A formação de atletas no futebol deve ser compreendida como um processo de longo prazo, orientado pela aprendizagem e pelo desenvolvimento progressivo de capacidades técnicas, táticas, cognitivas e comportamentais. Neste contexto, a competição formal não deve ocupar papel central nas etapas iniciais, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Defende-se, neste artigo, que o treino deve ser o eixo principal da metodologia formativa, enquanto o jogo* deve existir de forma complementar, preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.
*Quando nos referimos ao “jogo”, tratamos especificamente de partidas com caráter competitivo formal, valendo 3 pontos, que tendem a antecipar demandas por resultado e podem interferir negativamente no processo formativo.
Essa orientação encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem, desenvolvimento de talentos no futebol e uso pedagógico de jogos reduzidos.
Argumenta-se que, nessa fase, o principal objetivo da formação é ampliar repertórios e consolidar aprendizagens, e não antecipar exigências competitivas incompatíveis com o estágio de desenvolvimento do atleta.
Palavras-chave: futebol de base; treino; formação esportiva; maturação; jogos reduzidos.
1. Introdução
A formação de atletas no futebol exige decisões metodológicas coerentes com os estágios de desenvolvimento biológico, motor e cognitivo. Em muitos contextos, observa-se a antecipação da competição formal como elemento central do processo, como se o jogo oficial fosse, por si só, capaz de produzir desenvolvimento. Essa lógica, contudo, tende a deslocar o foco da aprendizagem para o resultado.
A literatura clássica sobre prática deliberada indica que a excelência esportiva não decorre apenas da exposição à prática, mas da qualidade da prática realizada. Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993) demonstraram que o desempenho de alto nível está associado a atividades estruturadas, repetidas e orientadas à correção de erros. No futebol de base, isso significa que o treino precisa ocupar posição central na formação, pois é nele que o atleta pode experimentar, repetir, corrigir e consolidar fundamentos.
Neste artigo, sustenta-se que o treino deve prevalecer sobre a competição formal até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa etapa, o jogo deve existir como recurso metodológico, mas em formato amistoso e não competitivo, de modo a preservar o caráter pedagógico do processo.
2. Treino, maturação e desenvolvimento de longo prazo
A prioridade do treino nas categorias iniciais encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem. Malina, Bouchard e Bar-Or destacam que crianças e adolescentes atravessam processos heterogêneos de desenvolvimento, com diferenças relevantes entre idade cronológica, maturação biológica e capacidades funcionais. Isso implica que a imposição precoce de exigências competitivas padronizadas pode produzir efeitos negativos, especialmente quando o atleta ainda está consolidando sua base motora e cognitiva.
No futebol de formação, essa compreensão é essencial. O treino permite ajustar as demandas ao estágio de cada atleta, respeitando ritmos individuais e oferecendo maior controle pedagógico. Já a competição formal tende a ampliar a pressão por desempenho, reduzir o espaço para o erro e privilegiar o resultado imediato.
Sarmento et al., em revisão sobre desenvolvimento de talentos no futebol, reforçam que a formação eficiente depende de ambientes estruturados, com foco em aprendizagem progressiva e desenvolvimento de longo prazo. Essa perspectiva é particularmente relevante para sustentar a ideia de que, até o segundo semestre do Sub-14, o objetivo principal não deve ser competir, mas formar.
3. O papel do jogo na metodologia formativa
A defesa do treino como eixo principal não significa a exclusão do jogo. Pelo contrário: o jogo deve permanecer presente na metodologia, mas com função pedagógica bem definida. Até o segundo semestre do Sub-14, o jogo deve ocorrer preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.
Essa distinção é importante porque permite preservar a vivência coletiva, a cooperação, a leitura de jogo e a tomada de decisão, sem submeter o atleta às pressões simbólicas e emocionais da competição oficial. Nesse sentido, o jogo funciona como extensão do treino, e não como substituto da formação.
As revisões sobre small-sided games ajudam a sustentar essa lógica. Moran, Guilherme, Folgado, Miranda e Esgaio mostram que formatos reduzidos de jogo podem estimular comportamentos técnicos e táticos relevantes, mantendo intensidade e tomada de decisão em ambiente controlado. Assim, o jogo continua existindo, mas dentro de uma lógica metodológica que prioriza o aprendizado.
4. Competição precoce e seus limites
A competição precoce pode comprometer a qualidade da formação porque tende a induzir escolhas pedagógicas voltadas ao curto prazo. Quando o foco se desloca para vencer, o processo de aprendizagem perde espaço para a avaliação do resultado. Isso é particularmente problemático em categorias iniciais, nas quais o atleta ainda necessita de amplo repertório de experiências e de tempo para consolidar fundamentos.
Ford, Yates e Williams (2010) demonstram que treinadores de base podem estruturar atividades competitivas dentro do próprio treino, sem necessidade de antecipar o jogo oficial. Essa constatação reforça um princípio importante: a competitividade pode ser construída metodologicamente, sem que a competição formal assuma protagonismo precoce.
Assim, a formação até o segundo semestre do Sub-14 deve privilegiar:
- treino estruturado e progressivo;
- jogos-treino e amistosos como recurso complementar;
- ausência de competição formal como eixo central;
- foco em aprendizagem, e não em resultado.
5. Discussão
A tese central deste artigo é que, na formação de base, o treino deve ser mais importante do que a competição, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Isso não significa negar a importância do jogo, mas reconhecer que, nessa etapa, o jogo deve estar subordinado aos objetivos formativos.
A literatura aqui mobilizada converge para essa direção. Ericsson et al. (1993) sustentam a importância da prática deliberada. Malina, Bouchard e Bar-Or evidenciam que o desenvolvimento jovem é marcado por ritmos distintos de maturação. Sarmento et al. reforçam a necessidade de processos de longo prazo no futebol. Moran et al. demonstram que jogos reduzidos podem ser utilizados como recurso pedagógico sem necessidade de competição formal. Ford et al. mostram que a competitividade pode ser construída no treino.
Desse modo, a formação esportiva mais consistente não é aquela que antecipa a competição, mas aquela que organiza a aprendizagem com base em progressão, controle e intencionalidade pedagógica. O treino, mesmo quando ainda não é perfeito, oferece mais condições de desenvolvimento do que o jogo precoce porque permite corrigir, repetir e aprofundar.
6. Conclusão
A formação de atletas no futebol deve priorizar o treino como eixo central do processo, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa fase, o atleta ainda está em processo de consolidação motora, técnica e cognitiva, o que torna inadequada a centralidade da competição formal.
O jogo deve permanecer presente na metodologia, mas em caráter amistoso e não competitivo, como ferramenta complementar ao treino. Essa orientação é compatível com a literatura sobre maturação, desenvolvimento de talentos e prática deliberada, e sustenta uma visão mais responsável e consistente da formação esportiva.
Em síntese, mesmo um treino imperfeito pode oferecer mais valor formativo do que a competição precoce. O que define sua relevância não é a ausência de erro, mas a presença de um processo pedagógico intencional, progressivo e coerente com a fase de desenvolvimento do atleta.
Referências
Bompa, T., & Buzzichelli, C. (2019). Periodização: teoria e metodologia do treinamento. Phorte.
Côté, J., Baker, J., & Abernethy, B. (2007). Practice and play in the development of sport expertise. In G. Tenenbaum & R. C. Eklund (Eds.), Handbook of Sport Psychology (3rd ed.). Wiley.
Ericsson, K. A., Krampe, R. T., & Tesch-Römer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, 100(3), 363–406.
Ford, P. R., Yates, I., & Williams, A. M. (2010). An analysis of practice activities and instructional behaviours used by youth soccer coaches during practice. Journal of Sports Sciences, 28(5), 483–495.
Malina, R. M., Bouchard, C., & Bar-Or, O. Growth, Maturation, and Physical Activity.
Moran, J., Guilherme, J., Folgado, H., Miranda, R., & Esgaio, R. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]
Sarmento, H., et al. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]

Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC.
Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
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