Carga de treino e de competição – Um olhar prático para sua aplicação

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Crédito imagem – Manchester City

Do ponto de vista físico, o futebol é uma modalidade caracterizada por sua intermitência de esforços e por sua elevada necessidade para que os atletas suportem elevadas intensidades. Somado a isso, podemos adicionar as constrições dos calendários competitivos, dos jogos em sequência e do imenso tempo despendido em viagens especialmente no caso do nosso país que possuí dimensões continentais.

Neste quadro, a manutenção da alta performance dos atletas e dos seus níveis de saúde parece vital para que uma equipe consiga o sucesso competitivo e que tenha disponíveis os seus melhores jogadores no maior tempo da competição. Se na alta performance e no futebol profissional, a gestão do esforço e o controle da carga do treino é fundamental, também na formação ela assume um papel importante sobretudo para construir programas de treinamento de longo prazo.

Com cada vez mais tecnologias disponíveis para o controle do treinamento, é possível selecionarmos uma ampla gama de instrumentos, protocolos e estratégias para administrar as cargas de treino sobre diferentes perspectivas, com implicações positivas na maneira como se pensa e prescreve o treinamento, unindo o conhecimento e informação teórica com a aplicação prática para: reduzir ou atenuar o risco de lesão, reduzir infecções do trato respiratório, administrar o processo de recuperação pós-lesão ou ainda abordagens mais tradicionais como compreender as dinâmicas de treinamento e a relação entre as cargas de competição com as cargas de treinamento.

Duas grandezas que se complementam: A carga interna e externa de treinamento


Dentro da grande área do controle da carga de treino e competição, podemos identificar duas grandezas que se relacionam, completam e são fundamentais para nossa compreensão de dose e efeito da prescrição de treino: a carga interna e a carga externa de treinamento. Se a primeira é aquela que nos dá um parâmetro de como os jogadores realizaram o treinamento ou competiram, a segunda nos dá parâmetros de quantidade de maneira objetiva.

De maneira sucinta e objetiva, podemos definir a carga interna de treinamento como uma resposta fisiológica para uma carga determinada e planejada de treino oferecida ao atleta. Os indicadores da carga interna de treino podem ser considerados como marcadores das respostas psicofisiológicas ao treinamento e competição e são influenciadas e dependentes de alguns fatores como: as características individuais dos atletas, o seu status de treino, o seu status psicológico, sua saúde e estado nutricional, assim como o ambiente e fatores genéticos.

Do ponto de vista do planejamento e controle do treino, alguns autores como Impellizzeri recomendam que a carga interna de treino deverá sempre ser a nossa primeira preocupação quando construímos sistemas de controle do treino, uma vez que correspondem a resposta individualizada para uma carga de treino. Um exemplo que podemos utilizar se refere a uma determinada carga de treino planejada de maneira semelhante para o grupo mas com respostas individuais diferentes, influenciadas pelo status competitivo dos atletas e seu grau de treinabilidade.

Dentre os instrumentos mais comumente utilizados para essa grandeza do treino, temos a escala de Percepção Subjetiva de Esforço, que pode ser empregada de diferentes maneiras e nos dá diferentes métricas de importante utilização, como por exemplo: percepção de esforço para determinados exercícios da sessão, percepção de esforço subjetiva da sessão (para quantificar o treino de maneira geral), para além de ratios de carga aguda e crônica dos atletas. Outro instrumento amplamente utilizado é o monitoramento da Frequência Cardíaca através de monitores cardíacos que podem ser mais ou menos avançados, com diferentes níveis de margem de erros na aquisição dos dados e que estão amplamente relacionados a Percepção Subjetiva de esforço.

Para compreendermos as dimensões da carga interna de treino, é preciso que tenhamos também elementos de controle da carga externa de treinamento e competição, que nos dão uma dimensão mais objetiva e fácil para planificar e monitorar o treinamento. Podemos afirmar inclusive que essas medidas são absolutas, uma vez que se relacionam ao trabalho realizado pelo atleta, de maneira independente às suas manifestações internas.

As medidas de controle da carga externa do treinamento se tornaram muito populares e tem ganho muita relevância na discussão científica e na atuação prática sobretudo desde que os dispositivos de Global Positioning System (GPS) foram autorizados para utilização em jogos oficiais. Dentre as muitas variáveis que os dispositivos de GPS nos dão, autores como Buchheit afirmam que podemos categorizá-las em três níveis: Nível 1 – distâncias totais percorridas e distâncias percorridas em diferentes intervalos de velocidade de deslocamento (absolutos ou relativos); Nível 2 – eventos relacionados as mudanças de velocidade (acelerações e desacelerações); Nível 3 – Dados derivados de sensores inerciais e acelerômetros (i. e. Player Load ou Force Load).

As pesquisas e a prática sugerem que as manipulações das condições de treino influem diretamente nessas métricas, algo a se ter em conta quando buscamos construir o processo de treino e oferecer cargas que preparam, recuperam ou mantém a performance dos nossos atletas. Fatores como o tamanho das áreas de jogo nos diferentes exercícios de treino, o número de jogadores, a duração dos estímulos e o status competitivo dos nossos atletas influenciarão exponencialmente a carga externa de treino, com implicações no ganho ou manutenção da performance, alterações a nível da força muscular, capacidade aeróbia e composição corporal.

Integrar e Aplicar

De maneira habitual, para que tenhamos um processo de controle eficaz é preciso que adotemos duas ou mais ferramentas para monitorarmos o treino e a competição, uma que contemple a dimensão da carga interna e outra que contemple a dimensão da carga externa. As utilizações integradas dessas duas ferramentas permitem aos treinadores, preparadores físicos e cientistas do esporte construir uma relação de dose e resposta para sua equipe e para cada um dos atletas.

Há um ditado que diz que só podemos planejar aquilo que controlamos, portanto uma vez que tenhamos claros quais elementos são mais importantes para compreendermos nosso processo de treino e competição, podemos traduzir essa informação de maneira fácil e aplicada, sustentável do ponto de vista prático e que nos permite atender e informar atletas, treinadores e demais membros do staff para uma tomada de decisões mais eficaz sobre métodos e meios de treinamento para a performance e formação.

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Mestre em Treino de Alto Rendimento Desportivo (FADEUP), Bacharel em Educação Física (UNICAMP). Preparador físico de futebol profissional e de formação, com experiências no Desportivo Brasil, Athletico Paranaense, Ponte Preta e Paulínia FC, além de prestar consultorias de performance para atletas de futebol de maneira independente.

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