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É de 1971 o magnífico filme “Ensina-me a viver”. Harold, de 20 anos, apaixona-se por Maude, de 79. Harold, de família rica, simulava suicídios e frequentava funerais. Com Maude, ele aprende a viver.

                O Brasil vive episódios às avessas do filme. Uma espécie de “Ensina-me a morrer”. Uma pedagogia da morte. O método consiste em normalizar o que seria excepcional: a morte pelo Covid-19. Desde que o vírus aportou em nossas terras, o presidente do Brasil, contrário às teses do isolamento social e vacinação, escancarou as portas ao vírus. A mais recente declaração infeliz e genocida do atual presidente do Brasil recomenda que os vacinados, que representam menos de 13% da população brasileira com a segunda dose, não mais precisem usar máscaras. Seguidor da teoria da imunidade de rebanho, pretende Jair Bolsonaro salvar a economia brasileira contaminando três quartos de nosso povo. Contaminam-se, mas não param de produzir; morrem, mas os 95% que continuarão vivos, tocarão a economia. Para não sacrificar a economia, deliberadamente, uma parte considerável da população seria sacrificada. Como se nossa economia estivesse destinada ao sucesso caso não houvesse pandemia.

                Continuamos, no entanto, com o dilema da normalização da morte excepcional.

                O contingente daqueles dispostos a disseminar a ideia de que todos morrem, e daí, de que tudo não passa de uma gripezinha, de que a economia é mais importante que a vida, é enorme, milhões de “verdeamarelos”. “Verdeamarelos” que, não por coincidência, costumam ir às ruas protestar trajando a camisa da CBF, aquela que, supostamente, assemelha-se às usadas pelos craques da seleção. O traje cai como uma luva se considerarmos a relação estreita mantida entre CBF e o Governo brasileiro atual. 

Não há como nos mantermos indiferentes a mais esse absurdo proposto pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e prontamente aceito e apoiado pelo Governo genocida de Bolsonaro. Faltam adjetivos ruins para caracterizar a decisão de realizar a Copa América de Futebol no momento atual da pandemia. Lamentável, vergonhosa, absurda, revoltante, triste, desrespeitosa, irresponsável, interesseira, dentre outros adjetivos são bastante apropriados para esta situação.

Vamos nos ater, especificamente, ao último adjetivo: interesseira. Afinal, precisamos identificar e questionar os interesses que estão por trás desta decisão. A quem interessa a realização de uma competição esportiva desta grandeza em um país que está assolado por tantas mortes e sofrimento em decorrência da pandemia do coronavírus?

Ao capital, ao mercado financeiro e a todos que a ele servem, sobretudo, o Governo Federal. Pois é… o motivo para o não cancelamento desta competição, mesmo estando a América Latina em situação catastrófica, é o dinheiro que esta competição esportiva gera e faz circular. Pouco importa, ou importa bem menos, a saúde e a vida da população.

Permanecemos, há semanas, com mais de 2.000 mortes diárias. Permanecemos, há semanas, com os hospitais colapsados ou em vias de. Mas, o que importa à Conmebol, à CBF e ao Governo Federal é o dinheiro. É o mercado. É a economia. Nos aproximamos de 500.000 vítimas, mas “a economia não pode parar”. Em vez do isolamento social, o relaxamento e a volta ao trabalho, às escolas, aos shoppings e bares/restaurantes. No lugar do cancelamento desta competição, o aumento do número de pessoas (atletas, comissão técnica, dirigentes, staff, imprensa etc) circulando em nossos aeroportos, hotéis, ruas, bares e campos de futebol. Estima-se que mais de 10.000 pessoas, vindas de todos os cantos do mundo, passarão a circular em solo brasileiro, ampliando as possibilidades de um contágio que, só entre nós, não para de crescer. Somente a seleção venezuelana, primeira adversária da equipe brasileira, tem 13 integrantes (dois nem chegaram a viajar ao Brasil) contaminados com o Covid. Passados três dias do início da competição, já são, conforme dados do Ministério da Saúde, 52 pessoas contaminadas por Covid, entre jogadores, membros das delegações e prestadores de serviços contratados para o evento.

Ao Governo Federal, há outro interesse, talvez ainda mais forte que a própria questão financeira: o uso político do futebol, da seleção brasileira e, especificamente, desta competição. Sempre que atacado pela sociedade e mídia em virtude de suas condutas ou decisões prejudiciais ao povo brasileiro, Bolsonaro arruma um “fato novo”. O fato novo da vez é a Copa América.  

Concomitantemente à decisão da realização ou não da Copa América no Brasil, julgada, inclusive, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), há a denúncia de abuso moral e sexual contra o presidente da CBF e o aguardado manifesto dos jogadores da seleção. A respeito da denúncia contra o presidente, agora afastado, da CBF, nenhuma surpresa. É o quarto dirigente maior da CBF seguidamente afastado do cargo. Que sofra todas as consequências, conforme a lei.

Já em relação ao manifesto, chegamos a esperar um ato de consciência política. Chegamos a esperar que “suspiros de Afonsinho e Sócrates”, dentre outros (poucos, é verdade), “contaminassem” o grupo de jogadores e estes se negassem a participar da Copa América. Mas, infelizmente, não fomos surpreendidos. Como disse o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Apresentaram um manifesto ridículo, evasivo, destituído de empatia, sem solidariedade com o povo nem compaixão com os quase meio milhão de pessoas vitimadas pelo vírus. Sequer citaram a pandemia, as faltas de vacinas e os milhares de mortos!

O comentarista da Rede Globo, Walter Casagrande, em tom bastante duro, disse que os jogadores tinham que ser homens e não covardes, ao trocarem atitudes por um manifesto. Concordamos que faltou coragem. Mas eles não tinham que ser homens. Tinham que ser como as mulheres! Fortes, corajosas, conscientes politicamente, tais como nossas atletas Carol Solberg, Joana Maranhão ou como as atletas da seleção brasileira feminina de futebol que protestaram contra toda e qualquer manifestação de assédio, especialmente contra mulheres. E vale ressaltar que nem de longe elas possuem o poder, os salários e a força politica, no âmbito do futebol e fora dele, que possuem os homens da nossa seleção. E nem por isso deixaram de se manifestar.   

Ainda assim, não podemos nos abster de refletir sobre as aparentes contradições que se apresentam em relação à realização desta competição. Alguns, como disse o atual Vice-Presidente da República, devem estar pensando: por que cancelar a Copa América, se o Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores estão em pleno andamento? Verdade. Mas a resolução deste impasse não passa por trazer mais uma competição esportiva para o Brasil e sim paralisar, imediatamente, todas as demais. Todas são danosas. A Copa América será um considerável acréscimo de peso ao dano.

Entretanto, há de se considerar que as circunstâncias para uma possível defesa ou crítica à realização da Copa América em comparação aos nossos campeonatos nacionais, são distintas. Primeiro, porque estamos falando dos atletas de futebol mais bem sucedidos e remunerados da América Latina. Daquele grupo de jogadores que provavelmente, juntos, ganham mais do que os salários somados de todos os demais jogadores do futebol brasileiro. Em defesa destes, e de toda a massa trabalhadora do futebol brasileiro (comissão técnica, roupeiros, funcionários dos clubes, massagistas, imprensa esportiva etc.), poderíamos pensar em apoiar a realização dos campeonatos nacionais – contra os quais já nos manifestamos -, mas não há defesa para a realização da Copa América.  Os que defendem os campeonatos nacionais, que o façam em defesa dos trabalhadores do futebol, a maioria, pessimamente remunerados. Quanto à Copa América, só beneficia os já privilegiados, incluindo aí jogadores, CBF, mídia, empresários etc. 

Há ainda outro grupo que pode estar pensando: por que a mídia, leia-se a Rede Globo, tem feito esse “estardalhaço” quanto à realização da Copa América, se o mesmo não acontece com as demais competições? Porque, caros leitores, a Globo não possui os direitos de transmissão da Copa América, mas do Brasileiro e Copa do Brasil, sim. Novamente o argumento de que “a economia não pode parar” prevalece.

Que o futebol segue movido pela lógica do mercado e do capital, nos parece filme repetido. Que o grupo de jogadores da seleção brasileira perdeu a oportunidade de retomar a admiração de grande parte da população, o orgulho de vestir a “verde amarela” e de salvar vidas, nos parece aquele filme de romance cujo desfecho é previsível.  Mas nada é tão cruel e motivo de indignação e revolta do que o filme de terror que este Governo federal nos apresenta, tendo a morte como inspiradora de uma pedagogia e o futebol como um de seus protagonistas. 

*A opinião e visão de nossos colunistas e parceiros não refletem, necessariamente, o posicionamento da Universidade do Futebol.

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Formado em 2005 no curso de licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/ Rio Claro), Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), tem suas primeiras experiências acadêmicas circunscritas à Psicologia do Esporte e ao Futebol. Vinculado, desde o primeiro ano da graduação, a ambos os campos, buscou focar sua participação em grupos de estudos e pesquisas onde a relação entre eles fosse possível. Atualmente é diretor executivo do Centro Esportivo Virtual e coordenador de Projeto Social do Instituto Rhodia.

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João Batista Freire é professor aposentado da Unicamp e referência nacional no ensino do futebol. Autor de diversos livros entre eles o "Pedagogia do Futebol".

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