Epistemologias nossas de cada dia III – (inter)agir

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Crédito imagem: Site oficial/Palmeiras

‘O todo é maior do que a simples soma de suas partes’

Do inatismo e do empirismo, aquelas teorias do conhecimento que sustentam numa visão paradigmática positivista, tradicional, racional e linear, já conversamos – suas mazelas e influências no ensino, aprendizagem e treinamento do futebol, ainda no Século XXI. Falemos agora do interacionismo, a corrente epistemológica que propõe romper, sem lá muito carinho, o que estava posto e deixar guardada na gaveta as lentes de contato com o mundo que já não dão conta de nossa miopia mental e social.

 O interacionismo, seguindo o pensamento epigenético arquitetado pelo professor e epistemólogo suíço, Jean Piaget, confia que nossos saberes são constituídos não pelo dom, pelo genoma, pela quantidade de experiências ou pela racionalização técnica, mas pela qualidade das relações. Conhecimento é produto da interação. Somos, os humanos, seres essencialmente relacionais. Preciso do outro para aprender algo e o outro precisa de mim. Carecemos e dependemos uns dos outros e do meio, qualquer meio, para viver.

A não ser que seja um ou uma eremita, desconfio fortemente que você há de concordar das últimas três afirmações do parágrafo acima. Todos e todas somos interacionistas, porque nos comunicamos, agimos, nos relacionamos e ressignifcamos os ambientes que constituem nossas vidas e a nós mesmos. O que sou hoje é diferente do que fui ontem, que, por sua vez, será diferente do que serei amanhã. Óbvio, até demais. Mas raciocínio necessário para evidenciar que o interacionismo não é o futuro, mas constitui o presente e foi, ainda que sem tanta consciência, fundamental ao passado.

Ocorre que ao conceber tão bem as relações sujeito-sujeito e o sujeito-meio, mais ainda à medida em que estudiosos como Frank Capra, Thomas Kuhn e Edgar Morin jogavam luz ao paradigma emergente e contra-positivista, o interacionismo pressupõe descontrole e imprevisibilidade, termos estes que trazem calafrios às classes economicamente dominantes, que, em favor da manutenção de certos privilégios, não se furtaram em patrocinar o ranço ao que não pode ser manejado sem restrição aos ambientes educacionais e, evidentemente, ao esporte, principalmente ao de alto rendimento. Não à toa, o pensamento empirista cumpre há, no mínimo, três décadas sua função de antídoto à fuga de ordem: manipula comportamentos, cria conteúdos-padrões, estabelece relações hierarquizadas, enfatiza a técnica, a memorização e a objetividade em nome do resultado.

Ao pensarmos, todavia, o esporte e, em específico, o futebol, como manifestações regidas pelo ato de jogar, temos uma enorme e custosa contradição. O jogo, por natureza, é autotélico, imprevisível, irredutível e caótico – chancelaram estudiosos como Roger Callois e John Huizinga. Porque nos sentimos desafiados, jogamos. Por não ter certeza dos quês, comos e quandos de uma partida, nos envolvemos com o jogo. O jogo encontra sentido na não linearidade nas relações que eu, que jogo, tenho com meus colegas de equipe, com o terreno de prática, bola, adversários, arbitragem, comissão técnica, jornalistas, torcedores, dirigentes e, claro, comigo mesmo. É, portanto, representação instintiva do interacionismo. 

Ainda assim ou por isso, foi – e permanece sendo – domado pelo tecnicismo empirista. Há, no futebol, uma resistência significativamente maior à autocrítica em relação aos contextos de formação escolares, por exemplo, para a aplicação de didáticas e metodologias de treinamento, que, a partir do jogo, evoquem o interacionismo. O esporte-bretão é resistência, sim – mas trata-se de um resistir nem sempre adequado às lentes de contato da ‘moda’ no Século XXI.

Virou, o futebol, refúgio de valores tóxicos, sejam morais, éticos, sociais, educacionais e econômicos. Ali, são mantidos e reforçados a naturalização do machismo estrutural e declarado, o racismo, a objetificação humana, o desprezo com o próximo. O ópio do povo se disfarça em privada legal para excretar, sem grandes ressentimentos, ódios e frustrações internas, suavizados por discursos passionais: ‘sempre foi assim’, ‘é dinâmico’, ‘errou, sai’, ‘perdeu, troca’.

Nem surpreende, portanto, que até chefes de estado encontrem, no futebol, o eco ardiloso e necessário para que certas narrativas continuem a sustentar o discurso retrógrado de projeto de poder de natureza medieval e anti-vida. Vale tudo – e nem essa expressão escapou do complemento tóxico – para reiterar a não afeição à mudanças, a algo mambembe, míope, que não dá conta da inteireza do ser humano. Mas o que é a inteireza humana perto de três pontos suados ou o fim de um jejum de títulos incômodo? Meu time acima de tudo, resultado acima de todos.

Tal reflexão é necessária, porque o pensamento interacionista, ao derivar do paradigma emergente, é primordial na contraposição ao tradicionalismo. O que não significa que ele, o interacionismo, seja imune às limitações de dado contexto – e muito menos, que abra mão do produto final, o resultado.

Mostra, porém, que, para alcança-lo, um olhar cuidadoso – e nem sempre imediatista – aos processos faz um bem danado. Tomo emprestado a fala e o capital simbólico de quem teve, recentemente, uma importante conquista: ‘quando mais você se concentra no resultado, mais ansioso fica. Não tem sentido se preocupar se vai passar ou não numa prova: você tem que estudar para ela. Cuide do processo de aprendizagem e o resultado virá’. Recomendo, aliás, a leitura atenta de toda fala de Abel Ferreira ao excelente The Coaches Voice. Interacionismo em estado puro.

Conceber as relações entre humanos e com o próprio humano como fundamental à construção de saberes e estruturar tarefas que contemplem a essência do jogo no ensino, aprendizagem e treinamento do futebol, em detrimento do tecnicismo (e não dá técnica, como colocado na conversa anterior) são premissas básicas do pensamento interacionista. Que apesar da supracitada resistência tradicionalista, tem avançado e pautado discussões país afora, também pela promoção de espaços de debates fomentados como este entre bem-intencionados e intencionadas, no jornalismo, nos espaços acadêmicos e no próprio meio esportivo.

O futebol, afinal, (ainda) depende do humano para existir. Cuidemos bem dele. 

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Luis Felipe Nogueira é cientista do esporte e e mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Membro do LEPE (Laboratório de Estudos em Pedagogia do Esporte, da UNICAMP). possui experiência como analista de desempenho no futebol, e tem como objeto de estudo as epistemologias da prática pedagógica nos ambientes esportivos.

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