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Crédito imagem: Marcelo Gonçalves/FFC

Semanas atrás o futebol profissional brasileiro nos trouxe duas notícias que merecem, ao menos, uma breve análise. Ambas envolvem jovens treinadores que atuam em grandes equipes, mas que ainda são pouco compreendidos por aqueles que gerenciam os clubes e por parte da mídia esportiva, que, de resto, pouco compreendem o que quer que não seja simplesmente negócio.  

A primeira destas notícias trouxe o anúncio feito pelo Fluminense do retorno do treinador Fernando Diniz, que, apesar de ainda não ter conquistado títulos expressivos, é alguém que nos enche de expectativas positivas. Sobre ele, em texto anterior, já o apontamos como uma de nossas esperanças para efetivação de algumas boas mudanças, entre tantas que o futebol profissional precisa. 

Vale ressaltar que Fernando Diniz levou ao Fluminense como seu assistente técnico, outro jovem profissional de extrema competência, e pelo qual também nutrimos grandes esperanças, por sua visão humana e pedagógica: Eduardo Barros. Com ambos, certamente o Fluminense ganhou, além de dois grandes treinadores, ótimos educadores.

E por qual motivo valorizamos a atuação deles enquanto educadores? Porque o futebol é, entre outras coisas, uma prática educativa! E como prática educativa, pode contribuir com a formação humana dos nossos atletas e alunos. Entretanto, se defendemos aqui a ideia de que o futebol educa, é preciso destacarmos que ele pode educar tanto para o bem, quanto para o mal. Se olhássemos os jogadores de futebol apenas como máquinas que devem render a qualquer preço e mercadorias produtoras de lucro para investidores, talvez nos bastasse um treinador tecnicamente bom. Mas se os entendermos, acima de tudo, como pessoas, como seres humanos, ainda, em constante formação, é fundamental que tenhamos bons educadores.    

Quando dizemos que o futebol profissional é educativo, referimo-nos a uma educação que não é formal, que não está registrada nos processos oficiais regulares de ensino. O futebol é educacional no sentido de que atinge profundamente as populações com ele envolvidas, toca no fundo de suas emoções, altera seus comportamentos, orienta suas atitudes.

O que dizem os técnicos em suas entrevistas, o que dizem os jogadores e o que fazem em campo, as decisões dos dirigentes, as opiniões dos jornalistas, são acontecimentos que educam, para o bem ou para o mal. A questão é: uma vez que sabemos do enorme poder de educar que o futebol possui, os envolvidos diretamente com ele têm o direito de se eximir de responsabilidade com o público que pratica e acompanha essa modalidade esportiva? Público esse, vale destacar, que envolve de crianças a idosos, homens e mulheres, das mais diversas regiões do nosso país e do mundo.

Dias após o anúncio da contratação de Fernando Diniz e Eduardo Barros, um clube visto com bons olhos pelos projetos construídos e pelos bons resultados obtidos recentemente, o Atlhético Paranaense, demitiu o treinador Fábio Carille, apenas 21 dias após sua contratação. Isso mesmo… foram somente 7 dias de treino com a sua equipe. Apesar de tão pouco tempo de trabalho, após uma derrota por goleada na Taça Libertadores, foi demitido. Contando Paulo Souza, último demitido, 7 equipes já realizaram 8 demissões de treinadores somente nas 10 primeiras rodadas da série A do Campeonato Brasileiro.  

Não se dá a um treinador um mês para preparar sua equipe. Cobra-se dele resultados que só viriam por passes de mágica ou por obra do acaso. Imaginem, então, se esse treinador tiver o compromisso educacional com seus jogadores, se pensar neles antes como seres humanos que como jogadores.

O futebol, como prática social dentre as mais usufruídas pelo povo brasileiro, nos permite compreender, ao menos parcialmente, a sociedade em que vivemos. E mais, nos permite transformar, também parcialmente, a sociedade em que vivemos! Há um considerável esforço por parte da sociedade, sobretudo por aqueles que lucram com o futebol, em desvinculá-lo da política e das demais esferas da vida em sociedade. Como abordar o futebol sem problematizarmos o preconceito de gênero? Como admirar o futebol diante de tantos casos de racismo? Como pensar em acesso à prática com tanta segregação e seletividade? Como defender direitos sociais básicos com tanto abuso sexual que acomete meninos e meninas que praticam o futebol?

Não obstante, se defendemos a tese do futebol como prática educativa, não podemos deixar de frisar e valorizar os princípios do esporte educacional, defendidos pelo Instituto Esporte Educação (IEE).  Ou seja, independentemente do local de prática (rua, clubes e escolas de esporte) ou da forma como nos apropriamos desta prática social (como praticante, torcedor ou profissional) é fundamental que ele, conforme preconiza o IEE:

  • Seja inclusivo: Temos que garantir a possibilidade de prática a todos e todas. E, estar no jogo, não significa que esteja jogando. Portanto, é preciso criar condições de prática efetiva para todos, ou seja, todos devem brincar, se divertir e jogar juntos.  
  • Seja uma prática coletiva: O futebol, como qualquer outra modalidade, vive em constante transformação. É preciso, então, que todos participem das construções que lhe dizem respeito (suas regras e decisões relacionadas ao jogo, por exemplo).
  • Respeite e valorize a diversidade: Princípio diretamente relacionado ao da inclusão. Devemos respeitar e acolher todas e todos que queiram praticar e admirar o futebol, independente da raça, gênero, nível de habilidade, biotipo, etnia, classe social etc.
  • Promova a autonomia: Praticantes do futebol devem ser capazes de discernir o que envolve sua realização, desde como, quando e qual gesto técnico realizar, até por qual clube torcer ou qual equipe defender, por exemplo. Devem decidir com responsabilidade individual e social.  
  • Contribua com a formação integral do sujeito: Não basta que nosso aluno(a) ou atleta seja tecnicamente um(a) bom/boa jogador(a). Ele ou ela, seja uma criança ou um adulto, precisam se desenvolver como um todo, abarcando seu conhecimento cognitivo, intelectual, físico, emocional, dentre outros.  

Sustentar o futebol como uma prática educativa não é tarefa fácil, sobretudo quando o futebol profissional se apresenta, majoritariamente, de modo conservador, machista, cada vez mais elitista e, também cada vez mais, como uma mercadoria lucrativa e que busca resultados imediatistas. Mas se somos educadores e não abdicamos do papel de contribuir com a transformação do futebol e da nossa sociedade, nossa atuação deve passar, sempre, pela defesa do futebol como prática educativa.

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Formado em 2005 no curso de licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/ Rio Claro), Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), tem suas primeiras experiências acadêmicas circunscritas à Psicologia do Esporte e ao Futebol. Vinculado, desde o primeiro ano da graduação, a ambos os campos, buscou focar sua participação em grupos de estudos e pesquisas onde a relação entre eles fosse possível. Atualmente, é coordenador do Instituto Esporte Educação e líder do grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol.

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João Batista Freire é professor aposentado da Unicamp e referência nacional no ensino do futebol. Autor de diversos livros entre eles o "Pedagogia do Futebol".

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