Ao longo dos textos anteriores, procurei compartilhar um olhar sobre a supervisão no futebol que ultrapassa a logística e a operação de jogos. Falei de afeto, vínculos, presença e da importância das relações humanas na formação de jovens atletas. Neste terceiro artigo, avanço para um tema sensível, complexo e absolutamente necessário: os limites entre formação esportiva, exploração do trabalho infantil e projeções emocionais dos adultos sobre as crianças.
Tratar desse assunto exige cuidado, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com o desenvolvimento integral do ser humano, princípio que deve orientar qualquer projeto sério de futebol de base.
Quando o Sonho Vira Trabalho: A Exploração da Criança Atleta
O futebol é, para muitas crianças, brincadeira, prazer e expressão. No entanto, em determinados contextos, ele passa a assumir contornos de obrigação, cobrança excessiva e expectativa financeira precoce. É nesse ponto que surge um alerta importante: quando o futebol deixa de ser espaço formativo e passa a ser exploração do trabalho infantil.
Treinos exaustivos, agendas lotadas, viagens constantes, pressão por resultados imediatos e responsabilidades incompatíveis com a idade são sinais que precisam ser observados com atenção. A criança deixa de brincar, de errar, de experimentar e passa a “performar”.
Cito dois casos reais, obviamente modificando os nomes verdadeiros.
Didi tinha 9 anos de idade, quando passou a se queixar de dores que o impediam de jogar. Exames médicos constataram fratura em um osso do pé, causada por estresse. Como pode uma criança de 9 anos sofrer uma fratura por estresse?
Em trabalho investigativo, conversando com diversas pessoas, descobri que o pai levava o menino para jogar vários jogos aos finais de semana. Ele jogava por diversas equipes, em diversos locais. O próprio pai, talvez sem perceber a dimensão do que estava fazendo, me confessou que “era correria”, viajava tantos quilômetros nos finais de semana para o filho jogar. Como ele se destacava nos jogos, vários times o chamavam para jogar.
Não perguntei ao pai, mas desconfio de que recebia dinheiro dos times para levar o seu filho.
O menino tem talento, está no processo de desenvolvimento e formação desportiva. Não se sabe se será atleta profissional. Tem “projeção” de que sim. Torço para o pai não atrapalhar muito.
Dedé tinha 13 anos, quando o pai pediu uma reunião com o coordenador técnico, para questionar a minutagem de participação em jogos pelo clube. Queria que o filho jogasse mais tempo, como titular. Na ocasião, apresentou um plano de carreira para o filho que, sinceramente, era surreal. Infelizmente não posso mostrar aqui, mas acreditem, o plano feito pelo pai estipulava os seguintes objetivos:
- Ser referência em sua geração, ativo importante para o clube;
- Ser lembrado como atleta mais veloz, objetivo e intenso da geração 20XX;
- Gerar valor, para que o desenvolvimento seja justo, economicamente viável;
- Ser referência em seu colégio e ambiente regional.
- Cronograma diário: Escola das 7:10 às 13:00; Janta das 22:45 às 23:30. Durante as tardes, treinos em outros times e em academia com personal trainer.
- Responsabilidade da família: acompanhamento de planilha de custo e investimento.
O menino não tinha tempo para ser criança!
O pai trabalhava em uma instituição financeira, exercendo cargo de alta direção. Talvez enxergasse o filho como um “ativo”, um investimento que traria rendimentos financeiros.
Como não foi totalmente atendido, pediu a liberação e o levou para outro clube. Consta do registro na CBF que passou uma temporada no “clube 2”, ficou uma temporada sem clube e no ano passado se transferiu para o “clube 3”. Não sei dizer se o plano do pai foi revisitado.
Esses exemplos ajudam a ilustrar como, muitas vezes, o discurso do “sonho” mascara uma realidade de sobrecarga emocional e física. O sonho é legítimo. A exploração, não.
O supervisor, nesse cenário, precisa estar atento aos sinais: queda de rendimento escolar, ansiedade excessiva, medo de errar, lesões recorrentes, irritabilidade. São indicadores de que algo deixou de estar equilibrado.
A Frustração do Pai Projetada no Filho
Outro ponto recorrente, e igualmente delicado, é a projeção das frustrações pessoais dos pais sobre os filhos atletas. Muitos desses pais não tiveram oportunidade no futebol ou não alcançaram o sucesso desejado. O que não foi vivido por eles passa a ser exigido do filho.
Essa projeção assume diferentes formas: cobranças constantes, comparações, pressão por desempenho, controle excessivo da rotina e até interferência (ou tentativa de) no trabalho da comissão técnica.
Cito alguns exemplos, novamente, substituindo os nomes verdadeiros.
Huguinho tinha o pai obcecado por números, minutagem e comparações. Pediu reunião com o coordenador técnico para contestar a não titularidade do filho nos jogos, pois teria dados estatísticos demonstrado que ele seria melhor do que o atleta escolhido pela comissão técnica.
O menino era muito inteligente, falava inglês, espanhol e alemão fluentemente. Estava aprendendo outras línguas. Gostava de filmes clássicos e de séries como tramas complexas. Era claro que gostava de conversar com adultos e não com os colegas de time. Certa vez, conversando com ele no saguão de um hotel, me disse que não gostava dos hábitos dos colegas, pois ouviam música ruim, não liam livros, não gostavam de história, economia, nem de política.
Mas o pai foi goleiro amador, deseja que o filho seja goleiro profissional.
Zezinho aparentava claramente não estava feliz com a vida que levava. Alojamento, rotina de treinos e jogos. Mas o pai insistia para que o menino continuasse no clube, pois achava que seria jogador de futebol.
Luizinho era filho de um ex-jogador de futebol profissional, que jogou na Europa e na seleção brasileira e atuava como “personal”, treinador particular e gestor da carreira do filho. Era comum o menino retornar ao clube, após a folga do final de semana, com dores musculares. No período em que deveria descansar, “treinava” com o pai.
Nesses casos, o futebol deixa de ser espaço de descoberta e passa a ser palco de compensações emocionais. A criança joga para atender expectativas externas, não para se desenvolver, aprender ou se divertir.
Os Impactos Emocionais no Atleta
A criança submetida a esse tipo de pressão tende a desenvolver comportamentos que merecem atenção: ansiedade, agressividade, medo de errar, dificuldade de lidar com frustrações e, em alguns casos, perda do prazer pelo jogo.
O erro, elemento central do aprendizado, passa a ser vivido como ameaça. O jogo vira prova. O campo, um tribunal. E o futebol, que poderia ser ferramenta de formação humana, se transforma em fonte de sofrimento.
É importante lembrar: nem toda cobrança é sinal de cuidado, assim como nem toda presença é sinônimo de apoio saudável.
O Papel do Supervisor como Guardião do Processo Formativo
Diante desse cenário, o supervisor assume um papel fundamental: o de guardião do processo formativo. É ele quem faz a mediação entre clube, família e atleta. Quem chama para a conversa, estabelece limites, orienta e, quando necessário, protege.
Proteger o atleta não significa afastá-lo da responsabilidade ou do compromisso. Significa garantir que o desenvolvimento aconteça no tempo certo, respeitando a infância, a adolescência e os aspectos emocionais envolvidos.
O supervisor precisa ter coragem para sustentar diálogos difíceis, para dizer “não” quando o ambiente começa a adoecer, e para lembrar a todos que o futebol de base não é um fim em si mesmo, mas um meio de formação.
Formar Atletas ou Formar Pessoas?
Essa talvez seja a pergunta central que atravessa este artigo e toda a série. O futebol de base precisa decidir, diariamente, se está apenas produzindo atletas ou se está contribuindo para a formação de pessoas equilibradas, críticas e emocionalmente saudáveis.
Quando o processo é bem conduzido, o resultado aparece no campo e fora dele. Quando não é, o custo humano costuma ser alto.
Caminhos Possíveis
Combater a exploração e as projeções emocionais passa por educação, diálogo e clareza de papéis. Passa por clubes com valores bem definidos, supervisores preparados, comissões técnicas alinhadas e famílias orientadas.
O futebol de base pode e deve ser um espaço de sonho. Mas um sonho que respeite a infância, preserve a dignidade e prepare o jovem não apenas para jogar, mas para viver.

Caio Rizek é Supervisor de Futebol de Base do São Paulo FC, atuando na organização e integração dos processos esportivos e institucionais das categorias de formação. É advogado e bacharel/licenciado em Educação Física, com formação executiva em gestão e liderança (MBA USP/Esalq). Possui experiência na supervisão operacional do departamento de futebol, relacionamento com comissão técnica, atletas e famílias, além de atuação em rotinas estratégicas do ambiente de base.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/caiorizek/



Uma resposta em “Entre Sonhos e Pressões: quando o futebol de base deixa de ser infância”
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