Considerações táticas sobre Liverpool x West Bromwich

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O futebol contemporâneo apresenta uma infinidade de fatores convergentes para a realização de jogos inteligentes, que são aqueles disputados por equipes que, ao se prepararem através de diversos recursos e métodos de treinamento, competem em alto nível de consciência e desempenho tático. Para Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, uma equipe tem que realizar suas ações de modo consciente, interpretando as dinâmicas do jogo e executando de forma inteligente as movimentações treinadas previamente. Para o treinador palmeirense os atletas não podem jogar de modo automático ou inconsciente. Ao contrário, diante de cada situação do jogo os jogadores deverão apresentar as soluções táticas correspondentes.

Ocorre, no entanto, que o futebol é um esporte realizado em um contexto complexo repleto de imprevisibilidades. A complexidade do futebol resulta do conjunto e das interações existentes entre as ideias de jogo, a qualidade dos jogadores e suas relações com as ideias, o contexto existente e os problemas específicos do confronto entre equipes. Surge daí a necessidade de adoção de modelos de jogo, que constituem a identidade das equipes de futebol a partir da interação entre os seguintes fatores: ideias do treinador, princípios do jogo, características do clube, contexto, jogadores e treino (OLIVEIRA, 2012).

Neste texto realizamos algumas considerações táticas a respeito da partida entre Liverpool Football Clube e West Bromwich Albion Football Club, disputado no dia 27 de Dezembro de 2020, no Estádio Anfield (em Liverpool), pela 15ª rodada da Premier League (campeonato inglês) 2020/2021. O jogo terminou empatado em 1 X 1. Em situações opostas na tabela de classificação, com o Liverpool lutando pelo título e o West Bromwich buscando a saída da zona do rebaixamento para a 2ª divisão nacional, as equipes apresentaram modelos de jogo diferentes e representativos das qualidades e circunstâncias que envolvem os dois clubes.

A abordagem deste artigo é qualitativa, mas alguns dados quantitativos explicam algo sobre a partida em questão: o Liverpool trocou 787 passes, o que corresponde a 79% de posse de bola, enquanto o West Bromwich realizou 213 passes, correspondentes a 21% de posse de bola. O Liverpool chutou 17 vezes, mas apenas duas destas foram em direção à meta adversária: já o West Bromwich chutou 5 vezes, mas três destas foram na direção da meta do Liverpool (ESPN/FOX, 2020). Conclui-se, portanto, que a superioridade técnica do Liverpool não resultou em supremacia no placar da partida, o que representa uma característica específica do futebol: em outros esportes coletivos, como o basquetebol, o voleibol e a handebol, superioridades marcantes são traduzidas em placares de jogo com grandes vantagens numéricas.

A realidade tática do jogo era a anteriormente prevista pelos jornalistas esportivos e analistas do futebol inglês: o jogo ocorreria com nítida maior posse de bola do Liverpool, com realização das ações no campo de defesa do West Brom. E foi o que aconteceu: o West Bromwich passou o 1º tempo apenas se defendendo, enquanto o Liverpool atacava de modo incessante, atingindo 85% de posse de bola na primeira etapa.

Jürgen Klopp, treinador do Liverpool, apresenta um modelo de jogo que não prevê necessariamente um grande percentual de manutenção da posse de bola. Para Rocha (2020), o treinador alemão objetiva um modelo intenso e agressivo, mas com espaços para a inteligência e a adaptação conforme requisitado pelas circunstâncias do jogo. O modelo de Klopp considera a posse de bola como um fator que também determina o domínio de uma equipe sobre outra, mas julga mais importantes ataques agressivos e velozes com pouca utilização de passes horizontais e de circulações de bola com baixa intensidade.

Ainda que não seja uma prioridade no modelo de Klopp, contra o West Brom a posse de bola resultou das condições específicas do jogo: a filosofia do “perde – pressiona – recupera” fez com que a posse de bola fosse rapidamente retomada pelo Liverpool em diversas e consecutivas situações. Aliás, o Liverpool apresentava preocupações ofensivas enquanto marcava a saída de bola adversária: quando o West Brom, do treinador Sam Allardyce, procurava iniciar a construção do jogo, era imediatamente pressionado pelas linhas do Liverpool, a começar do trio de atacantes composto por Salah, Firmino e Mané. A marcação em bloco alto, por pressão, resultava em rápidas recuperações de bola pelo Liverpool, que imediatamente partia em transição ofensiva aguda (vertical) buscando surpreender um West Brom que cognitivamente estava se ocupando da construção do jogo um segundo antes. Em síntese: o Liverpool tinha a bola nos pés, e quando não a possuía buscava recuperações imediatas de sua posse.

Percebe-se que o momento defensivo do Liverpool estava associado à transição ofensiva e à fase ofensiva, configurando momentos que, ainda que didaticamente separados, representam um todo dinâmico e indivisível (MOURINHO apud OLIVEIRA et al, 2006). De acordo com Oliveira (2012), os momentos do jogo são quatro: a) organização ofensiva, b) transição ataque – defesa, c) organização defensiva, d) transição defesa – ataque. Há uma interação entre estes momentos, segundo uma perspectiva ideal. Para Drubscky (2003), as fases do jogo são três: o momento ofensivo (fase de construção de jogadas), o momento defensivo (fase de recuperação da bola) e os momentos de reorganização do jogo (as transições). O todo dinâmico e indivisível transpareceu na organização tática do Liverpool, que controlou o jogo contra o West Brom via posse de bola, notadamente no terço final do campo (nas proximidades da meta adversária). Mas por que então o Liverpool não venceu ou goleou o West Bromwich?

No plano da ficção, podemos dizer que os deuses do futebol apresentam razões que a própria razão desconhece. No contexto pragmático do jogo existem motivos que explicam alguns resultados inesperados ou até insólitos. O West Bromwich, sabedor de suas limitações, organizou uma defesa em bloco baixo, com linhas muito compactadas. A primeira linha apresentava cinco homens, enquanto a segunda era ocupada por quatro atletas. O atacante mais avançado da equipe “balançava” de acordo com a movimentação dessas linhas. Em outros instantes eram seis atletas na primeira linha e quatro na segunda linha. Podemos dizer que o Liverpool controlava a bola, enquanto o West Brom de certa forma controlava o espaço. As investidas agudas do Liverpool ocorreram durante toda a partida, mas esbarravam em espaços ocupados pela defesa do West Brom, que executava marcações duplas, triplicadas ou até quadruplicadas sobre o portador da bola do Liverpool.

A equipe do Liverpool também retomava a bola com pressões exercidas por até três atletas sobre o homem da bola. Nesses momentos a equipe avançava seus laterais (Alexander-Arnold e Robertson) e seus homens de meio (Henderson, Wijnaldum e Jones) diminuíam radicalmente a distância para os três atacantes. Seria momento então para o Liverpool executar com a qualidade habitual suas transições ofensivas, mas isso não aconteceu. Viradas de jogo para as extremidades opostas ocorreram algumas vezes, mas as sequências das jogadas não eram rápidas, permitindo tempo para a total basculação das linhas do West Brom. Passes para atletas entrelinhas foram inviabilizados pela compactação do West Bromwich. Outra opção contra defesas muito fechadas, os chutes de média e longa distâncias, foram pouco utilizados: o Liverpool recorreu a este recurso em dois chutes (Salah e Henderson) e em duas cobranças de faltas por Alexander-Arnold.

O Liverpool, então, buscou triangulações com toques de primeira e jogadas individuais, objetivando assim superar as linhas adversárias. Essas estratégias foram neutralizadas pelo West Brom, sobretudo pela superioridade numérica na região da bola e pelas coberturas eficientes quando seus atletas sofriam o primeiro drible de Salah e Mané. Na realidade, o Liverpool obteve sucesso em dois passes em profundidade para Mané, que recebia a bola na altura da primeira linha do West Brom: em um desses lances a passe de Matip encontrou Mané, que abriu o placar aos 13 minutos do primeiro tempo.

Para além das situações citadas, que exprimem grande parte da lógica do jogo, torna-se importante destacar os seguintes tópicos: a) o Liverpool conseguiu dominar praticamente todos os rebotes ofensivos; b) o goleiro do Liverpool, Alisson, tocou pela primeira vez na bola quando de um recuo aos 25 minutos de jogo, c) o primeiro ataque efetivo do West Bromwich ocorreu aos 32 minutos de jogo; d) nos raros casos de saída de bola, no seu campo defensivo, o Liverpool adotou o formato lavolpiano, com a abertura dos zagueiros Fabinho e Matip e a colocação do volante Henderson entre eles.

Com relação aos princípios táticos do jogo, conforme discriminados por Costa et al (2009), podemos estabelecer alguns parâmetros para a compreensão da pouca efetividade do ataque do Liverpool. Por “pouca efetividade” compreendemos o fato da equipe citada ter dominado o jogo, sobretudo no aspecto temporal, mas não ter obtido número elevado de finalizações e gols. Analisemos três princípios fundamentais do jogo ofensivo, segundo os autores supracitados: mobilidade, penetração e cobertura ofensiva. Os atletas do Liverpool buscaram a realização de coberturas ofensivas, tanto que as opções de passe sempre existiram durante o jogo, bem como a recuperação imediata de bolas perdidas. No entanto, a equipe não efetuou penetrações em função de sua mobilidade realizada em baixa velocidade (ou sem intensidade, se preferirem). O “ferrolho suíco” (leia-se retranca) armado por Sam Allardyce reduziu drasticamente os espaços de manobra para os comandados de Jürgen Klopp.

As movimentações rápidas do Liverpool no sentido de retomar a posse de bola não foram seguidas por mobilidades ideais, intensas e velozes, no plano ofensivo. Desse modo a equipe de Klopp dominou a posse de bola, mas esse fator temporal não foi convertido em ataques agudos e rápidos. O controle da bola não resultou em produção de espaços livres e suas consequentes ocupações, e algumas recuperações de bola por parte do West Brom proporcionaram perigosos contra-ataques em direção à meta defendida por Alisson: em um deles o goleiro brasileiro impediu o gol adversário, através de uma excelente saída por baixo. A outra alternativa ofensiva do West Brom seria através de bolas paradas, e foi assim que, após escanteio curto, o zagueiro Ajayi cabeceou para a redes do Liverpool, empatando a partida aos 37 minutos da segunda etapa.

Em síntese, compreendemos que o Liverpool foi fiel ao seu modelo de jogo e aos princípios táticos dele derivados, mas não obteve a vitória por não ter conseguido abrir espaços em uma defesa fortemente compactada em uma zona restrita do campo. Se por um lado entendemos que uma maior velocidade nas transições ofensivas poderia ter concedido o triunfo à equipe de Jürgen Klopp, por outro podemos interpor um questionamento à alguns modelos de jogo específicos que rotulam as ideias dos treinadores: a flexibilização de tais modelos não seria recomendável em determinadas circunstâncias de jogo?

Algumas palavras de Tostão (2021), em artigo publicado pela Folha de São Paulo, lançam luzes sobre essa indagação. Para o centroavante de grandes atuações na copa do mundo de 1970, as equipes de futebol devem adotar diferentes estratégias durante um jogo de futebol, sendo em um mesmo confronto ofensivas e defensivas, ativas e reativas. Tostão (2021, p. B7) arremata:

o jogo de futebol, assim como a sociedade, deveria estimular a diversidade e evitar a radicalização. Os maiores bens do ser humano são a independência e a liberdade, respeitando o direito dos outros, sem se tornar refém de preconceitos e de conceitos técnicos e táticos.

            Sábias reflexões do ex-craque da seleção brasileira, que deixou de ser um estilista da bola para se tornar um autor de textos escritos com singular maestria.

COSTA, Israel T.; SILVA, Júlio M. G.; GRECO, Pablo J.; MESQUITA, Isabel. Princípios Táticos do Jogo de Futebol: conceitos e aplicação. Revista Motriz. Rio Claro, V. 15, N. 3. p. 657-668, 2009.

DRUBSCKY. Ricardo. O Universo Tático do Futebol: Escola Brasileira. Belo Horizonte: Editora Health, 2003.

FERREIRA, Abel Fernando Moreira. Entrevista coletiva. Disponibilizada pela ESPN/FOX em 5 de Janeiro. Buenos Aires, 2021.

OLIVEIRA,  José  G.  G.   Periodização   Tática:    Pressupostos    e    Fundamentos. Curso / Escola Brasileira de Futebol,  2012 . Disponível em: https://pt.slideshare.net/PedMenCoach/periodizao-ttica-jos-guilherme-oliveira. Acesso em 25 de Janeiro de 2021.

OLIVEIRA, Bruno; Amieiro, Nuno; Resende, Nuno; Barreto, Ricardo. Mourinho: porquê tantas vitórias. Lisboa: Gradiva, 2006.

ROCHA, André. Era Jürgen Klopp é de futebol intenso, mas também inteligente e adaptável. Artigo / UOL, 2020. Disponível  em  https://andrerocha.blogosfera.uol.com.br/2020/06/26/era-jurgen-klopp-e-de-futebol-intenso-mas-tambem-inteligente-e-adaptavel. Acesso em 18 de Janeiro de 2021.

TOSTÃO. Apertar e recuar. Artigo. São Paulo: Folha de São Paulo, 24 de Janeiro de 2021.

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Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás, doutor em Educação / UFG, mestre em Ciências do Esporte / UFMG, licenciado em Educação Física/Esefego. Treinador Licença B / CBF (Licença A em curso)

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