Quando aspectos psicológicos determinam o favoritismo

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Crédito imagem: Gilvan de Souza/Flamengo

Há poucas semanas atrás, duas das três principais equipes do futebol brasileiro de 2021, Flamengo e Palmeiras, apresentavam desempenhos e ambiente de trabalho que colocavam o Flamengo como forte favorito ao título da Copa Libertadores. Por um lado, o Palmeiras oscilava e perdia pontos para equipes tradicionalmente menos expressivas e que possuem investimentos muito menores. Nos quatro primeiros jogos disputados neste mês de outubro, somou somente 2 pontos, dentre 12 possíveis. Por sua vez, o Flamengo vinha sendo arrasador e atropelava seus adversários com seguidas goleadas. No mesmo intervalo, foram 10 pontos conquistados, dentre 12 possíveis, e 10 gols marcados.   

Enquanto estes resultados colocavam o Palmeiras em crise, já que passou a sofrer com fortes críticas da mídia esportiva e pressão da torcida com manifestações de insatisfação – por exemplo, a pichação do muro do clube com ataques à diretoria, jogadores e treinador – do lado do Flamengo eram só elogios à equipe do treinador recém-contratado, Renato Gaúcho.

Neste momento, qual era a equipe favorita ao título da Copa Libertadores numa eventual final: Palmeiras ou Flamengo? Indiscutivelmente, o Flamengo.

Bem… passemos a abordar, então, a influência dos aspectos psicológicos neste favoritismo. À época das semanas de jogos exemplificados nas linhas acima, era a equipe flamenguista que aparentava melhores condições psicológicas. A palavra “aparentava” deve ser ressaltada, pois, na psicologia, sobretudo no âmbito dos processos de grupo, há conteúdos explícitos e implícitos, que operam tanto no nível consciente, quanto inconsciente. 

Infelizmente, no futebol (mas também em outras modalidades esportivas), costuma-se lembrar da psicologia do esporte somente para apagar incêndios, em situações adversas e de derrotas. Mas a equipe do Flamengo, mesmo sem a presença de um(a) psicólogo(a) esportivo(a) em sua comissão técnica, mostrava-se (aparentemente) autoconfiante, auto eficaz, concentrada, com níveis de ansiedade e motivação equilibrados e com bom funcionamento grupal. Por sua vez, o Palmeiras mostrava sinais de ansiedade elevada, tensão, nervosismo e, sobretudo, baixa autoconfiança. O treinador Palmeirense, em entrevista, disse que a equipe sofria com questões de ordem mental e confiança para o jogo. Vale destacar que se tratam somente de suposições. E suposições levantadas com base na observação dos atletas e comissão técnica nos jogos e entrevistas na mídia televisiva. Ou seja, desconheço a rotina de treinos e vestiário de ambas equipes. Tampouco tenho dados de análises e testes psicológicos desenvolvidos em ambas equipes, algo fundamental no trabalho da psicologia esportiva.    

Cabe, nesse momento, fazermos a seguinte indagação: as condições psicológicas determinaram o desempenho de ambas equipes ou o desempenho determinou as condições psicológicas? Ou seja, foram as vitórias que fizeram do Flamengo, semanas atrás, uma equipe mais concentrada, confiante e equilibrada emocionalmente, por exemplo, ou tais condições psíquicas que fizeram da equipe flamenguista vencedora?   

As duas questões levantadas podem estar corretas. Ou seja, ao mesmo tempo que uma equipe melhor preparada emocionalmente terá melhores condições de vencer as partidas, ao vencê-las, ela tenderá a manifestar melhores condições psíquicas. A vitória, o gol, assistências, boas defesas, trazem, ainda que momentaneamente, maior confiança, equilíbrio emocional e melhor ambiente de trabalho aos jogadores e comissão técnica da mesma forma que a confiança, por exemplo, possui relação direta com a performance do jogador. Sim… qualquer um(a) que tenha jogado futebol pode confirmar esta afirmação, mas vale ressaltar que as pesquisas produzidas no campo da psicologia esportiva confirmam cientificamente essa relação.  

Confirmada então esta relação, voltemos à questão do favoritismo. Se no início de outubro o Flamengo era amplamente favorito ao título da Libertadores numa eventual final com o Palmeiras, será que hoje ainda pode-se dizer o mesmo? Jogadores profissionais de futebol não desaprendem a jogar num espaço de tempo tão curto, não é? Por sua vez, bastam poucas derrotas para elevar o tom das críticas e aumentar significativamente o nível da pressão que atletas e treinadores recebem e, consequentemente, todas as condições psicológicas que antes eram favoráveis, se tornam adversas. Quero dizer, com isso, que ao mesmo tempo que uma derrota num clássico e uma eliminação nas semifinais da Copa do Brasil são capazes de desiquilibrar emocionalmente uma equipe, três vitórias consecutivas são capazes de fazer uma equipe retomar sua confiança e performar em suas melhores condições técnicas, táticas e físicas.

Semanas atrás, o Palmeiras sofria com as críticas e grande pressão da mídia e de torcedores. Hoje, é o Flamengo que vivencia tais condições. Entretanto, há duas diferenças que influenciam, no meu entendimento, o favoritismo para o lado palmeirense: 1) O treinador Palmeirense, mesmo no momento adverso, e com afirmações que tenham explicitado certas fragilidades, jamais demonstrou falta de confiança no seu trabalho e no grupo de atletas. O treinador flamenguista, por sua vez, ao entregar o cargo à diretoria, explicita não confiar que é capaz de levar sua equipe ao título da Libertadores, questionando a competência de ambos, dele e dos jogadores; 2) Estar bem preparado psicologicamente não significa que as derrotas não acontecerão, mas sim que elas não serão capazes de desarticular e estereotipar o grupo frente à sua tarefa. O Palmeiras, que conta com uma profissional da psicologia do esporte na comissão técnica, demonstrou estar preparado para lidar com as adversidades e retomou o equilíbrio e as vitórias. Entretanto, tenho dúvidas se o Flamengo e seu treinador, sempre adversos à presença deste profissional no clube e reticentes quanto à importância da psicologia esportiva no futebol, estão também preparados para superar o momento delicado que estão passando.

Ainda assim, se faz necessário também mencionar o fato de que as equipes não costumam ser bem preparadas para lidar com o favoritismo. Afinal, se por um lado o favoritismo pode fazer dos atletas mais auto eficazes e autoconfiantes, por outro, ele eleva a já exacerbada pressão pela vitória.  Para finalizar, vou direto ao ponto. Tecnicamente, acho a equipe do Flamengo superior. Psicologicamente, o Palmeiras me parece melhor preparado. Como os aspectos psicológicos podem determinar o desempenho (técnico, tático e físico) de uma equipe, arrisco dizer que o favoritismo mudou de lado e coloco, neste momento, o Palmeiras como provável campeão da Copa Libertadores. Entretanto, tenho clareza dos riscos de tal palpite, afinal, a psicologia não se trata de uma ciência exata e o jogo possui, dentre outras virtudes que o tornam fascinante, a imprevisibilidade.

+ posts

Formado em 2005 no curso de licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/ Rio Claro), Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), tem suas primeiras experiências acadêmicas circunscritas à Psicologia do Esporte e ao Futebol. Vinculado, desde o primeiro ano da graduação, a ambos os campos, buscou focar sua participação em grupos de estudos e pesquisas onde a relação entre eles fosse possível. Atualmente, é coordenador do Instituto Esporte Educação e líder do grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol.

Compartilhe

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Compartilhar no pinterest

Deixe o seu comentário

Deixe uma resposta

Mais conteúdo valioso