Quem vai construir as pontes capazes de humanizar e transformar o futebol e a sociedade?

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Por: Rafael Castellani

Há mais de duas décadas tenho me dedicado a estudar e intervir no futebol. Da iniciação científica ao doutorado, na Universidade do Futebol, na CBF Academy, no Progresso Futebol de Base, no Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia – (INCT – Futebol), no Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) e nas escolas de futebol onde atuei e atuo como coordenador metodológico, minha intervenção sempre se deu na perspectiva de tratar e respeitar crianças e atletas profissionais como seres humanos, sujeitos de necessidades, interesses e subjetividades.  
Em cada uma destas experiências, jamais renunciei a um olhar humanizado para o futebol e, para minha felicidade e inspiração política, venho compartilhando do propósito de transformar o futebol – e a sociedade – com muitos excelentes profissionais, dentre os quais três deles faço questão de citar nominalmente: João Batista Freire, João Paulo Medina e Lino Castellani Filho, meu pai. Obviamente, estes são somente três exemplos dentre tantos outros que poderia citar.

Ainda assim, terei que citar nominalmente outros quatro parceiros – Sebástian Vasquez, Tiago Corradine, Caio Rizek e Paulo André -, afinal, além da mais recente publicação de um texto escrito em parceria com o professor Sebástian, há outras três publicações destes três outros brilhantes profissionais que dialogam com essa temática e militam pela transformação do futebol 

 A começar pelo texto que escrevi com Sebástian Vásquez, intitulado “Sem conseguir ser criança, Flora não floresce”, a partir de um caso de destaque na mídia envolvendo uma criança de 12 anos que é disputada por dois clubes rivais, problematizamos que os desejos e necessidades do jogador são, costumeiramente, negligenciados ou ficam em segundo plano, fato que se torna ainda mais emblemático se o jogador em questão for uma criança. E questionamos: quando é que vamos devolver às crianças o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol? Precisamos, urgentemente, garantir um contexto propício para a evolução e fortalecimento dos nossos jogadores, crianças, jovens e adultos, inserindo-os em um “contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico” e não apenas mercadológico.     

Em diálogo próximo ao nosso texto, o professor Tiago Corradine, que lidera junto a mim o grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol, publicou o artigo “O Florescer da Infância no Futebol: Um Chamado à Formação Integral”. Sua defesa passa também pela necessidade de investirmos na formação integral de atletas e cidadãos/ãs, “onde o desenvolvimento humano e social caminha lado a lado com o aprimoramento técnico”, potencializando o ser humano em sua totalidade. Como muito bem defende Tiago Corradine, “não podemos permitir que o futebol, que deveria ser um espaço de alegria e aprendizado, se torne palco de uma exploração precoce”. 

Na mesma perspectiva, o artigo escrito por Caio Rizek, supervisor das categorias de base do SPFC, intitulado “Meninos Profissionais: Quando a infância vive em função do futebol”, traz para a reflexão o surgimento dos “meninos profissionais” e, de forma ainda mais delicada, do “menino arrimo de família”, e reforça a necessidade de atuarmos com responsabilidade institucional, sensibilidade e coragem para enfrentarmos essa triste e preocupante realidade. As crianças estão cada vez mais distantes da sua infância e cada vez mais próximas de uma rotina profissional. Neste contexto, as famílias passam a se adaptar à vida do filho/atleta e a criança acaba tendo de assumir uma responsabilidade e um “protagonismo que não condiz com sua maturidade emocional”, afinal o “menino passa a ser tratado como “projeto”, “investimento” ou “esperança”.

O quarto texto, escrito pelo ex-jogador e atualmente dirigente esportivo, Paulo André Benini, estabelece críticas à formação esportiva de jovens jogadores, afinal, esta tem dado papel protagônico à proteção das crianças/adolescentes como ativos e a uma disputa por talentos. Nas palavras do autor,a lógica de proteção do investimento expõe quem realmente deveria ser protegido”, a criança.

João Paulo Medina, fundador da Universidade do Futebol e com quem tenho o prazer e honra de trabalhar há mais de uma década, tem explanado em suas mais recentes comunicações que boas ideias e posicionamentos como esses apresentados nestes textos exemplificados, apesar de expressivos e significativos, ainda estão posicionados em ilhas. São bons textos e “cases” que, apesar de cada vez mais numerosos, encontram-se dispersos pelo território brasileiro. Nesse sentido, é preciso construirmos pontes! Pontes capazes de unir e fortalecer pessoas e instituições empenhadas no propósito de, sob a premissa de uma visão sistêmica, integral e humanizada do futebol, transformar essa importante prática social e a nossa própria sociedade. 

Paulo André, corroborando o que vem sendo defendido por Medina há anos, finaliza seu texto abordando justamente a necessidade de criarmos um plano integrado capaz de conectar profissionais e instituições. E a CBF, ao propor a realização de um grupo de trabalho dedicado a discutir as categorias de base, composto por clubes, federações, executivos, formadores e especialistas, é justamente, no meu entendimento, a maior responsável por construir essas pontes!

Referências:

Benini, Paulo André. O futebol que protege o investimento — e expõe a criança. Disponível em: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-futebol-que-protege-o-investimento-e-expoe-a-crianca/. Acesso em 15/05/2026.

Castellani, Rafael; Vásquez, Sebástian. Sem conseguir ser criança, Flora não floresce. Disponível em: https://universidadedofutebol.com.br/2026/04/27/sem-conseguir-ser-crianca-flora-nao-floresce/. Acesso em 15/05/2026.

Corradine, Tiago. O Florescer da Infância no Futebol: Um Chamado à Formação Integral. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/o-florescer-da-inf%C3%A2ncia-futebol-um-chamado-%C3%A0-forma%C3%A7%C3%A3o-tiago-corradine-zxpbf/. Acesso em 15/05/2026.

Rizek, Caio. Meninos profissionais: quando a infância vive em função do futebol. Disponível em: https://universidadedofutebol.com.br/2026/04/21/meninos-profissionais-quando-a-infancia-vive-em-funcao-do-futebol/. Acesso em 15/05/2026.

Rafael Castellani é Doutor em Psicologia do Esporte pela USP, é Especialista em Pedagogia do Futebol e Formação de Atletas. Atua como Diretor Executivo e Coordenador Metodológico da Time Forte, além de Colunista e Líder do Grupo Técnico-Pedagógico da Universidade do Futebol.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani/.

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2 respostas em “Quem vai construir as pontes capazes de humanizar e transformar o futebol e a sociedade?”

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