O Serviço Social na formação de atletas: o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) como instrumento de formação integral no futebol de base

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Por: Fernando Martillis

O futebol ocupa lugar significativo na sociedade brasileira, constituindo-se não apenas como prática esportiva, mas também como espaço de construção de identidades, pertencimento e expectativas de mobilidade social. Para milhares de crianças e adolescentes, a possibilidade de ingresso nas categorias de base de um clube representa a concretização de um projeto que envolve sonhos individuais e, frequentemente, expectativas de suas famílias.

Esse processo, entretanto, é atravessado por importantes contradições. Embora as categorias de base tenham como finalidade a formação de atletas, seus processos institucionais permanecem fortemente orientados pela lógica do alto rendimento. Jovens jogadores convivem desde cedo com avaliações constantes, competitividade, cobranças por desempenho e incertezas quanto à permanência nos clubes e à possibilidade de profissionalização.

Ao mesmo tempo, chegam às instituições trazendo consigo trajetórias sociais diversas. Dificuldades financeiras, fragilização de vínculos familiares, afastamento precoce da família, defasagem escolar, situações de violência, condições precárias de moradia e demandas relacionadas à saúde mental são alguns dos elementos que podem atravessar a experiência de formação esportiva.

Compreender essas dimensões significa reconhecer que a formação de um atleta não ocorre exclusivamente dentro do campo. Desenvolvimento esportivo e desenvolvimento humano constituem processos relacionados, tornando necessária uma concepção de formação que considere adolescentes e jovens atletas como sujeitos de direitos e pessoas em processo de desenvolvimento. É nesse contexto que se insere a atuação do Serviço Social nas categorias de base.

Serviço Social e formação integral no futebol

O Serviço Social enquanto profissão possui como campo de intervenção as diferentes expressões da questão social e, no ambiente esportivo, pode contribuir para identificar e acompanhar situações que ultrapassam a dimensão estritamente esportiva. A atuação envolve a aproximação com atletas e famílias, acompanhamento educacional e social, fortalecimento de vínculos, articulação com redes de proteção e participação em processos interdisciplinares.

Essa perspectiva encontra respaldo no princípio da proteção integral de crianças e adolescentes estabelecido pela legislação brasileira e nas próprias transformações recentes relacionadas à formação esportiva. A Lei Geral do Esporte e as exigências destinadas aos clubes formadores reforçam que a formação de atletas deve contemplar condições adequadas de desenvolvimento educacional, social, físico e psicológico.

Nesse sentido, a presença de diferentes áreas profissionais nas categorias de base não deve representar apenas uma ampliação quantitativa das equipes. A interdisciplinaridade pressupõe capacidade de produzir leituras complementares sobre o processo de desenvolvimento do atleta e de construir estratégias integradas de acompanhamento.

No âmbito das categorias de base do Ceará Sporting Club, esse processo ganhou maior estruturação a partir de 2019. Em 2021, houve o fortalecimento das áreas de Serviço Social e Psicologia com a incorporação de novos profissionais e, em 2025, a inclusão de profissional da Pedagogia. Essa configuração ampliou as possibilidades de acompanhamento dos atletas e contribuiu para consolidar uma perspectiva de formação que busca articular desempenho esportivo, proteção social e desenvolvimento humano.

Foi a partir dessa experiência profissional e das demandas identificadas no cotidiano institucional que surgiu o Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva (IVS).

A construção do IVS

A atuação cotidiana do Serviço Social permite reunir uma quantidade significativa de informações sobre a trajetória dos atletas. Entrevistas, atendimentos, contato com familiares, acompanhamento escolar e articulação com outros profissionais possibilitam identificar situações que podem representar riscos ou fatores de proteção durante o processo de formação.

O desafio estava em sistematizar essas informações.

No ambiente do futebol, caracterizado por grande circulação de informações e necessidade constante de tomada de decisões, registros fragmentados podem dificultar tanto o acompanhamento longitudinal dos atletas quanto a comunicação interdisciplinar.

O IVS foi desenvolvido como um instrumento técnico-metodológico destinado a auxiliar essa sistematização. Sua finalidade é identificar fatores de risco e proteção presentes na trajetória dos atletas, permitindo ao Serviço Social organizar informações, estabelecer prioridades de acompanhamento e construir estratégias de intervenção.

Sua utilização não substitui o estudo social, a entrevista ou a análise profissional. Pelo contrário, o índice é construído a partir desses procedimentos e somente adquire sentido quando interpretado dentro da realidade concreta de cada atleta.

Metodologicamente, sua construção decorreu da experiência profissional desenvolvida nas categorias de base do Ceará Sporting Club, da observação sistemática das demandas recorrentes e do acompanhamento das dimensões sociais, familiares, emocionais e educacionais presentes na trajetória dos jovens atletas.

A aplicação ocorre após estudo social realizado por meio de entrevista individual conduzida pelo assistente social. Nesse momento, são levantadas informações sobre a trajetória do atleta, suas relações familiares, condições socioeconômicas, experiência educacional, condições de moradia, histórico esportivo e outras questões relacionadas ao processo de formação.

As informações são posteriormente inseridas em formulário eletrônico e sistematizadas em planilha, permitindo a composição do índice e o acompanhamento das situações identificadas.

As sete dimensões do IVS

O Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva está organizado em sete eixos:

  1. condição inicial de alojamento;
  2. estudo e escolaridade;
  3. situação financeira familiar;
  4. participação e vínculos familiares;
  5. saúde e saúde mental;
  6. condições de moradia;
  7. formação de base.

Cada eixo reúne indicadores relacionados a situações específicas da trajetória do atleta.

Na condição de alojamento, são observados aspectos relacionados ao afastamento familiar, adaptação institucional e integração social. No campo educacional, consideram-se frequência, desempenho, possíveis defasagens e relação do jovem com sua trajetória escolar.

A situação financeira permite compreender aspectos socioeconômicos que podem afetar o atleta e sua família, enquanto o eixo referente aos vínculos familiares considera presença, acompanhamento e qualidade das relações estabelecidas.

Saúde e saúde mental abrangem elementos relacionados ao bem-estar emocional, possíveis situações de sofrimento psicológico e aspectos comportamentais identificados durante o acompanhamento. As condições de moradia permitem observar características estruturais e territoriais, incluindo situações de vulnerabilidade e exposição à violência.

Por fim, a formação de base considera a trajetória esportiva anterior, experiências em outros clubes e aspectos relacionados à adaptação e ao desenvolvimento esportivo.

Os indicadores recebem pontuações de acordo com fatores de risco e proteção identificados. Enquanto determinadas situações aumentam o índice de vulnerabilidade, fatores protetivos podem reduzi-lo. O resultado permite classificar a situação acompanhada em quatro níveis: sem risco, risco leve, risco moderado e risco grave.

Essa classificação não pretende rotular o atleta ou produzir qualquer avaliação sobre seu potencial esportivo. Sua finalidade é exclusivamente subsidiar o acompanhamento social, contribuindo para estabelecer prioridades e identificar situações que necessitam de maior atenção.

Da identificação à intervenção

A principal contribuição do IVS não está na produção de uma pontuação, mas na possibilidade de transformar informações sociais em estratégias de acompanhamento.

A identificação precoce de vulnerabilidades permite que determinadas situações sejam abordadas antes de seu agravamento. Dependendo das necessidades identificadas, podem ser construídas estratégias envolvendo aproximação com familiares, acompanhamento escolar, encaminhamentos para serviços, fortalecimento de vínculos ou articulação com outros profissionais da instituição.

O instrumento também favorece a comunicação interdisciplinar. Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, departamento médico, comissão técnica e gestão observam o atleta a partir de lugares profissionais distintos. A sistematização das informações sociais pode contribuir para que essas diferentes leituras dialoguem, respeitando os limites éticos e o sigilo das informações profissionais.

Outro aspecto relevante é a possibilidade de acompanhamento longitudinal. As condições sociais não são estáticas. Um atleta pode apresentar alterações importantes em sua realidade familiar, econômica, educacional ou emocional ao longo de sua permanência no clube. Por isso, o IVS não deve ser compreendido como fotografia definitiva da situação social, mas como instrumento inserido em um processo contínuo de acompanhamento.

Formação esportiva e desenvolvimento humano

A experiência de construção e aplicação do IVS reforça uma questão central: as condições de desenvolvimento esportivo não podem ser completamente dissociadas das condições sociais, familiares, educacionais e emocionais vivenciadas pelos atletas.

Um adolescente que deixa sua família para morar em um alojamento, por exemplo, não vivencia apenas uma mudança relacionada ao futebol. Ele passa por um processo de reorganização de vínculos, adaptação a uma nova rotina, construção de autonomia e convivência com expectativas sobre seu futuro.

Da mesma forma, dificuldades financeiras, defasagens educacionais, fragilidade dos vínculos familiares, exposição à violência ou sofrimento emocional não desaparecem quando o atleta entra em campo.

Reconhecer essas questões não significa estabelecer uma relação automática entre vulnerabilidade social e desempenho esportivo. Significa compreender que o atleta é um sujeito constituído por múltiplas dimensões e que um projeto de formação comprometido com o desenvolvimento humano precisa considerá-las.

É justamente nesse ponto que o Serviço Social pode oferecer uma contribuição específica ao futebol. Sua atuação permite inserir no processo institucional elementos relacionados às condições concretas de vida dos atletas, aos seus vínculos, à garantia de direitos e às redes sociais que os cercam.

O IVS constitui uma tentativa de transformar essa perspectiva em instrumento de trabalho.

Considerações finais

A formação de atletas no futebol brasileiro exige uma compreensão que ultrapasse a dimensão técnico-esportiva. Crianças, adolescentes e jovens inseridos nas categorias de base vivenciam simultaneamente processos esportivos, educacionais, familiares, sociais e emocionais que interferem em suas trajetórias.

Nesse contexto, o Serviço Social pode contribuir para a construção de práticas institucionais orientadas pela proteção social, fortalecimento de vínculos, promoção de direitos e acompanhamento das diferentes vulnerabilidades presentes no processo de formação.

A experiência de desenvolvimento do Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva demonstra a possibilidade de construir instrumentos específicos para a realidade do futebol, capazes de sistematizar informações, identificar precocemente situações de risco e subsidiar estratégias individualizadas de acompanhamento.

O IVS não deve ser compreendido como instrumento acabado. Trata-se de uma experiência construída em um contexto institucional específico, que necessita de avaliação contínua, aperfeiçoamento e futuras possibilidades de aplicação e validação em outras realidades esportivas.

Mais do que propor uma forma de mensurar vulnerabilidades, sua construção reafirma uma determinada concepção de formação.

Se o futebol dispõe atualmente de inúmeros instrumentos para avaliar o desenvolvimento físico, técnico, tático e esportivo de seus atletas, ampliar a capacidade de compreender suas condições sociais e humanas também deve fazer parte do processo formativo.

Uma formação esportiva comprometida com proteção integral e desenvolvimento humano demanda práticas institucionais interdisciplinares capazes de reconhecer adolescentes e jovens atletas como sujeitos de direitos em processo de formação social, educacional e humana.

Leia o artigo na integra aqui: https://docs.google.com/document/d/1FY9jSqoGKwBANzB1FG_3620yLQRCznlc/edit

Fernando Martillis Assistente Social no Ceará Sporting Club. Mestre em Serviço Social (UECE). Pós-graduado em Didática do Ensino Superior e em Juventude no Mundo Contemporâneo. Graduado em Serviço Social pela UECE.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/fernandomartilis/

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on pinterest

Deixe o seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais conteúdo valioso