Quando o sonho de vencer começa a destruir quem sonha

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Por: Tiago Corradine

Há uma pergunta que precisamos fazer com mais coragem: o que estamos fazendo com as crianças e os jovens em nome do esporte?

Os dois conteúdos que motivam esta reflexão expõem faces diferentes de um mesmo problema. De um lado, adultos que, nas arquibancadas, insultam, ameaçam, pressionam e transformam uma partida de futebol infantil em uma espécie de arena de sobrevivência emocional. De outro, treinadores e responsáveis que confundem autoridade com humilhação, disciplina com violência verbal e exigência com constrangimento.

Em ambos os casos, há uma criança ou um adolescente no centro, justamente quem deveria estar sendo protegido.

É preciso dizer o óbvio, embora o óbvio pareça cada vez mais esquecido: um treinador pode cobrar. Pode corrigir. Pode exigir compromisso, respeito, disciplina e concentração. Mas nenhum adulto, em hipótese alguma, tem o direito de humilhar uma criança para produzir desempenho. Gritos, xingamentos, ameaças e constrangimentos não são métodos de formação. São abusos de poder frequentemente disfarçados de “jeito de treinar”, “preparação para a vida” ou “necessidade de formar atletas fortes”.

Também não é aceitável que pais e outros adultos se comportem como se o resultado de uma partida justificasse qualquer atitude. Quando um responsável agride verbalmente um árbitro, hostiliza um adversário, ofende um treinador ou transforma o próprio filho em instrumento de sua frustração, não demonstra amor e respeito ao próximo, muito menos pelo esporte. Está ensinando que vencer, a qualquer custo, vale mais do que os processos de formação e aprendizados da vida.

E, quando ninguém intervém, o silêncio passa a funcionar como autorização.

A discussão sobre um cartão preto para afastar pais violentos pode ser importante por colocar o tema em evidência. Mas talvez o problema seja maior do que a cor de um cartão. Precisamos discutir quem educa, quem fiscaliza, quem denuncia e quem assume a responsabilidade de interromper comportamentos inadequados. Também precisamos compreender que a proteção das crianças não pode depender apenas da coragem ocasional de alguém. Ela deve fazer parte da cultura, das regras e das práticas de cada clube, escola, competição e família.

O esporte de formação não é uma versão reduzida do esporte profissional. Não é um mercado em miniatura. Não é uma vitrine para que adultos realizem seus sonhos interrompidos, conquistem prestígio ou obtenham retorno financeiro por meio do talento e do esforço de uma criança, ainda em processo de formação.

Ainda assim, muitas vezes é exatamente isso que acontece. A criança deixa de ser vista como criança e passa a ser tratada como promessa, ativo, investimento ou oportunidade. Seu corpo é controlado, sua rotina é ocupada, seus erros são expostos e suas emoções são ignoradas. Tudo em nome da performance e da rentabilidade que ela poderá proporcionar, se um dia chegar a ser um “jogador de futebol de sucesso”.

Mas o que é sucesso?

É chegar ao futebol profissional? É assinar um contrato? É ganhar dinheiro, títulos e visibilidade? É ser reconhecido por empresários, agentes, clubes e torcedores? Essas conquistas podem fazer parte de uma trajetória bem-sucedida, mas não deveriam ser o seu único critério.

Sucesso também deveria significar crescer com saúde, aprender a lidar com a frustração, construir autonomia, desenvolver responsabilidade, conviver com as diferenças e preservar a capacidade de sonhar sem ser destruído pela cobrança. Deveria significar tornar-se um adulto inteiro e não apenas um atleta rentável.

Porque pode haver uma carreira vitoriosa construída sobre uma infância adoecida. Pode haver um jogador tecnicamente excelente, mas emocionalmente fragilizado. Pode haver medalhas, contratos e troféus onde deveriam existir respeito, segurança e vínculos de confiança.

Nenhuma carreira esportiva compensa a perda da dignidade.

Nenhum resultado justifica o medo permanente de errar. Nenhuma promessa de futuro autoriza a violência no presente. E nenhum talento transforma uma criança em propriedade de quem a acompanha, treina, agencia ou sustenta.

O caminho para formar um jogador de futebol de sucesso não passa pela permissividade, mas tampouco passa pelo abuso. Passa por ambientes seguros, profissionais preparados, limites claros, comunicação respeitosa, acompanhamento psicológico, participação responsável da família e uma compreensão adequada do desenvolvimento infantil e juvenil. Passa, sobretudo, pela capacidade de reconhecer que cada fase da vida tem seu tempo e que acelerar a infância em nome de uma carreira pode significar comprometer justamente o futuro que se pretende alcançar.

É necessário proteger as crianças também daqueles que dizem agir “pelo bem delas”. Muitas violências chegam acompanhadas de boas intenções. O pai que afirma estar apenas cobrando. O treinador que diz estar preparando o jovem para o mundo. O empresário que justifica a pressão como parte do negócio. O dirigente que prefere não criar problemas. O espectador que vê, ouve e permanece calado.

A responsabilidade é coletiva, mas não é abstrata. Cada adulto precisa perguntar qual é o seu papel quando uma criança é ofendida, exposta ou submetida a uma pressão desproporcional. Quem presencia e não reage ajuda a normalizar. Quem normaliza ajuda a perpetuar. E quem perpetua participa da construção do ambiente em que essas crianças estão crescendo.

Que sociedade estamos construindo para as próximas gerações?

Uma sociedade em que a competência vale mais do que o caráter? Em que o resultado absolve a violência? Em que crianças são estimuladas a suportar tudo para provar que merecem uma oportunidade? Em que o fracasso é tratado como vergonha e o adulto se sente autorizado a ferir porque acredita estar investindo?

Ou uma sociedade capaz de compreender que formar pessoas é mais importante do que fabricar vencedores?

O esporte tem uma força educativa extraordinária. Pode ensinar disciplina, cooperação, persistência, respeito e responsabilidade. Pode ajudar uma criança a conhecer seus limites, superar dificuldades e descobrir possibilidades. Mas isso só acontece quando os adultos entendem que o principal objetivo não é controlar o sonho da criança e sim cuidar para que ela possa vivê-lo com liberdade, segurança e dignidade.

Antes de perguntar quantos gols um jovem marcou, deveríamos perguntar como ele está sendo tratado. Antes de avaliar seu potencial de mercado, deveríamos saber se ele está feliz, protegido e aprendendo. Antes de celebrar o atleta que ele pode se tornar, deveríamos nos comprometer com o ser humano que ele já é.

No fim, talvez a medida mais importante do sucesso não esteja no número de contratos assinados, mas na pessoa que permanece quando as luzes se apagam, os jogos terminam e os aplausos cessam.

Que ela seja capaz de olhar para a própria história sem precisar justificar as feridas como preço da vitória.

Porque formar um jogador pode ser uma conquista. Formar um ser humano, entretanto, é uma responsabilidade muito maior.

E nenhuma sociedade deveria aceitar que uma criança precise perder a infância para provar que merece vencer.

O JOGO É OUTRO!

Fontes que motivaram essa reflexão:

– Reel do perfil @vamoq.vamo no Instagram: https://www.instagram.com/reel/DdMzMdgTWA9/

– “Cartão preto para os pais? Talvez. Mas não é por aí que passa a solução”, de Vitor Santos  “Educar o sonho”: https://lnkd.in/p/dYzGwf6M

Tiago Corradine é Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884

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