Sobre o jogo de futebol como espaço de contradição

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Crédito imagem – Redes sociais Mesut Ozil

Por mais de uma vez, conversamos aqui sobre a importância não apenas de refinar o nosso pensamento sobre o jogo de futebol – mas isso se diz em todo lugar – mas especialmente de particularizar o nosso olhar: este é um tempo de homogeneidade, em que pensamos cada vez mais igual, falamos coisas cada vez mais parecidas, treinamos cada vez mais igual e, evidentemente, jogamos cada vez mais igual. A meu ver, o refinamento do olhar e do pensamento sobre o jogo de futebol e sobre a vida vivida é uma subversão, uma revolta, uma tentativa de pensar por si mesmo muito mais do que de pensar pelos outros. Não por acaso, aliás, não há uma forma universal de se pensar o futebol: há, na verdade, formas infinitas.

Mas uma forma particularmente interessante de pensar o futebol, sobre a qual gostaria de falar, é pensar o futebol como espaço de contradição. Acho interessante quando vejo e ouço pessoas dizendo que esperam ‘coerência’ dos outros, como sinal de avaliação moral, porque embora seja de fato necessária uma certa dose de coerência entre o que se diz e o que se faz ao longo do tempo, também é preciso considerar que ninguém é uma entidade estática: as pessoas estão em movimento, e as contradições da vida vivida não deixam de ser sinais de movimento, de fluidez e da contingência da vida. De um modo que a incoerência, dependendo do ponto de vista, pode perfeitamente ser uma virtude, mais do que um vício. Bom, no jogo de futebol acho que se passa um fenômeno muito parecido – com as suas particularidades, é claro.

Duas nítidas da contradição inerente ao jogo estão nessas passagens atribuídas ao Guardiola: uma, mais antiga, sobre a intenção de se atacar propositalmente por um lado para, mais tarde, finalizar do outro – como se os corredores laterais, que aparentemente poderiam ser opostos, negações um do outro, fossem na verdade complementos, condições de existência um do outro. Outra passagem, essa mais recente, é aquela em que ele diz que ‘se quero chegar adiante, passo para trás’ – ou algo do tipo. Reparem que se trata da mesma situação anterior: o passe para trás não é uma negação da verticalidade, mas eventualmente uma condição, um requisito da subida no campo. Quando falo desse caráter contraditório do jogo (e nem sei se contradição é a melhor palavra), falo justamente dessa intencionalidade do fazer X em busca de Y – mas dessas interações e retroações que existem entre um e outro, inclusive de um modo que, mais tarde, pode-se perfeitamente fazer o contrário.

Se nos exemplos anteriores pensamos a contradição a partir do espaço, me parece que também podemos pensá-la a partir do tempo. Aceleração e a pausa não são variáveis mutuamente excludentes, mas muito mais faces integradas entre si. De um ponto de vista prático, acho um tema particularmente importante, porque vivemos num tempo de culto à intensidade e de falência da pausa. Se entendermos que a pausa é apenas e tão somente uma recusa da intensidade – ao invés, por exemplo, de um espaço de criação – vamos seguir com problemas para interpretar um jogador como Mesut Ozil, para citar um estrangeiro, ou Jean Pyerre, para citar um brasileiro. O tempo do jogo, o ritmo de uma certa elaboração ofensiva, ou mesmo o ritmo de uma transição (seja ela ofensiva ou não), não aumenta ou diminui como fim nele mesmo, ou melhor, não precisa ser assim: o aumento e diminuição do tempo do jogo pode ser um recurso com fins de contradição, ou seja, aumento o tempo do jogo num setor, justamente para reduzi-lo em outro (o que pode ser particularmente interessante na saida da pressão numa transição ofensiva, por exemplo), da mesma forma como baixo o tempo do jogo para atrair um ou mais adversários e logo depois subir o tempo em zonas mais vulneráveis do campo. O que quero dizer é que o futebol, como espaço de expressão humana, não me parece que pune a contradição individual e coletiva (e claro que falo de um ponto de vista especialmente tático-técnico) mas a premia: o futebol sabe do peso do engano, e sabe que a contradição pode ser mais virtude do que vício.

De um ponto de vista estrutural, acho que também há expressões bastante claras desse viés de diferença e de contradição. Vejam o problema da amplitude, por exemplo. Embora o jogo de futebol tenha um alvo relativamente pequeno (em comparação com a área de jogo) e centralizado – o que faz com o que o futebol tenha uma certa característica endógena e centrípeta, tenha uma tendência ao centro – reparem que uma das soluções que criamos na fase ofensiva foi a abertura do campo em largura. A amplitude, como sabemos, não bem é sinônimo de abrir o campo em largura máxima: amplitude é a distância entre os dois jogadores mais abertos de uma dada equipe no espaço efetivo de jogo. Ou seja, amplitude não é apenas amplitude máxima. É perfeitamente possível lançar mão de amplitudes submáximas – e mesmo assim jogar bem futebol. Mas se levarmos em conta aquela homogeneidade de pensamento de que falávamos no começo, não surpreende que seja tão comum encontrar equipes que abram o campo muito e sempre, como forma de criar espaços por dentro, nos vazios intrasetoriais do adversário. Abre-se o campo para, mais tarde, fechá-lo.

Mas o jogo vai criando mecanismos de homeostase, e um deles, que me parece cada vez mais claro, é um preenchimento maior da linha-base de defesa, com equipes se defendendo não apenas em linhas de cinco, mas em linhas de seis. Nesse caso particular, reparem que o argumento de abrir o campo para buscar espaços intrasetoriais perde força, porque a linha de seis é naturalmente densa por dentro e larga por fora, de um modo que abrir o campo apenas por hábito pode ser menos um veneno e muito mais um remédio para a defesa: é justamente o que ela quer. Nesses casos – e podemos falar disso muito mais detalhadamente num outro momento – sinto que uma das soluções está justamente na contradição da contradição, não mais em mecanismos de ataque cujo fundamento está em abrir para fechar, mas que fecham para eventualmente abrir: restringem a largura para eventualmente inutilizar os dois extremos-laterais da linha de seis. Percebem as contradições? Se a linha defensiva é mais curta, abrimos o campo; mas se a linha defensiva é mais longa e preenchida por dentro, podemos fechá-lo. A diferença não como negação, mas como afirmação.

Sinto que ainda não esgotamos o tema por aqui, mas por hoje é suficiente. Enquanto isso, pensem que o tema não se restringe ao futebol – na verdade, é mais fácil trazermos o entendimento das contradições da vida vivida para o futebol do que o contrário.

O que, sendo via de mão dupla, não deixa de ser uma possibilidade de novas contradições.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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