A ESTRANGEIRIZAÇÃO DA BASE: UM CAMINHO A REPENSAR PARA O FUTEBOL BRASILEIRO

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Artigo opinativo sobre a identidade e a gestão técnica na formação de atletas

Por: Douglas Bazolli

Resumo

Este texto discute um tema que mexe com diretores, treinadores e estudiosos do futebol brasileiro: a contratação cada vez maior de profissionais estrangeiros para trabalhar na base do país. Defendo aqui que essa prática, além de desnecessária, é prejudicial. O verdadeiro problema da formação brasileira não é a falta de gente boa, mas a falta de qualificação constante de quem manda e o desperdício de profissionais excelentes que temos aos montes dentro do nosso país. Além disso, as categorias de base formam não só jogadores, mas também treinadores. Ter estrangeiros nesses cargos quebra a rede natural de passagem de conhecimento profissional dentro de casa.

1. A IDEIA E O MAL-ENTENDIDO

Se o objetivo é recuperar o futebol brasileiro, tenho a certeza, construída em vinte anos de trabalho passando por base, profissional e coordenação, de que trazer gestores, coordenadores e treinadores de fora para a base não é o caminho. Uma coisa é a globalização no futebol profissional, onde se ajusta a tática em times já prontos. Outra coisa, completamente diferente, é entregar a formação dos nossos jovens a profissionais que não conhecem a cultura do Brasil.

O argumento de que “precisamos aprender com a Europa” parte de uma ideia que a prova derruba: a de que o Brasil não tem formadores. Isso não é verdade. O que falta não é qualidade, é colocar as pessoas nos lugares certos.

2. O BRASIL NÃO É UM PAÍS SEM FORMADORES

O Brasil é, segundo o Observatório do Futebol, o maior exportador de jogadores do mundo. Em 2025, foram 2.326 transferências internacionais de brasileiros. Mais de 1.440 brasileiros jogavam no exterior em 135 ligas. A venda de atletas rendeu US$ 553,7 milhões, cerca de R$ 2,86 bilhões. Nos últimos seis anos, mandamos para fora 6.648 jogadores.

Esses números trazem uma conclusão que costuma ser ignorada: se o Brasil forma jogadores que o mundo inteiro compra, é porque tem formadores competentes. Jogador craque não surge do nada. Existe uma rede de observadores, treinadores de crianças, coordenadores e professores que mantém esse movimento. O problema não é a falta desses profissionais. O problema é onde eles estão e quem ocupa as vagas que deveriam ser deles.

3. A PROVOCAÇÃO NECESSÁRIA: 213 MILHÕES DE PESSOAS E NÃO TEMOS FORMADORES?

Aqui, faço uma provocação direta baseada na minha experiência de vinte anos no futebol. Segundo o IBGE em 2025, o Brasil tem 213.421.037 habitantes. Somos o quinto país mais populoso e o que tem a cultura de futebol mais forte. É o lugar com a maior quantidade de pessoas jogando no mundo.

E pergunto: em um país com tanta gente, não conseguimos ter bons formadores e gestores? A resposta é desconfortável: conseguimos, sim. O problema não é a quantidade de gente, é como eles são escolhidos. É a falta de valorização de quem é bom. É a estrutura da gestão. E os números que provam isso são fortes.

  • Uma nação que estuda muito o futebol

O Brasil tem, segundo o CONFEF, mais de 668 mil profissionais registrados. Não são amadores. São pessoas autorizadas por lei a trabalhar com esporte. Temos centenas de faculdades de Educação Física formando milhares de profissionais todos os anos.

A própria CBF Academy já treinou milhares de técnicos em seus cursos obrigatórios. Só a Licença PRO, o nível mais alto, formou cerca de 4.989 profissionais. Até 2026, esse número passou dos cinco mil. Mas o estudo no Brasil vai muito além da CBF. Existe uma rede forte de ensino que inclui:

  • Faculdades com foco em futebol, como Estácio, PUCRS e outras.
    
    • A Universidade Federal de Viçosa (UFV), com seu centro de pesquisa (NUPEF) e curso de especialização.
    • Pós-graduações de especialização em treino de futebol oferecidas por várias instituições globais.
    • Mestrados e doutorados em universidades como USP, Unicamp, UFMG e UFRJ.
    • Plataformas como a Universidade do Futebol (UdoF), que é referência em pesquisa no país.
    • Canais e comunidades como Diário do Treinador, Ciência da Bola e outros que ajudam na formação constante.
    • Eventos acadêmicos e científicos como o SIBRAFF (Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal), organizado pelo NUPEDEFF (Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Esportes, Futebol e Futsal) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já vai para sua 4ª edição em 2026, reunindo pesquisadores, treinadores e preparadores físicos de todo o país para discutir os avanços e desafios da modalidade.

Além desses, existem outros eventos que mostram como o Brasil é sério na formação de profissionais: o Simpósio Internacional de Futebol da própria UFV, o Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol do Museu do Futebol (realizado desde 2010 em São Paulo), o CONBRACE/CONICE (Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) e os diversos encontros regionais organizados por universidades e conselhos regionais de Educação Física. Todos esses espaços são frequentados por milhares de treinadores que buscam se atualizar e trocar experiências. Isso não é um país que falta formação, é um país que transborda formação.

“Nunca o treinador brasileiro estudou tanto. Nunca tivemos uma rede de ensino tão grande e acessível. Existe uma geração inteira que une a prática com a base de estudos, algo que poucos países no mundo têm.”

  • A base forma formadores — e estrangeiros quebram essa rede

Um ponto que quase ninguém vê é que as categorias de base não formam apenas jogadores. Elas formam treinadores. O coordenador de hoje é o diretor de amanhã. O treinador do sub-13 é o futuro técnico do profissional.

A base é a escola do treinador. Quando damos essas vagas para estrangeiros, cortamos a passagem de uma tradição profissional dentro de casa. Trazer gente de fora para a base não é só trocar um profissional por outro. É fechar a escola onde nossos brasileiros deveriam aprender. É destruir o caminho de carreira de milhares de pessoas que estão estudando em faculdades e cursos.

  • O problema da estrutura: bons profissionais fora, amadores dentro

Entre 2021 e 2025, o Brasileirão teve uma média de 21 demissões de técnicos por ano. Isso mostra a instabilidade do cargo e quanta gente boa fica rodando sem projeto. Sites como UOL e Goal.com mostram listas enormes de técnicos brasileiros de alto nível sem emprego — gente com licença máxima e títulos continentais. Ao mesmo tempo, vemos pessoas sem qualificação em cargos de chefia na base de clubes grandes. Em 2021, o portal Novo Momento avisou que 20% dos cargos técnicos na Série A eram de estrangeiros.

“Fica a pergunta: em um país com 213 milhões de pessoas e milhares de técnicos certificados, por que dizem que faltam formadores brasileiros?”

4.  O PONTO CRÍTICO: QUALIFICADOS FORA E SEM QUALIFICAÇÃO NO COMANDO

Este é o ponto mais importante. Falo isso por ter passado por todos os setores da base ao profissional. O Brasil tem formadores de elite. Gente que entende de ensino, psicologia e treino. Mas muitos estão em funções menores, enquanto as chefias são ocupadas por pessoas que não têm o preparo necessário. Estudos recentes confirmam isso.

Barros e Elias (2023) mostram que os clubes brasileiros ainda enfrentam problemas clássicos de gestão mesmo depois de tantos anos da Lei Pelé.

Citação Direta: “A pesquisa descreve os problemas clássicos de gestão de clubes de futebol e os desdobramentos financeiros e estratégicos das decisões e dos planos das diretorias dos clubes na expectativa de revelar como poderiam ser contornadas pautas como dívidas, departamentos, aportes financeiros e administrativos mediante a aplicação da Lei Pelé.” (p. 142)

Monteiro (2021) reforça que as administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos.

Citação Direta: “As mudanças na legislação do futebol brasileiro, mais especificamente no que diz respeito à Lei Pelé, elevaram o futebol brasileiro ao patamar de profissionalização de gestão, isso porque antes o futebol era movido pela simples paixão de seus diretores, torcedores e até jogadores. A gestão dos clubes não exigia a complexidade atual do acompanhamento fiscal, trabalhista e gestão de contratos. As administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos, sentidos até os dias atuais.” (p. 103)

Uma pesquisa da USP (2026), feita por Rocoo Júnior e Moraes, foi clara ao apontar a falta de transparência nos clubes brasileiros.

Citações Direta

1: “Apesar da importância econômica e cultural da modalidade, falhas de governança e transparência ainda permeiam a gestão dos clubes e geram consequências financeiras e esportivas.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

2: “Muitas equipes da Série D sequer possuem site oficial ou canais de contato.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

3: A política interna é apontada como um dos principais entraves à modernização da gestão dos clubes brasileiros.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

4: “Grande parte dos problemas organizacionais identificados no estudo está relacionada às disputas políticas, especialmente nos clubes associativos, onde diferentes grupos disputam o poder e as frequentes mudanças de gestão dificultam a continuidade dos projetos.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

5: “É comum que integrantes do próprio clube atuem contra a administração em exercício, comprometendo decisões estratégicas e atrasando processos de profissionalização.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)


A tese de Silva (2026) descreve uma gestão que se parece com um sistema feudal, onde o conhecimento é retido como fonte de poder. Há ainda o problema da valorização financeira que empurra o treinador a pular etapas: o salário baixo no sub-13 faz com que o técnico queira subir rápido para o sub-17 ou profissional antes de estar pronto, deixando a base menor sem especialistas.

Citações Direta

1: “Os clubes operam majoritariamente em níveis iniciais de maturidade, concentrados nos estágios de informação e conhecimento, ainda desconectados de uma estratégia institucional mais ampla.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

2: “O estudo identificou barreiras culturais severas, descritas por gestores como uma ‘gestão feudal’, na qual o conhecimento é retido como fonte de poder e o diálogo é evitado para não expor problemas internos.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

3: “Na arquitetura organizacional, detectou-se a ausência generalizada de planos de cargos, carreiras e remuneração e de critérios de sucessão. Essa fragilidade torna as agremiações vulneráveis a perdas cognitivas massivas sempre que ocorre uma troca de comissão técnica.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

4: “Os relatórios publicados pelos clubes são majoritariamente protocolares e não servem como ativos estratégicos de decisão.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

5: “A principal conclusão é que os clubes brasileiros não utilizam a gestão do conhecimento de maneira estruturada para gerar vantagem competitiva. E isso importa porque, em um futebol cada vez mais complexo e profissionalizado, vencer também depende da capacidade de aprender e preservar conhecimento para decidir melhor.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

“O problema não é a falta de gente boa. É que a gente boa não está onde deveria estar.”

5.  O PAPEL DO COORDENADOR E A DEFORMAÇÃO NA PRÁTICA

O coordenador técnico é quem une a ideia do clube com o treino no campo. Ele garante que o menino de 12 anos siga um caminho que faça sentido até os 20 anos, sem que o treino mude toda hora do jeito que cada treinador quer.

Quando esse chefe não é qualificado, o resultado é destruído: o plano de ensino vira apenas um papel com promessas e cada um faz o que quer. Pior ainda quando é um estrangeiro que não conhece nossa cultura: o jovem acaba sendo formado em uma lógica que não tem nada a ver com a sua identidade e com o futebol que ele vive.

6.  A CULTURA: A GINGA NÃO SE APRENDE EM CURSO

Estrangeiros, por melhores que sejam, não entendem que o futebol brasileiro é uma forma de cultura antes de ser um sistema tático. O drible no Brasil nasceu como forma de resistência. É algo que vem de dentro.

Pode-se aprender tática com um alemão ou um italiano. Mas não se aprende a formar um jogador brasileiro com quem não é daqui. Formar é passar uma tradição, e isso só acontece de quem conhece a nossa terra para quem vive nela.

7.  O DESABAFO DE QUEM VIVE O BRASIL

Muitos nomes de peso concordam com isso. Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho disseram em uma declaração conjunta:

“Eu não concordo e acho uma falta de respeito com os treinadores brasileiros que seja pensado a contratação de um treinador estrangeiro.”

Cuca e Rivaldo também já criticaram essa preferência, dizendo que é uma falta de consideração e de respeito com os profissionais do nosso país.

8.  APRENDER COM O MUNDO NÃO É SER SUBSTITUÍDO POR ELE

Aprender com outros países é importante e ajuda a crescer. Ver como os europeus trabalham é bom. O erro não é aprender, o erro é desistir de quem é daqui para colocar alguém de fora.

Aprender significa observar o que o outro faz e adaptar para o nosso jeito. Colocar um estrangeiro no lugar do brasileiro é desistir. É dizer, sem falar abertamente, que não confiamos na nossa capacidade de criar o nosso próprio caminho.

9.  UMA PROPOSTA QUE PROTEGE E POR QUE ELA FAZ SENTIDO

Proponho algo que pode parecer incômodo, mas que é sensato: a CBF deveria assumir o papel de guardiã da identidade do jogador brasileiro e exigir que qualquer profissional estrangeiro que queira atuar na nossa base passe pelas etapas de formação do sistema CBF.

Não se trata de fechar a porta. Trata-se de exigir o mesmo que outros países exigem de nós. Um treinador brasileiro que vai trabalhar na França precisa passar pelos ciclos de formação locais, adaptar-se à cultura, entender o contexto. Um brasileiro que vai para a Alemanha precisa cumprir as etapas da federação alemã. Por que seria diferente aqui?

O que proponho não é uma proibição agressiva. É uma exigência de equivalência: quem vem de fora precisa provar que entende o futebol brasileiro, que respeita a nossa cultura de formação, que passou pelos nossos ciclos de capacitação. A CBF Academy já tem estrutura para isso. Basta criar um caminho claro e obrigatório para o estrangeiro que quer atuar na base brasileira.

Isso não é xenofobia. É proteção da identidade. É o mesmo princípio que aplicam os países europeus com seus treinadores. Cada nação tem o direito e o dever de cuidar da formação dos seus jovens atletas como um patrimônio. E quando entregamos esse patrimônio a quem não passou pelo nosso processo, abrimos mão de algo que é nosso.

10. A IRONIA FINAL E O CHAMADO PARA AGIR

Existe uma ironia dura aqui. O Brasil é o maior celeiro de talentos do mundo. A Europa se alimenta do que produzimos. E nós vamos entregar a chave da nossa produção para os clientes?

A melhora do nosso futebol virá de dentro. Mas só se os brasileiros competentes tiverem espaço. Hoje, o profissional bom é deixado de lado e trocado por estrangeiros ou por pessoas com influência política.

O caminho é colocar os brasileiros certos nos lugares certos. Se continuarmos assim, teremos jogadores que parecem europeus, mas sem a nossa ousadia e alegria. Isso não é salvar o nosso futebol. É enterrá-lo com as nossas próprias mãos.

REFERÊNCIAS E FONTES

Falas de treinadores e jogadores:
  • Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho — declaração contra estrangeiros (2023).
    • Cuca — sobre técnicos “ultrapassados” e aumento de estrangeiros (2019/2025).
    • Leão e Oswaldo de Oliveira — críticas em evento com Ancelotti (2025).
    • Rivaldo — crítica na ESPN (2022).
Dados de população e mercado:
  • IBGE — 213 milhões de habitantes (2025).
    • Observatório do Futebol — Brasil como maior exportador (2025-2026).
    • Banco Central — ganhos de R$ 2,86 bilhões com vendas (2025).
    • ResearchGate — 6.648 jogadores vendidos em 6 anos.
Educação e trabalho:
  • CONFEF — 668 mil profissionais registrados.
    • CBF Academy — quase 5.000 técnicos com Licença PRO.
    • UFV/NUPEF — estudos e especialização em futebol.
    • Universidade do Futebol (UdoF) — ensino continuado.
    • SIBRAFF — Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal, organizado pelo NUPEDEFF/UFSC (2026).
Estudos sobre gestão e cultura:
  • USP (EEFE) — estudo sobre amadorismo na gestão (2026).
    • Barros, M. M.; Elias, F. A. C. — “A gestão de clubes e a profissionalização do futebol no Brasil”. Revista Administração de Empresas — UNICURITIBA, 2023.
    • Monteiro — “As administrações amadoras e o endividamento dos clubes” (2021).
    • Rocoo Júnior; Moraes — Pesquisa sobre falta de transparência nos clubes brasileiros. EEFE-USP, 2026.


Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (Sub 15, sub 16 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/

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