Sobre os desafios do conhecimento e as armadilhas do complexo

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Crédito imagem – Site Manchester United/Divulgação

Nos últimos quinze ou vinte anos, mais precisamente depois do surgimento e das extensas publicações sobre um sujeito tão particular como José Mourinho, houve de fato uma mudança significativa no perfil das novas gerações de profissionais do futebol. Me lembro do professor Manuel Sergio – de quem Mourinho foi aluno, diga-se – escrevendo que Rene Descartes, patrocinador oficial do racionalismo, promoveu uma espécie de corte epistemológico no pensamento moderno, e me parece que o Mourinho, obviamente guardadas as devidas proporções, também marca uma espécie de corte, menos epistemológico e mais geracional. De forma bastante sucinta, acho que a ascensão do Mourinho trouxe consigo ao menos duas grandes mudanças: I) passou-se a acreditar, de maneira mais concreta, que formar-se profissional do futebol não dependia especialmente da empiria, da experiência adquirida (como atleta, por exemplo) ao longo do tempo, mas tem uma variável importantíssima de episteme, conhecimento adquirido a partir do estudo diligente do jogo de futebol; e II) passou-se a acreditar, de maneira muito mais concreta, que era possível tornar-se um treinador de excelência, em nível internacional, ainda muito jovem. A rápida ascensão de Pep Guardiola, poucos anos depois, inclusive como uma espécie de contraponto ideológico do próprio Mourinho, reforçaria este ponto.

A literatura que se produziu desde então – vejam as biografias do próprio Mourinho, por exemplo – traz para o debate, de um ponto de vista bastante prático, isso que chamamos de complexidade: qualidade daquilo que é tecido junto. O pensamento complexo não é exatamente uma novidade na história do pensamento, mas não deixa de representar uma ruptura importante no pensamento e na prática do futebol: seja a partir das metodologias de treinamento (e aqui, acho particularmente importante citar os microciclos estruturados, via Paco Seirul-lo, que são um contraponto velocíssimo à periodização dos russos, bastante voltadas para as modalidades individuais/olímpicas), seja pelo entendimento inseparável das fases do jogo de futebol, ou mesmo pelas tentativas de estruturação multi/inter/transdisciplinar de determinados clubes – com todas as dificuldades que isso implica e também com toda a distância que existe entre o falar e o fazer. São pelo menos alguns dos exemplos concretos disso que chamamos, especialmente por herança do Thomas Kuhn, de mudança de paradigma. 

Mas repare também nas armadilhas deste processo: por exemplo, é bastante difícil articularmos um pensamento e uma prática complexas se não cuidarmos, muito atentamente, das relações todo-partes. No livro Cabeça Bem-Feita, que inclusive indico como uma introdução ao tema, o Edgar Morin apresenta sete princípios para uma reforma do pensamento ou, como ele mesmo escreve, “sete diretivas para um pensamento que une; (…) princípios complementares e interdependentes”. A título de curiosidade, falamos do princípio sistêmico, princípio hologrâmico, princípio do circuito retroativo, princípio do circuito recursivo, princípio da autonomia/dependência, princípio dialógico e, por fim, o princípio da reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento. Não vamos nos estender em cada um dos princípios aqui, mas me permitam citar novamente uma passagem absolutamente fundamental do Blaise Pascal, nas suas Meditações, que ilustra muito precisamente o ponto do Morin e de qualquer um de nós que deseje articular um tipo de pensamento e de prática vinculado a um outro paradigma:

“Como todas as coisas são causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e todas são sustentadas por um elo natural e imperceptível, que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”

Se nos propusermos a adotar pensamento e prática complexos, seja a partir da simultaneidade das variáveis táticas, técnicas, físicas e mentais no processo de treino, seja pela interpretação de padrões individuais, setoriais e coletivos a partir da união e não da separação, ou mesmo se adotarmos uma prática que reconheça os infinitos constituintes de cada uma das pessoas que compartilham conosco as rotinas de trabalho e de vida, sejam atletas, comissão, gestores e imprensa, que são um mundo de razão, paixões, crenças, hábitos e vontades absolutamente particulares, se nos propusermos de fato a um fazer complexo (ao invés de um mero falar complexo), então precisamos ter claras não apenas a impossibilidade de separação todo-partes como também o risco, cada vez maior, de nos afogarmos em discursos e práticas que percam a noção de falibilidade (ou seja, precisamos confrontar as nossas próprias certezas) mas especialmente discursos e práticas que nos façam confundir o saber das partes com a hiperespecialização.

Por exemplo, se me proponho a fazer a análise de um gol, desde o instante em que minha equipe recuperou a posse a da bola até o instante em que a bola ultrapassa a linha, será que é realmente prudente dizer que há uma ou duas causas específicas que determinam o gol? Será que é de fato possível afirmar que a causa do gol foi, digamos, a localização do nosso lateral-direito, que controlou a profundidade 1m abaixo do ‘ideal’, orientação corporal levemente imprecisa, flexão de joelhos cerca de 3° abaixo da ‘ideal’ (portanto, num centro de gravidade ligeiramente mais alto), de um modo que não lhe foi possível responder precisa e imediatamente ao movimento do ponta, disposto a 1m da linha lateral (para atrair o lateral e eventualmente criar uma lacuna entre lateral e zagueiro – dano intrasetorial na primeira linha de defesa), cuja recepção orientada, com o pé mais próximo do gol e no sentido oposto ao movimento do marcador, superou um oponente e atraiu mais uma vez, por um breve instante, a atenção do zagueiro central e também de um dos volantes – será que é de fato prudente afirmarmos que foi aquela primeira ação do lateral, um metro distante do ‘ideal’, que justifica um gol ocorrido dez ou quinze segundos depois, portanto antes da ocorrência de pelo menos mais de uma centena de ações individuais, setoriais e coletivas? A meu ver, é justamente esse o desafio do conhecimento, especialmente quando se propõe a ser complexo: é claro que os pormenores do jogo de futebol são absolutamente importantes e não deixam de ser basilares para todos nós que trabalhamos na área, cada um no seu contexto. Mas também considere, inclusive da forma como descrevi o exemplo acima, que o particular não existe dissociado do geral (ou, se você preferir, que os sub-princípios não existem dissociados dos princípios) e que a fronteira que separa o pensamento complexo de um pensamento especializado, ainda que sob nova roupagem, pode ser muito mais tênue do que pensamos. Sobre isso, aliás, me permitam citar novamente o Morin, no mesmo livro a que me referi anteriormente, agora sobre os riscos de um pensamento hiperespecializado:

A fronteira disciplinar, sua linguagem e seus conceitos próprios vão isolar a disciplina em relação às outras e em relação aos problemas que se sobrepõem às disciplinas. A mentalidade hiperdisciplinar vai tornar-se uma mentalidade de proprietário que proíbe qualquer incursão estranha em sua parcela de saber. Sabemos que, originalmente, a palavra “disciplina” designava um pequeno chicote utilizado no autoflagelamento e permitia, portanto, a autocrítica; em seu sentido degradado, a disciplina torna-se um meio de flagelar aquele que se aventura no domínio das ideias que o especialista considera de sua propriedade. (p.106)

Por isso, o cultivo de um outro pensamento e de uma outra prática no futebol serão tanto melhores quanto menos perdermos de vista que as partes só são possíveis em relação com o todo, assim como o todo só é possível em profunda relação com as partes (que também são relação, e não mera soma). De um ponto de vista do falar, não parece tão difícil. Mas, de um ponto de vista do fazer, me parece que ainda precisamos nos cuidar muito, não apenas para não cairmos nos mais diversos tipos de armadilhas cognitivas, que estão sempre à espreita, mas especialmente para reconhecermos que ainda sabemos muito pouco, e que portanto há um enorme caminho pela frente caso queiramos, de fato, falar e fazer do futebol e da vida que se vive uma obra de união – e não mais de separação.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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