Por: Lucas Alecrim
Liderança é mais do que ocupar um cargo. Segundo o dicionário Aurélio, trata-se da capacidade de liderar, comandar e exercer influência baseada no prestígio pessoal. Um conceito presente em diferentes esferas da sociedade — famílias, empresas, indústrias — sempre que existe um grupo que precisa de direção, tomada de decisão e responsabilidade.
No futebol, esse fenômeno se manifesta de forma clara. Líderes surgem dentro e fora dos gramados: na gestão de elencos, na organização do dia a dia e, sobretudo, na figura do capitão, aquele que representa o coletivo nos momentos de pressão.
É justamente nesse ponto que este texto se apoia. Ao longo dos anos, algo sempre me chamou a atenção no futebol alemão: a forma como a liderança é construída, transmitida e preservada ao longo das gerações. Um verdadeiro processo de passagem de bastão entre capitães da seleção alemã — a tradicional Die Mannschaft.
Esse processo me lembra um pouco as aulas que eu tinha na faculdade sobre estrutura empresarial e seus conceitos, por exemplo a cultura organizacional.
A cultura organizacional que é um conjunto de valores, crenças, normas, práticas, símbolos e comportamentos que definem como uma organização funciona e como as pessoas dentro dela se relacionam. É, em essência, a “personalidade” de uma empresa, clube, instituição ou equipe.
Ela molda a forma como decisões são tomadas, como conflitos são resolvidos, como metas são perseguidas e como as pessoas percebem seu papel dentro do grupo. Não é algo formal ou escrito apenas em manuais; muitas vezes é tácito, aprendido no dia a dia e transmitido por tradição, exemplo e convivência.
No nosso contexto alemão, não se trata aqui de listar títulos ou comparar desempenhos individuais. O foco está no processo, na continuidade e no perfil de liderança que a Alemanha historicamente cultiva.
Na minha concepção, quatro nomes simbolizam bem essa linha do tempo: Franz Beckenbauer, Lothar Matthäus, Philipp Lahm e Joshua Kimmich.
Claro, houve diversos outros nomes que tiveram essa responsabilidade e eram tão habilidosos tecnicamente (ou melhores) que os nomes listados acima. Entretanto, não acho que tivessem características semelhantes.
Tudo começa com Franz Beckenbauer, o eterno Der Kaiser. Um líder absoluto dentro e fora de campo, que redefiniu a posição de líbero e passou a simbolizar inteligência tática, elegância e autoridade silenciosa. Em 1970, jogou uma semifinal de Copa do Mundo com a clavícula quebrada. Em 1974, liderou a Alemanha ao título diante do lendário “Carrossel Holandês”. Beckenbauer não apenas jogava futebol — ele ditava comportamentos.
Poucos anos depois, surge Lothar Matthäus, um jogador de características distintas, mas com a mesma essência de liderança. Atuando no meio-campo, combinava força física, leitura de jogo e capacidade de organização. Curiosamente — e simbolicamente — Matthäus foi treinado por Beckenbauer na Copa do Mundo de 1990, vencida pela Alemanha. Ali, mais do que orientações táticas, houve transmissão de mentalidade.
Com a aposentadoria de Matthäus, o futebol alemão apresentou outro capitão, não de forma imediata, com perfil semelhante: Philipp Lahm. Versátil, disciplinado e extremamente inteligente, Lahm foi o líder técnico e emocional da seleção campeã do mundo em 2014. Não era o mais midiático, mas talvez fosse o mais confiável. Representava, em campo, a ideia de coletividade acima do individual.
Após aquele título, a braçadeira passou por nomes importantes, como Bastian Schweinsteiger, até chegar, também de forma não imediata, ao atual símbolo dessa continuidade: Joshua Kimmich.
Capitão da seleção sob o comando de Julian Nagelsmann, Kimmich reúne características que se repetem nesse processo histórico: intensidade, disciplina, leitura tática, inconformismo competitivo e exemplo diário. Um líder que conduz pelo comportamento.
Nas palavras do próprio treinador:
“Ele é um exemplo para todo o grupo. Sempre dá tudo de si, quer treinar o tempo todo e estabelece padrões.”
Os números ajudam a ilustrar, mas não explicam sozinhos o impacto desses atletas:
- Beckenbauer: 856 jogos
- Matthäus: 930 jogos
- Lahm: 764 jogos
- Kimmich: mais de 700 jogos em alto nível
Mais importante do que estatísticas é entender o perfil. A Federação Alemã de Futebol (DFB) nunca pareceu escolher seus capitães apenas por talento técnico. O que pesa, historicamente, é a capacidade de inspirar, assumir responsabilidades e proteger o coletivo.
A liderança alemã, dentro e fora do futebol, costuma se basear em disciplina, responsabilidade compartilhada e visão de longo prazo. Não há espaço para improviso constante. O sucesso é visto como consequência de organização, planejamento e trabalho contínuo.
Esse tipo de líder inspira porque age com coerência. Assume erros, protege o grupo nos momentos difíceis e entende que liderar não é mandar, mas servir ao processo.
Talvez o aspecto mais inspirador seja o compromisso com o legado. Liderar, nesse contexto, não é apenas vencer hoje, mas preparar o amanhã. Construir estruturas, formar pessoas e garantir que o nível se mantenha alto mesmo após a troca de gerações.
No futebol alemão, a braçadeira muda de braço — mas a liderança permanece.
Um grande abraço e um excelente 2026.
Lucas Alecrim



2 respostas em “A braçadeira como ferramenta de gestão: a revolução alemã na função do capitão”
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