Meninas na rua, Meninas da rua, Meninas: pra rua!

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“Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração,

 Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão…”

(Milton Nascimento)

Você pode estar se perguntando: mas por que utilizar um título tão feminino e sustentar a ideia inicial com um texto no masculino?

Pois é, ser menina desde sempre, nos remete a anulações em determinadas circunstâncias da vida… isso não tira o brilhantismo dessa canção do Milton, jamais seria nossa intenção.

Tanto que ela servirá de pano de fundo para esse atrevimento de escrever sobre meninas e a rua.

Ah, a rua!

Um espaço tão democrático e por vezes tão fechado às meninas.

Não que a gente se intimide – ou se intimidasse – com essa sensação de falta de pertencimento, por ser menina e estar na rua.

Minha infância teve muitas ruas!

A rua da igrejinha, a rua do “campão”, o “descidão”, a rua da ponte, a rua “de trás”, a rua de cima e por ai se segue uma lista de momentos e vivências que tive o privilégio de viver na rua!

E como fui feliz na rua!

“Há um passado no meu presente

Um sol bem quente lá no meu quintal

Toda vez que a bruxa me assombra

O menino me dá a mão

Mas estar na rua nos anos 80, sendo menina, não era algo simples…

Para nós, era um espaço a ser conquistado! Por vezes, na raça.

Pra se ter o direito de ser uma menina da rua precisávamos sempre ser melhores que os meninos, em todas as suas demandas.

A melhor na “Bolinha de gude”, melhor no “Carrinho de rolemã”, melhor “empinadora de pipas”, melhor em rodar o “Aro de bicicleta”, melhor na “Unha na mula” e por ai afora.

Modéstia à parte, consegui ser melhor que os meninos, na maioria das vezes, em todos esses quesitos, exceto no futebol… uma frustração pessoal, por isso conquistei meu espaço na rua.

E como eu valorizava essas conquistas!

Exibia com orgulho minha caixinha com as mais bonitas bolinhas de gude, todas seriadas a partir de suas pontuações: as leitosas e transparentes valiam mais que as verde musgo…

Minha coleção de pipas…com rabiola, sem rabiola, capuchetas, de jornal, de seda, de sacolinha de supermercado. Ah, como eram infinitas as possibilidades de se colorir o céu e fazer sorrir no chão, da rua.

Assim como guardei com carinho cada cicatriz, cada arranhão, cada ponto “conquistado” na rua, alguns que podem ser vistos ainda hoje!

Me orgulho de cada um deles, pois a rua me ensinou muito além do que aprendi na escola.

Aprendi valores, aprendi sobre convivência, sobre repartir, sobre ser justa, sobre ser honesta, sobre ser feliz! E sempre que a vida nos coloca numa corda bamba, são esses conhecimentos que fazem toda diferença.

“E me fala de coisas bonitas

Que eu acredito

Que não deixarão de existir

Amizade, palavra, respeito

Caráter, bondade alegria e amor”

E quanto ao ser menina, na rua, os dilemas existem desde sempre. Aos poucos esses espaços vão sendo conquistados, a passos lentos e nem tão largados como gostaríamos.

Mas as histórias das meninas que viveram a rua no mesmo tempo histórico que vivi, se assemelham. Nas alegrias e nas tristezas, nas conquistas e nas anulações vividas.

“Pois não posso

Não devo

Não quero

Viver como toda essa gente

Insiste em viver

E não posso aceitar sossegado

Qualquer sacanagem ser coisa normal”

A luta é para que possamos deixar uma rua “diferente” para as meninas do futuro. Diferente no sentido de ser menos machista, mas com todas as características e aprendizados que me fizeram a mulher que sou hoje.

Por isso, meninas: pra rua!

Glaucia Cristina de Castro, graduada em Educação Física e Pedagogia; Especialista em Didática e Prática de Ensino; Especialista em Métodos da Pesquisa em Educação Física; Mestre em Educação física pela Unicamp; Professora há 22 anos da educação básica, atualmente na prefeitura de Sorocaba/SP. Professora do ensino superior há 10 anos - trabalhando na Formação de professores.

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