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Crédito imagem – Site oficial/Premier League

O nome Valeriy Lobanovskyi pode soar pouco familiar no cenário atual, mas os fãs do futebol europeu seguem reconhecendo-o como o mentor de Shevchenko, o cientista da bola ou o ilustre treinador vice-campeão da Eurocopa em 1988 (cuja final coroou a Holanda de Rinus Michels com Ruud Gullit, Marco van Basten e Ronald Koeman). Efetivamente gravado na história do esporte, Lobanovskyi representa um dos maiores pensadores que já interpretaram o jogo, contribuindo com os primeiros registros de futebol coordenado ainda durante o período de isolamento sociocultural e econômico que o distanciara da Europa ocidental pela Cortina de Ferro, levando-o a se tornar o treinador com maior influência no regime soviético (sua trajetória, aliás, fora brilhantemente resumida por Jonathan Wilson no livro A Pirâmide Invertida). Devoto a uma abordagem metódica e científica no treinamento de suas equipes, Lobanovskyi tratava o futebol como um sistema integrado, composto por 22 elementos que se movimentavam dentro de uma área delimitada no campo de jogo e estavam sujeitos a regras enquanto buscavam seus objetivos. Ao raciocinar os padrões de comportamento de sua equipe e dos adversários, ele superava o efeito externo emocional por meio da antecipação de movimentos no jogo, estimulando a memória coletiva de seus jogadores e revelando a importância do pensamento crítico dentro e fora de campo. Seu foco prioritário, entretanto, não eram vitórias ou títulos, mas sim deixar uma marca registrada no intelecto do futebol. Um legado intangível.

Ainda que existam exemplos que tentam fugir da normalidade, o pensamento convencional que acompanha o futebol até hoje persiste em traduzir sucesso esportivo única e exclusivamente por meio de gols, vitórias, títulos, prêmios, posições em tabelas ou ranking. Superficialmente, o sucesso é medido pelo produto-final, mesmo que ele seja momentâneo.

Porém, quando paramos para nos questionar, será que os fins justificam os meios? Será que as vitórias efetivamente representam sucesso ou na verdade escondem equívocos que ocorrem nos bastidores? Será que não conquistar o produto-final se traduz em falta de resultados ou seria essa uma grave ineficiência de avaliação?

Ponderar métricas limitadas (e tangíveis em seu sentido figurado) com medidas intangíveis (e muitas vezes invisíveis ao público) pode ser uma prática benéfica ao processo de avaliação construtiva no futebol. Afinal, seja em uma competição de longo prazo ou em um torneio eliminatório, inevitavelmente apenas uma equipe pode se tornar campeã em cada uma das disputas. Enquanto um campeonato nacional de 38 rodadas não termina na sétima, tampouco na vigésima quinta rodada, uma copa eliminatória não reflete necessariamente fracasso aos participantes que não atingiram a primeira colocação. Para distintas realidades, torna-se necessário diferentes réguas.

Apoiados justamente nessa linha de raciocínio, distanciando-nos de gols, pontos e troféus, como é possível medir sucesso esportivo no futebol?

  • Fortalecendo a identidade.
    • Em treinos e competições, existe uma (tentativa de) construção gradual em torno dos princípios de jogo desenhados pela comissão técnica?
    • Nas sessões de treinamento (independente da metodologia), há consistência prática de conceitos teóricos nos exercícios, equilibrando as ideias às circunstâncias de elenco, estrutura e tempo disponíveis?
    • Dentro e fora de campo, jogadores, profissionais e dirigentes se comportam segundo os valores defendidos pela agremiação? Quando o resultado não é positivo, todos sabem perder ou pelo menos reconhecer os adversários?
  • Incentivando expectativas realistas.
    • Antes de especular vitórias, qual é a realidade do clube? Quem são os reais concorrentes no contexto atual?
    • Considerando o desempenho em anos recentes e a projeção almejada, quais seriam os objetivos viáveis em curto e longo prazo?
    • Entre os supervisores do comando técnico, há conhecimento e paciência para monitorar, apoiar e respaldar o processo durante a temporada?
Diego Simeone esclarece a relação entre expectativa e realidade no Atlético de Madrid.
  • Valorizando o capital humano.
    • O clube investe em seleção, avaliação e sucessão de profissionais? Ou há sinais de apadrinhamento, nepotismo, favorecimentos políticos?
    • Dada a complexidade no ambiente de alto rendimento, existe valorização multidisciplinar? Sobretudo nas áreas de saúde e desempenho, há autonomia e integração para aprimorar o fluxo de informações?
    • Ao visualizar a organização estrutural, fomenta-se o intercâmbio de ideias e o desenvolvimento coletivo (respeitando a hierarquia)?
  • Estruturando a conversão de talentos.
    • Como tem sido a transição e a maturação de talentos provenientes das categorias de base no aproveitamento prático com a equipe profissional?
    • Quando jogadores são vendidos, o incentivo se volta a otimizar os talentos que já haviam sido antecipados ao elenco ou prioriza-se novas transferências para reposições imediatas? 
    • Há espaço, paciência e confiança para recuperar e projetar talentos outrora desacreditados (seja pela idade, frustração no exterior, inatividade por lesão, problemas pessoais)?
  • Promovendo transparência financeira.
    • Como se encontra a saúde financeira do clube ao analisar a antecipação de receitas, acúmulo de dívidas, empréstimos, inadimplências? Até que ponto as ações têm comprometido o potencial econômico e esportivo?
    • Quais são as reais diferenças na alocação de salários, bônus, comissões? Quanto cada jogador e seus intermediários efetivamente recebem comparado aos funcionários que atuam na operação do clube?
    • Se examinados de forma imparcial, seria possível identificar conflitos de interesse, benefícios pessoais ou desvios de receita nas decisões financeiras dentro do clube? Quantos dirigentes (estatutários e executivos) sairiam intactos de uma auditoria que rastreasse o seu histórico de participação na entidade?
Atalanta: reflexo de sucesso esportivo

“A vontade de se preparar tem que ser maior do que a vontade de vencer. Vencer será consequência da boa preparação.” – Bernardinho

O excesso de perguntas talvez tenha causado algum desvio de atenção, mas elas servem para ilustrar como o sucesso esportivo, enfim, não se limita ao resultado que enxergamos de forma isolada (durante ou ao fim de uma competição). É possível definir o sucesso, e até mesmo dividi-lo em ângulos que se completem, estimulando objetivos que se ajustem à realidade contextual de cada clube.

Capturado pelo visionário e multicampeão Bernardinho em sua obra Transformando suor em ouro, a verdadeira vantagem competitiva no esporte provém do processo cíclico de desenvolvimento. Muito além do sucesso, torna-se prioritário entender a busca constante pela excelência esportiva.

Afinal, o futebol, antes de ser competitivo, é colaborativo.

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Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade do Esporte da Alemanha em Colônia, pesquisador e doutorando em Ciência do Esporte pela Universidade de Bielefeld, Alemanha. Consultor esportivo e parceiro da Universidade do Futebol no Brasil

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