Diferença entre visão sistêmica e pensamento complexo no futebol

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Crédito imagem – Rodrigo Coca/Agência Corinthians

“O que não se regenera, se degenera” – Edgar Morin, sociólogo francês

Todos nós que acompanhamos o futebol sabemos que se trata de uma poderosa manifestação esportiva e lúdica com fortes repercussões e impactos socioeconômicas e que faz parte da cultura da grande maioria dos países do mundo contemporâneo.

Portanto, devido à sua relevância, acreditamos que vale a pena refletirmos sobre como esta modalidade esportiva pode ser entendida e, assim, termos estratégias para estimulá-la e continuar contribuindo para alimentar o interesse daqueles que a praticam, a apreciam ou estão inseridos nesta atividade de lazer e entretenimento com fins profissionais ou econômicos.

Em um texto anterior havíamos destacado que para se entender o futebol em suas diferentes dimensões, é preciso procurar entender toda a sua complexidade. E que para entender essa complexidade pode ser muito útil fazer uso da visão sistêmica e do pensamento complexo, uma vez que a tradicional visão cartesiana, mecanicista, linear e fragmentada de vermos as coisas – ainda muito prevalente entre nós – já não dá mais conta de se buscar as soluções que procuramos para a evolução não só do futebol, mas da própria sociedade, de forma mais ampla. Mas como aplicarmos esta visão sistêmica e esse pensamento complexo no futebol? 

Antes de entrarmos nos detalhes mais aplicados ao esporte, vamos procurar explicitar os significados originais destes conceitos.

Existem atualmente várias abordagens tentando explicar termos como “visão sistêmica”, “visão holística”, “pensamento complexo”, entre outros, que podem nos ajudar a entender a complexidade do futebol e de nossa realidade. Pesquisando a respeito das origens destes conceitos, vamos notar que eles não são consensuais. Dependendo da área onde são aplicados, assumem significados, de certa forma, distintos. Notamos, por exemplo, que os termos “pensamento sistêmico” e “pensamento complexo” são muitas vezes tomados como sinônimos pelo senso comum. 

Para atender aos objetivos desta reflexão e pensando no universo do futebol, vamos considerar que o pensamento sistêmico pode ser interpretado como a nossa capacidade em identificar as ligações de fatos particulares dentro de um determinado sistema; sendo que o sistema pode ser visto como um conjunto de elementos conectados entre si, formando uma totalidade a qual produz algum efeito ou realiza alguma função. É importante também saber que quanto maior o número de elementos do sistema, maior será o número de suas interações e, por isso, maior a sua complexidade. 

Portanto, podemos considerar o pensamento sistêmico como aquele que procura entender um determinado sistema como um todo, considerando todas as interconexões entre seus elementos; enquanto o pensamento complexo é aquele que igualmente procura entender o sistema, porém considerando também os outros sistemas que o cercam; ou seja, os micros e macrossistemas. Neste sentido, o pensamento complexo é, assim considerando, mais amplo que o pensamento sistêmico.

Uma peculiaridade dos pensamentos sistêmico e complexo é que eles têm como uma de suas referências básicas, não a simplicidade, a objetividade, a estabilidade e a previsibilidade, como adota a visão tradicional (cartesiana), mas sim a subjetividade e a intersubjetividade, a instabilidade e a imprevisibilidade, enquanto características da nossa realidade natural, humana e social; essenciais para a compreensão e exercício de nossa humanidade.

Saindo dos conceitos para entrarmos no terreno de suas aplicações, podemos concluir que nesta perspectiva uma equipe de futebol, por exemplo, deve ser considerada um sistema típico. Conforme define Jöel de Rosnay (doutor em ciências do movimento), “uma equipe de futebol é um sistema complexo formado por elementos que interagem entre si e que têm como propósito, combinar a bola entre os jogadores para conseguirem marcar gols e ganhar a partida”.  

Para entender este “sistema-equipe de futebol” convém que façamos uso do pensamento sistêmico, sem deixar de incluir em sua visão os seus macrossistemas (equipe adversária, clube, torcedor, imprensa, agentes, comunidade, país etc.) e os seus microssistemas (jogadores da equipe, atleta, corpo humano, aparelhos orgânicos, tecidos, células etc.). Note que para entender a complexidade do jogo, precisamos entender o “sistema-equipe de futebol” (pensamento sistêmico), como também todos os sistemas que, de certa forma, interagem com ele e os influencia (pensamento complexo).

Outro exemplo pode ser representado pelo “sistema-jogo de futebol”, cujos elementos básicos são as próprias interações que ocorrem entre as duas equipes em uma partida, com todas as suas interconexões de ações e reações, sinergias e oposições, estratégias e contra estratégias, equilíbrios, desequilíbrios e emergências, sendo que todas essas situações são carregadas de subjetividades, intersubjetividades, instabilidades e imprevisibilidades. 

Por tudo isso que procuramos sintetizar neste pequeno estudo reflexivo, queremos sugerir e concluir que o futebol, seja ele representado por uma equipe, por um jogo ou por um evento, terá muitas limitações de interpretação se continuarmos a insistir em manter uma visão que entende o todo apenas por meio do entendimento de suas partes, e ainda sendo tratadas de forma autônoma ou isolada. Quer como praticante, torcedor, profissional do futebol ou, em última instância, como cidadão, precisamos ter uma consciência – a mais clara possível – sobre onde estamos, o que sentimos, o que fazemos, que momento histórico vivemos, como chegamos até aqui e para onde queremos ou podemos ir com nossos desejos, propósitos ou objetivos. E para ter esta consciência crítica, utilizar o pensamento complexo tentando entender o futebol, o mundo e a nós mesmos, nos parece uma excelente opção.   

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Fundador da Universidade do Futebol

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