Sobre os ricos e os riscos de um futebol líquido

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Crédito imagem – Reprodução

Causou bastante alvoroço quando, no último domingo, doze dos auto-intitulados grandes clubes da Europa anunciaram a criação de uma Super Liga, com participantes fixos (portanto, sem acesso nem rebaixamento), a ser iniciada tão breve quanto possível. A criação dessa nova liga significa, por exemplo, o automático desligamento desses clubes da UEFA Champions League. Tenho certeza de que vocês leram muitas coisas sobre isso desde então, de um modo que eu não preciso entrar em muito mais detalhes de um ponto de vista informativo.

O que de fato gostaria de fazer é pensar com vocês em que medida nós, profissionais do futebol, podemos lidar com as mudanças de hoje e com as mudanças que se avizinham. Embora não seja exatamente uma novidade, é importante considerarmos que a tendência, nos próximos anos, é que os profissionais do futebol tenhamos cada vez menos voz. Posso estar errado, mas imagino que isso acontecerá a partir da premissa contrária, ou seja, os espaços de reflexão e de fala de atletas, treinadores, gestores e etc podem até aumentar (muito pelas novas formas de comunicação que haverá nos próximos anos), mas essa será apenas uma forma de maquiar que a real tomada de decisão levará cada vez menos em conta o bem-estar do jogo e dos seus profissionais: o mais provável é que sejamos cada vez mais um meio a partir do qual investimentos são aplicados e recuperados. Os vínculos humanos, por exemplo, são cada vez mais um problemas. Em outras palavras, trata-se de um claro processo de desumanização.

Quando penso nessas coisas, não deixo de considerar a grande influência que recebi, ainda nos meus primeiros anos de formação, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Bauman é um sujeito que me foi importante enquanto eu ainda engatinhava numa tentativa de saber mais do que apenas futebol. Foi por ele que pude pensar, por exemplo, sobre esse caráter líquido da modernidade, que se caracteriza por um tempo em que nada é feito para durar muito. Não é preciso irmos muito longe para perceber como isso pode se refletir no jogo jogado: nossos vínculos profissionais são bem mais efêmeros do que já foram (e o mercado de treinadores ilustra isso bem), a meia-vida estratégica das nossas equipes parece cada vez mais curta (porque a circulação das informações pela internet faz com que os padrões das nossas equipes sejam ainda mais identificáveis) e mesmo a nossa própria formação está sempre sob ameaça, de um modo que estamos constantemente nos pressionando para saber cada vez mais (porque os saberes que sabemos nunca são suficientes). E é claro que o mesmo se sucede com as relações humanas, que também não são feitas para durar. Embora sejamos conhecidos de muita gente pelas redes sociais, não estamos necessariamente mais próximos uns dos outros. Na verdade, a impressão é que as relações não apenas estão se fragilizando, como estão se tornando empecilhos, de um modo que lidar com o outro, especialmente aquele que nos incomoda (como incomoda, por exemplo, a existência dos clubes pequenos), é uma tarefa da qual fugimos cada vez mais.

Sobre essa dificuldade na lida com o outro, Bauman escreve o seguinte, no seu clássico livro Amor Líquido:

“O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais frequentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida – ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos também exigem menos tempo e menos esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato – mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão.”

Não deixa de ser um exemplo muito simbólico sobre o que se passa nessa conversa da Super Liga. Quando pegamos a entrevista de um Florentino Pérez, por exemplo, cuja noção de solidariedade parece que passa por considerar a compra de atletas para clubes médios e pequenos, fica bastante claro que a criação de uma outra liga é como o mero apertar de um botão, um movimento destituído de compromissos sociais mais amplos, e obviamente muito mais preocupado com interesses particulares. Florentino fala do novo brinquedo como um adolescente falaria da nova namoradinha virtual – sem qualquer preocupação com os sentimentos da anterior. Quando vemos a postura dos clubes alemães, desde a divulgação da notícia, que em uníssono dizem não à nova liga, parece que temos uma conversa diferente. É claro que não seremos ingênuos de achar que a postura dos alemães é apenas e tão somente solidária, mas também não podemos ignorar que eles parecem considerar outras variáveis que não apenas a flutuação das ações na bolsa.

Mas reparem que todos esses movimentos, dos quais estamos falando, não estão à parte, mas na base do jogo jogado. Não é por um acaso que normalizamos a busca desenfreada pela intensidade, que o tempo-espaço do portador da bola parece cada vez menor, não é por acaso que a posição foi se dissolvendo no sentido da função, não é por acaso que os sistemas táticos, que por muito tempo foram vistos como sinônimos de tática, hoje são apenas números de telefone – e logo serão ainda menos. Quando escrevi, no início de 2020, sobre isso que se chama de futebol moderno, defendi que ele passa por pelo menos duas características básicas. A primeira, que não é bem o nosso ponto aqui, é um jogo de palavras – o futebol moderno tem uma novilíngua, que se apresenta menos como alternativa do que como obrigação. Mas a segunda característica, essa sim mais relacionada com o que estamos falando, tem a ver com uma nítida dissolução de fronteiras: o que o futebol moderno escancara é o sumiço das margens que separavam, por exemplo uma posição da outra, uma função da outra, que separavam defesa, ataque e transições, que separavam os saberes de cada membro da comissão, enfim… as fronteiras que deixavam mais claro o lugar de uma coisa e de outra no jogo jogado foram se dissolvendo – da mesma forma como se dissolveram as fronteiras do mundo nessa revolução tecnológica que vivemos hoje em dia.

De modo que não será uma surpresa se o futebol do futuro se tornar um tipo de futebol em que o sólido vai se desmanchando ainda mais em favor do líquido – talvez do vapor. O que, evidentemente, também nos exige uma resposta. E que pode ser – considerando que as megaligas serão privilégio de poucos – tanto passiva quanto subversiva.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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