejam as possibilidades de leitura. Digo isso porque, a meu ver, é justamente o que acontece num jogo de futebol. Se olharmos para um jogo de futebol esperando apenas e tão somente analisá-lo, como se ele tivesse um sentido único, universal, inquestionável, sinto que perderemos aquela que talvez seja a grande potência do jogo de futebol, que é a potência do infinito, dos vários jogos dentro de um único jogo, da admissão de todos os olhares possíveis e da importância de fazer com que nosso entendimento sobre o jogo de futebol não seja necessariamente melhor apenas de acordo com a quantidade de conhecimentos que – supostamente- temos sobre o jogo – mas sim de acordo com a nossa capacidade de refinamento dos sentidos que damos ao jogo que se joga.

E é também com essas lentes que acho que poderíamos ler o jogo de sábado, pois o mesmíssimo jogo que pode ter induzido ao sono um ou outro espectador, também pode ter inquietado vários outros, e machucado vários outros, e alegrado vários outros e permitido todo e qualquer tipo de análise, inclusive de um ponto de vista tático – e com esse tipo de olhar, que lê o jogo de corpo inteiro, é que acho que podemos avançar no sentido de uma outra prática, de um outro futebol e de uma outra vida.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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