O peso da transmissão ao vivo no esporte

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Final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar. Brasil x Argentina. Nossos eternos rivais abrem o placar com Lionel Messi logo aos 15 minutos. Apreensão da torcida brasileira diante da TV. Logo em seguida… ploft! O sinal digitaliza e some. Uma pane na central técnica do estádio Lusail interrompe a distribuição da transmissão para o restante do mundo. O jogo não pode parar e a virada verde e amarela é vista ao vivo apenas pelos 80 mil presentes no estádio.

Já pensou o tamanho do estrago?

É claro que isso nunca vai acontecer. Justamente pela importância da transmissão da partida no universo de um evento esportivo, todo tipo de redundância é providenciado para que este cenário seja impossível. Geradores para compensar a queda de energia. Distribuição de sinal por internet, satélites, fibras óticas. Tudo é feito para garantir que o evento seja entregue com segurança a cada canto do planeta.

O chamado “broadcast” é parte fundamental na roda de qualquer evento esportivo

Claro que existe a preocupação com a ponta final, o torcedor. Mas todas estas precauções com a segurança da transmissão estão muito mais relacionadas com os interesses financeiros, com quem sustenta a brincadeira toda. Uma Copa do Mundo só é possível graças ao dinheiro dos patrocinadores. E o que eles pretendem? Que a marca seja vista, atrelada a um acontecimento de prestígio, pelo maior número de pessoas possível.

Em 2018, a final entre França e Croácia, na Rússia, alcançou 1,2 bilhão de espectadores. Praticamente um a cada 6 habitantes do planeta assistiu a pelo menos um minuto da decisão ao vivo. Imagine se a mesma partida fosse assistida apenas pelos 78 mil que estavam dentro do Estádio Luzhniki naquele dia. Deixaria de ser uma Copa do Mundo? Não. Mas certamente traria menos prestígio aos campeões, menor investimento de patrocinadores e, com isso, não poderia ser possível promover tantas ações ao redor do evento.

Resumindo: qualquer evento esportivo, muito além de promover competição e coroar o melhor naquela modalidade, só faz sentido se for visto. Audiência traz repercussão. Repercussão traz prestígio. E audiência, repercussão e prestígio trazem o interesse das empresas em se colocar como parceiras.

E qual a melhor forma de alcançar o maior número de pessoas possível no mundo atual? Um estádio, uma arena, comportam um número limitado de pessoas. Uma transmissão em vídeo (hoje não podemos nos restringir à TV) permite que a ‘arquibancada’ seja muito maior. Se os ingressos se esgotarem, se as pessoas morarem em cidades distantes, em outro estado, ou até mesmo outro país, ainda terão uma alternativa para acompanhar o evento.

A mesma lógica vale para a plataforma de distribuição. Uma partida em canal fechado alcança um número limitado de pessoas, os assinantes. O mesmo evento transmitido em canal aberto permite que muito mais pessoas vejam – o que interessa muito mais a quem organiza.

Cabe aqui o exemplo prático e bastante atual da Liga dos Campeões da Europa, que no próximo triênio volta à TV aberta com o SBT. É claro que a emissora pagou pelos direitos de transmissão, mas a decisão da Uefa passa diretamente pela ambição de voltar à rede pública brasileira depois de 3 anos com transmissões pelo Facebook, que entrou na categoria em uma parceria com a Turner por ser acessível a qualquer espectador sem custo algum, enquanto o conglomerado ficava com a distribuição em televisão por assinatura.


O exemplo do Facebook traz a mais recente e democrática das alternativas para distribuição de sinal, conforme reforçado no meu artigo anterior: a Internet. Hoje é possível transmitir qualquer acontecimento pela rede mundial de computadores com a utilização de apenas um celular: de um casamento a uma partida, como se tornou comum durante a pandemia.

O cenário de isolamento atual, aliás, reforça importância que tem o broadcasting dentro do cenário. O público não pode ir às praças esportivas, as arquibancadas estão vazias, mas a competição acontece da mesma forma porque existem as câmeras de televisão, os sinais por satélite e internet para levarem o produto até o consumidor final. Está resolvida a questão dos portões fechados – e o torcedor “de estádio” também supre um pouco da falta, do não poder estar presente.

O poder de quem alcança mais

Numa disputa para ser visto, é fator primordial a abrangência de quem está transmitindo. 

Da mesma forma que o SBT alcança uma base maior de espectadores que a TV Gazeta, um canal grande no YouTube tem mais visualizações que a minha conta pessoal de Instagram. São cartas muito importantes no jogo da audiência e, por consequência, nas negociações. 

A concorrência pelos direitos vai além de quem paga mais, conta muito quem vai levar o evento para mais pessoas.

Dentro deste contexto, a Globo tem um poder de barganha maior. Estar na maior emissora do país leva qualquer produto a um outro patamar, empresta prestígio. Costumávamos brincar em redações, que se um campeonato de dominó estiver  na Globo, vai dar audiência. Mas existe também a dificuldade de espaço dentro de uma programação bastante rígida e estruturada. O preço de estar na platinada pode ser caro: restrição de horários. A faixa nobre é para poucos.

Quantas vezes não ouvimos reclamações sobre o tal “horário da TV”? Muito tarde para o futebol. Muito cedo para eventos programados para a janela do Esporte Espetacular. A verdade é que a decisão sobre horário cabe ao organizador e o sacrifício muitas vezes vale a pena. Em troca de audiência, prestígio e, por consequência, dinheiro.

Essa flexibilidade é outro fator importante deste jogo. Independente do canal de televisão. Há que se medir uma série de outros fatores. Por exemplo, a concorrência.

Programar qualquer coisa para um domingo, às 16h, horário tradicional do futebol em TV aberta, não é negócio. Para quem adquire direitos de campeonatos internacionais – que, além do fuso, obviamente não consideram o ecossistema brasileiro na definição de tabelas, é um desastre quando um grande clássico europeu acontece na mesma hora do Brasileiro. O potencial de audiência é reduzido em pelo menos 50% (sendo generoso).

Neste caso, não adianta reclamar com La Liga, com a Premier League ou quem seja. Nosso mercado, embora importante, não é prioridade deles. Mas também eles estão muito ligados nessa disputa pelo “ser visto”.

A flexibilidade: estratégias em busca de exposição

O campeonato italiano, de uns anos para cá, passou a ter jogos na hora do almoço (deles, no caso, porque aqui é entre 7 e 8 horas da manhã com o fuso horário). Qual objetivo? Atender ao público asiático, responsável por boa parcela da audiência – e dos negócios, principalmente, de muitos clubes. Nunca é demais lembrar que o Milan, hoje, pertence a investidores chineses.

A questão do fuso horário é determinante ainda para a definição dos horários em Copa do Mundo. A cada quatro anos nos deparamos com a estranheza de jogos em horários bizarros nos países que organizam as competições. A Copa do Brasil teve jogo de 13h a 22h. Tudo para acomodar fusos horários de forma que mais pessoas possam assistir pela televisão – e pouco importa a experiência do jogador ou do torcedor local nestes casos.

Outra estratégia comum de uma Copa do Mundo, que foi muito bem espelhada pela Premier League nesta temporada, é a eliminação da “concorrência interna” por meio da distribuição de horários. Com exceção da última e decisiva rodada da fase de grupos, não existem partidas de Copa do Mundo acontecendo simultaneamente. Além de permitir ao torcedor assistir o máximo de jogos, a ideia é explorar ao máximo o potencial de visualização de cada partida e acumular números.

Citei o exemplo do campeonato inglês, que adotou o mesmo procedimento. Hoje é possível passar o sábado, ou o domingo, assistindo a Premier League por mais de nove horas seguidas (cada dia) e não perder nenhum jogo da competição ao vivo: 8h30, 11h, 14h30, 16h.  E mesmo quando há jogos de outras competições marcados para o final de semana estes horários são respeitados para que não haja sobreposição. 

Trata-se de uma estratégia genial para que nenhum detalhe seja perdido – e os detentores de direitos agradecem o maior número de alternativas para montar a grade de programação. É desesperador quando dois grandes jogos de um mesmo campeonato acontecem no mesmo horário e a televisão tem que fazer uma escolha ou dividir a própria audiência em dois canais (como nos casos de ESPN e Sportv, por exemplo, que possuem canais alternativos para dar vazão).

Boas ideias merecem ser copiadas. Imaginem por aqui. Dois jogos do Brasileirão na noite de sexta-feira, 19h e 21h. Três jogos no sábado: 15h, 17h e 19h. Quatro jogos no domingo: 14h, 16h, 18h, 20h. Um jogo na segunda-feira às 20h. A pluralidade permitiria ainda a negociação dos direitos com diferentes canais de televisão – não fosse o modelo hoje adotado em que os clubes tratam diretamente com as emissoras e corre-se o risco de ter jogos não transmitidos. Mas mesmo no caso de uma só emissora, ter a exclusividade no horário, sem concorrência, também é bom negócio.

Voltando do campo das ideias para a realidade, a NBB adotou um modelo semelhante desde 2018. Jogos praticamente todos os dias, não concorrentes entre si e distribuídos entre várias plataformas. Houve uma temporada que cada canal tinha o seu dia e horário. ESPN na terça, Twitter na quarta, Bandsports na quinta, Fox Sports na sexta, Band no sábado, Facebook na segunda. Atualmente as transmissões se espalham por ESPN, TV Cultura, TV Brasil, DAZN, Facebook e Twitch, além de televisões locais. O conceito é de que o torcedor tem toda opção para ver. Por consequência, novamente, o patrocinador tem mais oportunidades de ser visto.

Formatação e qualidade

E não é apenas na definição de horários de grade e no alcance do espectador que o peso do broadcast é sentido. A transmissão também é responsável pela qualidade do produto final. O show não é só do atleta, mas de quem leva para o público. A imagem do evento esportivo é diretamente influenciada pela forma como ele é apresentado. Da qualidade da imagem e do número de câmeras à capacidade do narrador de gerar envolvimento e engajamento, mas também passando por questões inerentes ao formato de competição.

A mídia tem as ferramentas e o expertise para manter a audiência conectada e este é um interesse também do organizador. Não basta chegar ao telespectador, é preciso que ele se mantenha envolvido. Foi assim que alguns esportes mudaram ao longo do tempo. No vôlei, caiu por terra a lei da vantagem, que tornava os jogos lentos e morosos, para adaptação à televisão.

Duas horas é uma conta mágica. É o tempo de grade de uma partida de futebol. Eventos mais longos encontram dificuldades para encontrar espaço na grade de programação, como também para segurar a atenção de quem assiste, sobretudo num ecossistema dinâmico como o de hoje com uma gama enorme de conteúdos sendo oferecidos. Vivemos a época do short-content, do vídeo de 15s da rede social. Prender qualquer audiência por mais de duas horas é impensável, salvo casos clássicos baseados na tradição, sobretudo nos esportes americanos, com os jogos intermináveis de beisebol, o futebol americano em pelo menos 3 horas e por aí vai. Mas nestes casos estamos falando de uma cultura diferente e já consolidada.

Até mesmo a Fórmula 1 mudou. O antigo treino classificatório, que tinha emoção apenas nos minutos finais, deu lugar ao formato de eliminatórias curtas de 10 minutos por recomendação da televisão. 

O poder de influência da televisão vai muito além da definição de tempos e formatos. Todo o entorno é importante. O envelopamento de arena, os cerimoniais, o posicionamento de cada elemento na arena, as cores utilizadas. É do interesse de quem transmite que o show esteja o mais plástico possível. Porque não estamos falando apenas de qualidade competitiva. Tem um quê de arte, de show. 

Algo muito bem percebido, por exemplo, pela indústria crescente dos Esports, que a cada semana ganham fatias mais significantes da audiência. Como transformar um jogo eletrônico em um esporte? Por mais que o core de competição esportiva seja o mesmo, muito além da organização de campeonatos profissionais, a resposta passa diretamente pelo tratamento de show, pela transmissão desenhada a partir de padrões que o público se acostumou a ver em TV. Isso empresta grandeza e credibilidade.

Por isso mesmo, os principais esportivos do mundo possuem dentro de sua estrutura empresarial um departamento de broadcast, que antecipa o trabalho das televisões e já entrega pronto o produto final. É assim na Fórmula 1, na Liga dos Campeões, na Copa do Mundo, no UFC, na NFL ou no campeonato mundial de surfe, a WSL. Uma transmissão já pronta para ser levada ao ar. A garantia do controle de qualidade sem depender do serviço de terceiros.

Não se faz esporte sem transmissão

Os organizadores das competições esportivas, maiores ou menores, parecem ter entendido a importância de se estruturar uma distribuição audiovisual, seja para internet ou televisão. Está não apenas na ponte entre o produto e o consumidor, no oferecimento de um serviço, mas na elaboração, na estratégia. 

Quem ganha é o mercado de transmissões esportivas, valorizado, superaquecido e não mais restrito a eventos mainstream.

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Wilson Junior é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e atua na área esportiva desde 2000, com experiência no rádio, jornalismo digital, se consolidando na TV atuando nos canais Esporte Interativo, Band e Fox Sports onde era responsável pela transmissão de eventos como a Champions League, Eurocopa, Olimpíadas e Copa do Mundo. Atualmente, é gerente editorial de transmissões ao vivo do Free Fire, pela Garena.

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