Penso, logo existo: o desenvolvimento de jogadores inteligentes, criativos e autônomos

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Por: Rafael Castellani & Sergio Ricardo

A famosa e clássica frase atribuída ao filósofo francês René Descartes, “penso, logo existo”, refere-se ao ato de questionar para se tomar consciência da própria existência e individualidade. Ou seja, o sujeito que questiona, duvida, afirma, nega, existe, imagina e sente… pensa. E se pensa, existe.

E como podemos nos apropriar da premissa de Descartes para compreendermos o processo de formação de um jogador de futebol inteligente, criativo e autônomo? Se pensar é ponto de partida para nos colocarmos no mundo, no futebol, quando a criança/jovem pensa, logo joga. Um atleta somente entra em “estado de jogo” se for capaz de tomar consciência das suas próprias decisões e resolver os “problemas do jogo” de modo autônomo e criativo.

Entretanto, o que frequentemente vemos nas escolas e categorias de base do futebol brasileiro é justamente o contrário. O jogador, tanto nos treinos quanto nos jogos, apenas executa ordens e comandos dos treinadores e atende, por vezes inconscientemente, aos desejos dos pais. Assim sendo, não é oportunizado à criança e ao jovem que praticam o futebol a possibilidade de pensarem sobre suas ações e decisões.

Para existir como indivíduo autônomo, ele precisa fazer escolhas, compreender o erro como parte da aprendizagem e realizar sua própria autoavaliação. No âmbito do jogo de futebol, precisa optar por quando, e de que forma, passar, finalizar, desarmar etc; para onde, e em que momento, se deslocar; por outro lado, o que vemos à beira dos campos de futebol é o treinador aos gritos mandando o jogador passar, chutar, se deslocar etc. É o treinador quem toma as decisões pelo jogador. Este, somente responde, executa, reage, obedece.   

Quando o atleta não questiona, não escolhe e não reflete, ele não desenvolve sua autonomia, pois essa é sufocada pelos adultos. Então, a sua personalidade demora a se consolidar, afinal, existe apenas como uma extensão da vontade/desejo dos adultos. Antes de serem atletas, essas crianças e jovens são seres humanos. E aquilo que eles aprendem e desenvolvem no jogo, eles carregam para suas vidas fora dele. Ao não os deixar pensarem e agirem de modo autônomo e criativo, se tornarão sujeitos dependentes da orientação ou ordens do outro, inseguros, com medo de fazerem suas próprias escolhas e totalmente incapazes de liderar.

Quando alguém sempre diz ao outro o que ele precisa fazer ou como deve agir,  quem deixa de existir?

A criança, que vê sua fase de descobertas, de imaginação e de criatividade se desfazendo para satisfazer desejos egocêntricos dos adultos, ou um futuro adulto autônomo que mal saberá o que fazer com a liberdade que nunca teve? Essa responsabilidade, que deveria ser o cerne da escolha, parece não existir, perpetuando um autoritarismo transformando o que deveria ser um laboratório, em um tribunal.

Nesse “tribunal esportivo” cotidiano, o próprio espaço do treino é esvaziado de seu potencial de aprendizagem. A rotina esportiva deixa de ser o palco da descoberta e passa a operar como uma engrenagem de manutenção de autoridades. Esse processo de domesticação começa muito antes do início da aula/treino ou do apito inicial e se estende muito após o término da atividade: manifesta-se nos pais que, no trajeto de ida e volta dentro do carro, antecipam e revisam ordens, ditando como o filho deve se postar e agir. Consolida-se, por sua vez, nos mediadores que — frequentemente destituídos da capacitação pedagógica adequada — utilizam os campos apenas para reproduzir seu status de detentores únicos do saber.

Ao negligenciar um ensino individualizado e personalizado, que dialogue com as singularidades e o tempo de maturação de cada criança, esses agentes impedem que a informação seja absorvida e ressignificada em aprendizado real. Sem o acolhimento didático que gera segurança e confiança, o jovem atleta é privado do suporte necessário para ousar. O resultado dentro das quatro linhas é o silenciamento da tomada de decisão: o jogador não joga; ele apenas reage, apavorado, aos ecos das vozes que o cercam fora delas.

Essa inércia em campo expõe as amarras invisíveis que prendem o jovem atleta na heteronomia. A iniciação esportiva se tornou, em grande medida, o palco de uma extensão do narcisismo dos pais, que projetam nos filhos as frustrações e os desejos de validação de suas próprias existências. Esse fenômeno é alimentado por uma sociedade que já não é meramente competitiva — onde se busca a comparação de desempenho e superação —, mas sim ‘competidora’, pautada na eliminação implacável do outro e no sucesso a qualquer custo. Sob a ditadura das redes sociais, esse cenário se agrava: o impacto do ‘parecer ser’ maquia comportamentos e transforma a vivência esportiva em um produto “instagramável”, estimulando a manipulação da imagem em detrimento da autenticidade da experiência. O jogo real é substituído pela performance coreografada para o olhar alheio.

Por outro lado, um jogador inteligente, criativo e autônomo é capaz de “ler” e interpretar o jogo; ele sabe se posicionar e se deslocar no espaço e toma a melhor decisão para resolver os problemas do jogo. O atleta criativo, dá o passe inesperado; engana o adversário dando um passe para um lado e olhando para outro; ele nunca tem a jogada óbvia e mais esperada como a prioritária; é imprevisível. O jogador criativo é aquele que encontra respostas inesperadas para os problemas impostos pelo jogo.

No decorrer do processo criativo é natural que ocorram erros. E o erro, bem como a dúvida para Descartes, é parte importante do processo de aprendizagem do jogador. Se o jogador tem medo de errar, ele não tenta criar e não arrisca uma jogada que fuja do óbvio/esperado. E esse medo, na maioria das vezes, é fruto das broncas e represálias do treinador que, ao invés de estimular e encorajar para que o jogador continue tentando algo novo e diferente, o sufoca e o amedronta para agir de modo autônomo e criativo.    

Diante desse diagnóstico, o cenário atual nos impõe uma ironia trágica. A filosofia que nos faz pensar com Descartes e Fromm, contrasta com a prática esportiva que, cada vez mais sem dono, faz com que talentos não se desenvolvam. Em contrapartida, esperamos, a partir desta reflexão proposta, que os professores e treinadores devolvam o jogo às crianças e aos adolescentes e permitam que eles criem, errem, tomem decisões, ajam sozinhos, inovem; que permitam que eles pensem, logo, que existam.

Rafael Castellani é licenciado e mestre em Educação Física (Unesp/RC e Unicamp, respectivamente) e Doutor em Psicologia do Esporte pela USP. É especialista em Pedagogia do Futebol, currículo e formação de atletas. Atua como coordenador pedagógico da Encontro Educa, consultor científico da MDF Sports, além de ser colunista e líder do Grupo Técnico Pedagógico da Universidade do Futebol.
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani

Sergio Ricador Formação em psicologia do esporte/ Especialista em iniciação esportiva em busca de parcerias e novas oportunidades.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/sergio-ricardo-43102776/

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5 respostas em “Penso, logo existo: o desenvolvimento de jogadores inteligentes, criativos e autônomos”

Diante de mais um insucesso da nossa seleção, não fracasso, como alguns oportunistas de plantão apregoam, da importância da formação do atleta. O processo de autonomia, juntamente com a visão do processo coletivo se faz necessário. Futebol é comprometimento com o coletivo, como na sociedade. Não pensar somento no seu umbigo. Ninguém faz nada sozinho. A visão coletiva é transformadora e possibilita a criação coletiva. Dói ver jogadores de alto nível como Casemiro, Danilo pra exemplificar, darem passes que parece que estão se despachando da bola, com medo de errar. Dentro dessa premissa do comprometimento, aparece o volante que recebe a bola e está de costas para o campo adversário e sempre toca a bola para trás ou, ainda, o cruzamento pra dentro da área prlo alto sem nunca pensar que se a zaga tem jogadores altos isso é totalmente improdutivo. Sem falar do zagueiro que insiste bo balão pra se despachar. Falcão, o grande craque brasileiro, já dizia, ” com o balão a bola volta logo, logo, pro nosso campo”. Infelizmente repensar e levar a diante a importância de uma formação da forma como o artigo apregoa é cada vez possível, nessa lógica do ganhar a qualquer preço. Parabéns pelo artigo. Em tempo sou professor de Química e prego, na sala de aula a importância da autonomia, a solidariedade para termos uma sociedade melhor. O futebol é parte disdo. Alguém disse o futebol é o simulacro da guerra e enquanto houver a imposição do resultado, a violência o transforma na própria guerra . Parabéns pelo artigo e seus ensinamentos.

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