Como o jornalismo pode contribuir com o futebol?

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Crédito imagem – Rafael Ribeiro/CBF

Foi ao ar ontem a edição 50 de nosso FutTalks, no qual tivemos o privilégio de bater um papo com o jornalista Juca Kfouri, que falou, entre outros assuntos, sobre a gestão e o futuro do futebol brasileiro e a importante função do jornalismo como promotor do desenvolvimento do esporte no Brasil e no mundo. É sobre essa relação, do jornalismo com o futebol que iremos tratar nessa coluna. 

Juca tem em sua biografia profissional a publicação da denúncia sobre a “máfia da loteria esportiva” na revista Placar, em 1982, um esquema organizado com o objetivo de fabricar resultados que envolveu árbitros, jogadores, dirigentes e, inclusive, jornalistas.

Esta e outras passagens de sua carreira credenciam Juca a defender a investigação jornalística como essencial para o exercício da profissão, que deve ser pautada pela publicação de conteúdo que aborda questões de interesse público, definição subjetiva por excelência, mas que de qualquer maneira demanda um alto investimento de tempo e recursos, como foi no caso da reportagem sobre a “máfia da loteria esportiva” que demandou mais de um ano de trabalho para ser publicada.

A bola levantada por Juca nos traz ao grande dilema do jornalismo,  que é o de encontrar uma forma de financiar uma atividade que, quando é fiel à sua essência geralmente é bastante “anti-comercial”. Quem paga a conta de um ano de investigação sobre a “máfia das loterias”?

Nesse ponto Juca destacou a relação atual entre as empresas de comunicação, emissoras e outras plataformas, e seus fornecedores, as ligas, federações e confederações, como parceiros comerciais, questionando como a equipe de jornalismo de uma emissora que concorre de tempos em tempos pelo direito de transmitir determinado campeonato, vai investir com constância na produção de reportagens que tragam conteúdo potencialmente negativo sobre seu parceiro. Como solução para esse dilema, o jornalista cita a estrutura existente no mercado americano, na qual as emissoras dividem os profissionais de produção de conteúdo em dois departamentos, o de jornalismo e o de eventos. Enquanto aqueles responsáveis pela cobertura do evento o fazem com a devida e merecida pompa, o departamento de jornalismo trabalha nas pautas que julga ser de interesse público relacionadas ao esporte e, em alguns casos, do próprio evento em questão, de maneira independente.

Pensando no contexto do Brasil atual, vivemos uma catástrofe que impacta não o futebol, mas a todos nós, em muitos casos pessoalmente e que não pode, de maneira nenhuma ser ignorada pelo jornalismo. Como nos encontramos em um momento de descolamento da realidade, vale colocar alguns dados em perspectiva. No dia 6 de abril, o Brasil contabilizou 4195 mortes por Covid-19, reforçando, em um dia. Número absurdo, inaceitável, e, repetindo, diário, que supera em muito outras tragédias que deixaram marcas profundas em nossa história, como o rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho, ou o incêndio na boate Kiss, este último que vitimou 242 pessoas em 2013. Temos tido nos últimos dias mais de 16 “boates Kiss”a cada 24 horas vitimadas pela Covid!

Teria a atuação jornalística independência para investigar e se posicionar sobre tal contexto levando em consideração que quem decide em qual conteúdo investir, as emissoras, está dependentemente relacionado à cadeia produtiva do futebol, as ligas, federações, confederações e a seus próprios patrocinadores? A pergunta aqui não é retórica, mas feita para promover a reflexão levantada por Juca Kfouri.

É a partir dessa reflexão que puxamos uma outra, que só pode ter como origem a atuação profissional que tem como prioridade o interesse público, ou, no caso, com o impacto social e econômico do futebol em nosso país. Quais são os atores mais afetados pela paralisação das atividades do futebol? Assim como acontece em toda a sociedade, são aqueles que não tem reservas suficientes para parar por 3, 6, 12 meses, sob pena de morrer de fome, ou no caso de CNPJ’s – associações sem fins lucrativos ou empresas – fecharem as portas. Não à toa, quanto mais descemos na pirâmide do futebol masculino, mais aumenta o percentual de jogadores que defendem a necessidade de continuar jogando, segundo pesquisa promovida pela Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol – FENAPAF, divulgada em maio de 2020.

É ponto pacífico para os especialistas em saúde pública de que passou da hora de um esforço coletivo de grandes proporções por parte de toda a sociedade para frear o número de contaminações e as consequentes internações e mortes evitáveis pela Covid-19. Mais uma vez, mais de 4 mil pessoas por dia morrem no Brasil por conta da doença, 4 mil! Só é possível frear as contaminações com o distanciamento social, esse, por sua vez, viabilizado com condições mínimas de sobrevivência para todos os brasileiros, principalmente os mais vulneráveis, grupo no qual estão incluídos os jogadores, jogadoras e outros profissionais do futebol que se encontram já há algum tempo sem renda.

No ano passado a CBF liberou um pacote de resgate às equipes que disputam as Séries C e D, com valores equivalentes à média de duas folhas salariais dos atletas de cada competição. O mesmo apoio foi disponibilizado dado aos clubes das Séries A1 e A2 do Campeonato Brasileiro Feminino, segundo a própria entidade.

Hoje, com a pandemia atingindo diariamente o seu pior nível no país, a CBF consegue repetir a implementação de um pacote semelhante? É possível costurar algum apoio do tipo com patrocinadores? As emissoras poderiam ajudar de alguma forma? E o poder público, como poderia atuar?

E os clubes fora desse raio de apoio? Aqueles que não disputam competições nacionais?

Segundo números de 2019 da própria CBF, existem 742 clubes profissionais no Brasil. 120 participaram das competições nacionais masculinas nas séries A, B, C e D em 2020, ou seja, mais de 600 não foram contemplados por esse colchão de proteção. Quantos profissionais desses clubes se encontraram sem renda desde o início da pandemia? Como isso tem impactado as economias locais das cidades sede desses clubes? A pandemia talvez esteja “servindo” para escancarar de vez a divisão entre quem realmente vive do futebol e quem apenas se agarra a um sonho para sobreviver. O futebol dos pequenos clubes no Brasil seria então, inevitavelmente inviável?

Todos as reflexões acima, dependem de um jornalismo forte para ganharem espaço no debate público, para isso é fundamental pensar maneiras de financia-lo, ou ao menos estrutura-lo como no exemplo dos Estados Unidos levantado por Juca Kfouri, de forma a permitir tanta independência quanto possível. Talvez esteja aí um caminho para que o jornalismo contribua de maneira mais significativa para o desenvolvimento do futebol brasileiro.  

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Jornalista mestre em Ciências em Motricidade especializado nos direitos das crianças e adolescentes no futebol e idealizador do site industriadebase.com. Analista de conteúdos institucionais na Universidade do Futebol.

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