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Em textos anteriores abordamos as contribuições da Pedagogia da Rua para a educação e, sobretudo, debatemos o que a Rua tem a nos ensinar, para o bem ou para o mal, para uma prática que seja mais significativa e prazerosa para os meninos e meninas que praticam o futebol em nosso país. 

Como beneficiar-se da Pedagogia da Rua em aulas de Educação Física nas escolas, ou aulas de esporte em clubes e escolas de futebol, quando há impedimentos de aulas práticas provocados pela chuva ou, como ocorre atualmente, pela necessidade de isolamento social causada pela pandemia? Entre outras providências, podemos nos apropriar de uma extraordinária riqueza cultural da sociedade brasileira: nossa literatura, rica em textos sobre o esporte. Neste artigo, tomaremos como referência um de seus maiores expoentes: Luís Fernando Veríssimo.

Veríssimo pincelou em prosa o Futebol de Rua. Nossa proposta para este texto é abordar a crônica de Luís Fernando Veríssimo sobre o Futebol de Rua, discutindo-a à luz da Pedagogia. Não apresentaremos a crônica em sua totalidade, mas trechos dela para estabelecer com eles um diálogo.

Em uma aula de Educação Física na escola, em dias de chuva, se não podemos ocupar os espaços abertos (quadra, campo, pátio, ou até as praças e ruas, se necessário), o lugar, por vocação, da Educação Física, ficaríamos em sala, entre outras coisas, lendo as palavras do escritor gaúcho com nossos alunos e refletindo sobre elas. Por que nos causa tanto desassossego a chuva, quando temos um lugar abrigado para ler, escrever, contar histórias? Não somos “Veríssimos”, mas nós e nossos alunos vivemos nossas histórias, as que passaram e as que estão acontecendo. Sala de aula serve à Educação Física nessas ocasiões. Não é o nosso nicho, seguramente, e não é para a preferirmos ao espaço aberto, pois que o espaço aberto da Educação Física rompe com a arquitetura tradicional de salas e carteiras e poderia servir a uma revolução pedagógica. Não vamos à sala de aula por um motivo qualquer, mas vamos por Veríssimo! E, quando a chuva passar, certamente teremos muito gosto em sair da sala e bater nossa bola lá fora, riscando a quadra para que vire rua, e fazendo nossos pés correrem atrás de alguma coisa que role.

Logo no início de sua crônica, Veríssimo diz: “…existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno”. A Rua, no seu significado mais amplo, coloca-nos em pleno exercício do desenvolvimento da criatividade, da vivência do lúdico e do próprio gesto motor. Jogadores criativos se desenvolvem no ambiente da Rua e não nos clubes onde, cada vez mais, são privados de se divertir e improvisar com as bolas nos pés.

Ao ler com os alunos passagens como esta: “Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora”, começamos por aprender sobre a humildade, se visitamos a Rua. A Rua não tem compromisso com a educação formal, nem mesmo com formar para a vida, ela não se importa com o que vai acontecer no futuro. A pedagogia sim, é que deveria ser sábia o suficiente para ir à Rua aprender tudo o que ela tem a ensinar.  

Veríssimo se dedica, então, a descrever como seriam as “regras oficiais” do Futebol de Rua, caso elas existissem. Com alta dose de ironia, versa sobre a bola, as traves, o campo de jogo, o tempo das partidas, a formação dos times, o juiz, as interrupções, as penalidades, a tática, o intervalo, a justiça esportiva… cada “regra” traz inúmeros aprendizados do ponto de vista pedagógico, dentre os quais explicitaremos alguns.

 A bola é o elemento central de um jogo de futebol, certo? Errado! A bola oficial, para alguns, indispensável na escola ou nos clubes, é apenas um dos elementos que propiciam a materialização do jogo. Para Luís Fernando Veríssimo, “A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor”. Essa diversificação de objetos seria, ou não, fundamental para a construção de um maior e mais qualificado repertório motor?

Na mesma passagem há outro aspecto importante, típico do Futebol de Rua: a disputa de forças e o modo como ela é resolvida. Se não há bola, mas há a merendeira do irmão menor, por que não chutá-la? Ao falar das traves, apesar de destacar que elas podem ser feitas com o que estiver às mãos (na maioria das vezes com chinelos ou tijolos), o cronista ironiza dizendo que podem também ser feitas com as merendeiras do irmão menor ou até mesmo com ele próprio. Se a bola vai para debaixo do carro, quem busca? O irmão menor.  É isso mesmo; a Rua educa para o bem ou para o mal. Pode ser injusta, como na opressão sobre o irmão menor, sobre os mais fracos, mas deixa a lição de que há um jogo de forças em questão, que a Pedagogia da Rua tem que reconhecer e saber como tratar. A Rua nos apresenta cotidianamente uma disputa de forças que se traduz no espaço a ser utilizado para o jogo, na escolha dos times, nos equipamentos, nos acordos, enfim, em quase tudo que se refere ao Futebol de Rua. Já que no Futebol de Rua não há juiz, como se resolvem as discussões e discordâncias durante o jogo? Não raramente, como dito nesta crônica, “os casos de litígio serão resolvidos no tapa”. E os mais fracos, os menores, com frequência levam desvantagem.     

 Isso tudo se relaciona à autogestão do jogo, que a Rua nos ensina. Chega a nos impressionar a dificuldade que nossos alunos de hoje apresentam quando se trata de jogar sem a presença de um professor ou de um árbitro à beira da quadra/campo. Quando Veríssimo descreve as diversas ocasiões em que os jogadores, na Rua, resolvem facilmente os litígios, como entram em acordo com facilidade, como tornam desnecessária a presença de um juiz, ele desvela uma sabedoria que deveria servir de exemplo aos que praticam as pedagogias oficiais.

Outro aspecto que vale ser destacado na bela crônica de Veríssimo, é a Rua ser um espaço de todos, ainda que não livre das disputas que já mencionamos. “O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado”. Cabem todos, desde que o espaço permita. Cabem todos, mas não sem que, mais uma vez, a disputa de forças se manifeste. “Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai para o golo. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque”.

 Como esperamos ter explicitado, a educação da Rua é tão rica, e, por outro lado, tão subaproveitada, quanto as possibilidades de sua apropriação no ensino e prática do futebol são imensas. E a nossa literatura, em crônicas, prosas e versos – Veríssimo é somente um exemplo dentre tantos outros que temos disponíveis -, fortalece nosso entendimento acerca da importância da Rua, e daquilo que ela nos ensina para a prática do futebol nas escolas, clubes e “escolinhas”. 

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Formado em 2005 no curso de licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/ Rio Claro), Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), tem suas primeiras experiências acadêmicas circunscritas à Psicologia do Esporte e ao Futebol. Vinculado, desde o primeiro ano da graduação, a ambos os campos, buscou focar sua participação em grupos de estudos e pesquisas onde a relação entre eles fosse possível. Atualmente é diretor executivo do Centro Esportivo Virtual e coordenador de Projeto Social do Instituto Rhodia.

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João Batista Freire é professor aposentado da Unicamp e referência nacional no ensino do futebol. Autor de diversos livros entre eles o "Pedagogia do Futebol".

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