Táticas – Restringem ou potencializam as tomadas de decisão?

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Crédito imagem: Joedson Moura/Retrô FC

Você já deve ter lido ou ouvido que o atleta brasileiro perdeu a criatividade e a alegria de jogar futebol. No meio acadêmico, preocupados com o desenvolvimento dos jogadores, incluindo sua capacidade de decisão, estudos têm sido feitos acerca dos processos relacionados à pedagogia dos esportes (1, 2). Enquanto isso, para muitos envolvidos diretamente no futebol, ou simplesmente amantes da modalidade, os métodos de treinamento e o excesso de “tática” são possíveis causas da perda da identidade brasileira. Nessa perspectiva, proponho a seguinte pergunta: As táticas restringem ou potencializam a capacidade de decisão dos jogadores?

Nesta série de textos, apresentarei argumentos sobre esse tema, no qual abordarei os detalhes da tática com o objetivo de fornecer informações que possam ajudar a todos os envolvidos no esporte a refletirem com mais clareza sobre o assunto e suas consequências no processo de formação de jogadores.

O futebol tático

Todos os aspectos do futebol evoluíram com o avanço de diversas áreas, mas impulsionada pela expansão dos recursos tecnológicos como softwares para análise de desempenho e mídias sociais que ajudam na divulgação de conteúdos audiovisuais, a evolução tática talvez seja aquela que tenha atraído cada vez mais holofotes na última década.

Livros, cursos e vídeos têm sido produzidos a fim de explorar os meandros da tática (3, 4). Inclusive, chegamos a ouvir várias vezes que “o futebol era técnico, hoje é tático” (5). Essa frase se faz presente principalmente no contexto brasileiro, pois os jogadores das gerações passadas se destacavam pela condição técnica altamente desenvolvida, os quais levaram o Brasil ao topo do futebol mundial, enquanto que na Europa prenominava a força física e a aplicação tática.

Nas últimas décadas teria acontecido mudanças no estilo de jogo brasileiro, que supostamente teria abandonado suas raízes históricas, aproximando-se cada vez mais dos padrões europeus. Com o insucesso brasileiro e dos países sul-americanos em mundiais adultos masculinos desde 2002, e o constante aumento dos estudos e conteúdos “táticos” no futebol, muitos passaram a questionar se os avanços táticos e dos métodos de treinamento tornaram os jogadores menos criativos, mais controlados e com baixo poder de decisão. Precisamos também analisar se as táticas estão afetando negativamente o desenvolvimento dos jovens das categorias de base.

É importante ressaltar que essa discussão transcende o Brasil. Por exemplo, Marijn Beuker, diretor técnico de um dos clubes holandeses que tem sido considerado como referência na base, o AZ Alkmaar, afirmou ter abolido “a tática” no clube para os jogadores abaixo de 16 anos (Training Ground Guru) (6). Massimiliano Allegri, que recentemente guiou a Juventus de Turim a cinco títulos consecutivos na Itália, afirmou que “as táticas e os esquemas estão destruindo o futebol” (7).

Nos Estados Unidos, a federação americana de futebol (US Soccer) ensina durante seus cursos para treinadores de base, o método “Play Practice Play” (Jogue, treine, jogue), no qual mesmo durante o treino todas as atividades devem ser baseadas em jogos, visando evitar treinadores que passam muito tempo dando treinos analíticos técnicos ou explicando “táticas”.

Responder à pergunta norteadora desse texto é uma tarefa complexa e polêmica, pois existem muitos pontos de vista. Consideramos que o primeiro passo seja discutir o termo “tática” para uma melhor compreensão do tema e atribuição de limites. Portanto, convido você a se questionar o que entende por tática e se acredita que ela pode restringir ou ampliar as tomadas de decisão dos jogadores. Pense nisso e nos encontramos no próximo texto. Até breve.

Referências

1.         Galatti LR, Reverdito RS, Scaglia AJ, Paes RR, Seoane AM. Pedagogia do esporte: tensão na ciência e o ensino dos jogos esportivos coletivos. Revista da Educação Física/UEM. 2014;25(1):153-62.

2.         Greco PJ. Metodologia do ensino dos esportes coletivos: iniciação esportiva universal, aprendizado incidental-ensino intencional. Revista Mineira de Educação Física. 2012;20(1):145-74.

3.         Wilson J. The Barcelona Inheritance: The Evolution of Winning Soccer Tactics from Cruyff to Guardiola: Hachette UK; 2018.

4.         Mesoudi A. Cultural evolution of football tactics: strategic social learning in managers’ choice of formation. Evolutionary Human Sciences. 2020;2.

5.         Parreira CA. Evolução tática e estratégias de jogo. Brasília: Ed EBF. 2005.

6.         Schneider-Weiler J, Austin S. Marijn Beuker: Thinking differently with AZ Alkmaar. 2021. Disponível em: https://trainingground.guru/articles/marijn-beuker-thinking-differently-with-az-alkmaar.

7.         Team FN. Massimiliano Allegri: Tactics Ruining The Art Of Football 2019 Disponível em: https://goodforfans.com/read-blog/1282_massimiliano-allegri-tactics-ruining-the-art-of-football.html.

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Bacharel em Educação Física pela Unicamp e mestre em Educação pela Saint Francis University, nos Estados Unidos. Ex-jogador de futsal e desde 2007 trabalha com o futebol universitário e de base nos Estados Unidos. Fundador da Soccer Powered by Futsal, empresa que estuda as relações entre o futsal e o futebol.

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