O futebol das relações: a vantagem socioafetiva em um jogo cada vez mais móvel

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Por: Nicolau Trevisani

Nos últimos anos, o debate sobre o jogo passou a utilizar com cada vez mais frequência o conceito de vantagem. Busca-se criar superioridade numérica, posicionar melhor os jogadores, encontrar vantagens qualitativas, explorar vantagens cinéticas e organizar espaços de maneira que a equipe possa progredir e controlar o adversário. Esse avanço na compreensão do futebol é importante. Quanto mais conseguimos nomear e interpretar aquilo que acontece no campo, mais ferramentas oferecemos ao treinador e aos próprios jogadores.

Entretanto, entre tantas formas de vantagem discutidas, existe uma que talvez seja menos visível no quadro tático e, justamente por isso, por vezes subestimada: a vantagem socioafetiva.

Ela nasce da relação. Do jogador que conhece o tempo do companheiro. Do atacante que inicia um movimento porque reconhece, antes mesmo do passe, a intenção de quem conduz a bola. Do meio-campista que ocupa determinado espaço sabendo que outro jogador interpretará sua movimentação. Da cobertura realizada não apenas porque aquele comportamento estava previsto pelo modelo, mas porque existe uma compreensão compartilhada sobre como aquele grupo joga.

É o futebol construído também a partir da familiaridade.

Em um momento em que se discute muito a ocupação racional dos espaços e a criação de vantagens posicionais, talvez seja necessário recordar que o jogo não acontece entre peças. Acontece entre pessoas. E pessoas constroem relações, reconhecem padrões umas nas outras, desenvolvem confiança e acumulam experiências compartilhadas.

Isso não significa diminuir a importância da estrutura. Tampouco significa estabelecer uma oposição simplista entre um futebol posicional e um futebol relacional. A estrutura continua sendo fundamental para oferecer referências, organizar comportamentos e aumentar a probabilidade de determinadas situações aparecerem. O ponto é outro: nenhuma estrutura consegue antecipar todas as respostas exigidas por um jogo essencialmente imprevisível.

É justamente nesse espaço entre aquilo que foi organizado pelo treinador e aquilo que precisa ser resolvido pelos jogadores que a vantagem socioafetiva ganha força.

Dois atletas que acumularam experiências juntos desenvolvem uma espécie de repertório compartilhado. Reconhecem velocidades, preferências, intenções e até pequenos sinais corporais. Sabem quando determinado companheiro prefere receber no pé ou atacar a profundidade; quando uma condução provavelmente terminará em passe; quando uma aproximação significa apoio ou quando significa arrastar um adversário para liberar outro espaço.

Essa informação não aparece necessariamente no desenho tático, mas interfere diretamente na velocidade e na qualidade das decisões.

E talvez essa dimensão esteja ganhando ainda mais importância porque o futebol contemporâneo parece caminhar para estruturas cada vez mais móveis. Trocas de posição, perseguições individuais, rotações, conduções que rompem linhas, ataques constantes ao espaço e referências defensivas menos estáticas fazem com que o cenário mude em poucos segundos.

Quanto menos estática é a ocupação dos espaços, maior é a necessidade de os jogadores compreenderem não apenas onde deveriam estar, mas também o que os outros provavelmente farão.

Nesse contexto, conhecer o companheiro passa a ser uma vantagem competitiva.

O passe já não depende somente de enxergar um espaço. Depende, muitas vezes, de acreditar que o companheiro também o enxergou. Uma ruptura pode acontecer não porque alguém recebeu uma instrução específica para realizá-la naquele instante, mas porque dois jogadores reconheceram simultaneamente uma possibilidade. A ação coletiva nasce, então, de uma leitura compartilhada.

É por isso que, em determinados momentos, o entrosamento consegue compensar até mesmo uma aparente desvantagem estrutural. Uma equipe pode não ocupar determinado espaço da maneira considerada ideal e ainda assim encontrar uma solução porque seus jogadores conseguem reorganizar a situação por meio das relações. Da mesma forma, uma equipe pode estar perfeitamente distribuída no campo e encontrar dificuldades se os atletas ocuparem posições corretas, mas não conseguirem jogar uns com os outros.

Talvez exista aqui uma distinção importante: o posicionamento organiza possibilidades; a relação transforma possibilidades em ações.

Isso também ajuda a explicar por que algumas associações entre jogadores parecem sobreviver a mudanças de sistema, treinador ou posição. Existem duplas, trios e pequenos núcleos de jogadores que encontram soluções com uma naturalidade difícil de reproduzir apenas por meio da prescrição. Não se trata de algo místico. Trata-se de informação acumulada pela convivência dentro do próprio jogo.

Para o treinador, essa discussão traz um desafio interessante. Se a vantagem socioafetiva nasce do conhecimento entre os indivíduos, como desenvolver relações sem transformar essas relações em movimentos previamente determinados?

Talvez a resposta esteja menos em ensinar sequências e mais em criar contextos. Colocar jogadores diante de problemas que precisem resolver juntos. Permitir que determinadas associações acumulem experiências. Organizar tarefas que preservem liberdade de decisão e, ao mesmo tempo, aproximem atletas cujas características possam se potencializar mutuamente.

Nesse sentido, treinar uma equipe não é somente distribuir funções. É também favorecer conexões.

Isso tem implicações inclusive na montagem de elenco. Nem sempre reunir individualmente os melhores jogadores disponíveis produz a melhor equipe possível. Características precisam conversar. Tempos precisam se encontrar. Jogadores precisam reconhecer no comportamento do outro possibilidades para manifestar as próprias virtudes.

A vantagem socioafetiva, portanto, não deve ser entendida como substituta das vantagens numérica, posicional, qualitativa ou cinética. Elas podem coexistir e se potencializar. Uma boa estrutura pode aproximar jogadores que se entendem; uma relação consolidada pode permitir que uma vantagem posicional seja percebida e explorada mais rapidamente; uma superioridade qualitativa pode se tornar ainda mais relevante quando o jogador que recebe a bola sabe antecipadamente como seu companheiro reagirá à jogada.

O erro talvez esteja em acreditar que organizar melhor o espaço torna menos importante organizar – ou permitir que se organizem – as relações.

Em um futebol cada vez mais móvel, no qual posições são frequentemente pontos de partida e não destinos permanentes, o conhecimento mútuo tende a adquirir ainda mais valor. Quando o cenário muda constantemente, a equipe precisa de referências. E algumas das referências mais poderosas podem estar justamente nos próprios companheiros.

O modelo de jogo continua tendo enorme importância. Os princípios continuam funcionando como uma linguagem comum. A organização posicional continua oferecendo referências fundamentais. Mas nenhuma dessas ferramentas deveria retirar do futebol aquilo que talvez seja uma de suas características mais fascinantes: são pessoas tentando resolver problemas junto com outras pessoas.

E, em um jogo cada vez mais móvel, talvez conhecer profundamente quem joga ao seu lado seja uma vantagem cada vez mais difícil de neutralizar.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on pinterest

Deixe o seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais conteúdo valioso