“Ame e jogue o que quiseres”… escritos sobre o Futsal

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Crédito imagem: Reprodução/CBFS

Há um tempo eu li uma carta que me marcou e me fez refletir por diversas questões. Essa carta foi escrita por Kobe Bryant ao se aposentar e foi destinada a quem ele era apaixonado desde muito cedo: o basquetebol.

Entretanto, as minhas habilidades com o arremessar a bola na cesta são questionáveis, por isso eu não venho falar do basquetebol. Esse texto será dedicado ao futsal, por quem eu sou apaixonada desde muito cedo. Nessas próximas linhas, irei pontuar e dar uma ideia geral sobre a proporção que essa modalidade em específico tomou na minha trajetória de vida.

Confesso que eu não sei exatamente quando o futsal surgiu na minha vida, mas sei que foi paixão “ao primeiro chute”. Ao brincar na rua, eu aprendi a jogar altinha, golzinho; eu e meus amigos ali da vizinhança fazíamos competições para ver quem “petecava” mais e fazíamos do portão da vizinha o nosso “gol” – torcendo para que a bola não caísse no quintal dela, que poria fim ao nosso “campeonato”.

Fora das duas linhas da calçada, eu tentava entender o porquê diziam que existe esporte para homens e esporte para mulheres. Por que dessa pergunta? Você já deve imaginar: eu, enquanto mulher, “não devia” praticar esse esporte, pois não era “adequado”.

A dimensão que o futsal tinha na minha vida era tamanha, e suficiente para que eu levasse essa paixão para dentro da quadra da escola na qual eu estudava. Eu observava e via que as meninas só escolhiam o vôlei, e num certo dia eu escolhi o que “só” os meninos podiam escolher: o futsal. Imagine você o falatório que não foi naquele dia, principalmente, em que eu escolhi jogar esse jogo dito como masculino.

Depois disso, foram surgindo outras meninas que gostavam também de jogar, e isso foi suficiente para montarmos um campeonato interclasses na escola com equipes inteiramente femininas. No ano seguinte, surgiram as Olimpíadas Estudantis – campeonato interescolar do município de São Paulo – e agora nós podíamos representar a escola com a modalidade esportiva que por muito tempo não nos deixaram jogar. Os treinos eram no contraturno escolar e eu lembro perfeitamente dos professores chegando na quadra com os materiais, da conversa anterior ao treino, dos erros e acertos nos exercícios e do frio na barriga gerado pela expectativa do dia do jogo.

Toda a junção dessas vivências tornou o futsal ainda mais grandioso para mim: foi através dele, e dos professores que não me deixaram desistir de praticá-lo, que eu descobri o gosto pela Educação Física e a escolhi como profissão. O meu primeiro emprego? Foi trabalhando com futsal. Eu pude usá-lo para formar meninos e também meninas. Aliás, foi com elas que eu entendi a importância da minha insistência, anos atrás, de mostrar que o esporte não tem gênero.

Se antes algumas meninas compunham as equipes da escola sem gostar muito do jogo e mais na intenção de vivenciar experiências diferentes, a geração atual – que eu tive o prazer de treinar – estava lá porque era apaixonada, como eu, pelo esporte e isso estava explícito no brilho dos olhos de cada uma.

Foi através do Futsal que eu representei a mesma escola como aluna e como Professora. As duas ocasiões foram fundamentais para a minha formação, mas foi com os olhos da docência que eu vi o quanto o esporte pode transformar vidas. As meninas conseguiram êxitos materiais (troféus e medalhas), mas mais do que isso, elas contribuíram, mesmo sem saber, para que outras meninas acreditassem que também podem jogar com a bola nos pés.

Então, posso dizer que esse texto tem um pouco da menina de 9 anos que não entendia o porquê a prática do Futsal era bem quista somente aos meninos. Essas linhas são escritas também pela jovem de 14 anos que jogava, representava a escola e que aprendeu valores fundamentais que contribuíram para que ela pudesse estar onde está atualmente.

Por fim, esse texto foi estruturado pela mulher de 20 e poucos anos, já Professora, que pôde usar o Futsal para treinar e formar meninos que valorizam e apoiam as meninas que conservam essa paixão pelo esporte; e que treinou e formou meninas que vão sair por aí mostrando que as quadras, campos, pistas e locais de jogos podem e devem ser ocupados por mulheres. Mais do que isso: são essas meninas que hoje inspiram outras a percorrerem essa mesma caminhada.

Portanto, ao Futsal, a minha eterna gratidão.

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(*) Referência do título à frase de Santo Agostinho: “Ame e faz o que quiseres, porque quem ama não erra. ”

Professora de Educação Física, mestre em Ciências pela Escola de Educação Física e Esporte da USP e Doutoranda na Faculdade de Educação da USP. Integrante do grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol.

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