Por: Nicolau Trevisani
Quando falamos sobre a formação de um atleta, normalmente pensamos no treinador, no clube, na metodologia de treinamento, na preparação física e, cada vez mais, no acompanhamento psicológico. Existe, porém, um personagem que acompanha praticamente todas as etapas desse processo e que muitas vezes assume uma responsabilidade enorme sem ter recebido qualquer preparação para isso: a família.
Ser pai ou mãe de um atleta não é simples. Principalmente no futebol, em que o sonho de chegar ao alto rendimento começa cada vez mais cedo e convive com avaliações constantes, competição por espaço, mudanças de clube, agentes, expectativas financeiras e uma enorme incerteza sobre o futuro. Muitas famílias entram nesse ambiente tentando fazer o melhor possível pelos filhos, mas sem necessariamente compreender o impacto que suas próprias atitudes podem exercer sobre eles.
Esse impacto não deve ser subestimado. A literatura sobre esporte de formação coloca os pais entre os principais agentes de socialização esportiva dos jovens, ao lado de treinadores e companheiros. A maneira como apoiam, cobram, conversam e interpretam a experiência esportiva pode influenciar aspectos como motivação, percepção de competência, ansiedade, autonomia e permanência no esporte. Por isso, talvez seja importante mudarmos a pergunta. Em vez de discutirmos apenas se os pais devem ou não participar da carreira dos filhos, deveríamos discutir como prepará-los para participar melhor.
Na prática, pequenas atitudes podem produzir efeitos importantes. Basta pensar no trajeto de volta para casa depois de uma partida. O jogador entra no carro e escuta: “Por que você não jogou?”, “Por que o treinador te tirou?”, “Você é melhor que aquele menino”, “Você precisava ter feito aquele gol” ou “Vou conversar com o treinador”. Na maioria das vezes, essas frases não surgem de uma intenção ruim. Surgem justamente do desejo de proteger, ajudar ou incentivar. O problema é que boa intenção não significa necessariamente bom impacto.
Um pai que tenta resolver todos os problemas pode, sem perceber, dificultar o desenvolvimento da autonomia do filho. Um pai ou uma mãe que constantemente responsabiliza o treinador pode contribuir para uma interpretação na qual os problemas estão sempre nos outros. Da mesma maneira, uma cobrança excessiva por desempenho pode fazer com que o jovem passe a associar o reconhecimento familiar àquilo que entrega dentro de campo.
Isso não significa defender pais distantes ou indiferentes. Muito pelo contrário. A participação familiar pode ser extremamente positiva e, em muitos momentos, decisiva. O desafio está em encontrar uma forma de presença que ofereça segurança sem retirar autonomia, que acolha sem eliminar responsabilidade e que incentive sem transformar cada treinamento ou partida em uma prestação de contas.
É justamente nesse ponto que conhecimento e preparação podem fazer diferença. E essa orientação não precisa acontecer de uma única maneira. Ela pode vir do contato com profissionais preparados para compreender as particularidades do desenvolvimento esportivo, como psicólogos e outros profissionais envolvidos na formação, mas também pode nascer da busca dos próprios pais por conhecimento, informação de qualidade e maior compreensão sobre o ambiente no qual seus filhos estão inseridos.
Compreender as etapas da formação, conhecer os limites de atuação da família, entender melhor a relação com treinadores, clubes e agentes e buscar conhecimento sobre os aspectos emocionais envolvidos na competição pode modificar significativamente a maneira como os pais participam dessa trajetória.
Em muitos casos, não é a falta de interesse que produz uma intervenção inadequada. Pode acontecer justamente o contrário. Existe envolvimento, amor, investimento de tempo e desejo genuíno de ajudar, mas nem sempre existem referências suficientes para saber qual é a melhor forma de fazê-lo. Buscar conhecimento e, quando necessário, a orientação de profissionais capacitados pode ajudar a transformar uma intenção positiva em uma influência efetivamente positiva.
Existe ainda uma questão particularmente delicada no futebol de formação. Conforme o filho avança, a família também passa a investir naquela trajetória. São horas de deslocamento, finais de semana, viagens, recursos financeiros, mudanças de rotina e inúmeras renúncias. Naturalmente, os pais também criam expectativas e passam a participar emocionalmente daquele projeto. O risco aparece quando o sonho do filho, pouco a pouco, passa a representar também uma necessidade de realização dos próprios pais.
Nesse momento, uma pergunta aparentemente simples pode ser extremamente importante: de quem é esse sonho?
O atleta precisa perceber que sua relação com a família não depende de ser titular, ser convocado, marcar gols, assinar um contrato ou chegar ao futebol profissional. Isso não significa diminuir a ambição ou deixar de cobrar responsabilidade e comprometimento. Pelo contrário. Uma base familiar segura pode permitir que o jovem enfrente com mais recursos um ambiente que naturalmente já apresenta pressão, competição e incerteza.
Ao longo da minha experiência trabalhando no futebol e também a partir da Psicologia, tenho cada vez mais a percepção de que não podemos pensar o desenvolvimento de um jogador de maneira isolada. O comportamento de um atleta também é construído nas relações que estabelece e nos ambientes dos quais participa. O clube é um deles. A família é outro — e provavelmente um dos mais permanentes.
Por isso, clubes, profissionais e famílias poderiam tratar a preparação dos pais como parte do próprio processo formativo. Conversas sobre expectativas, autonomia, comunicação, relação com treinadores e agentes, desenvolvimento psicológico e diferentes etapas da carreira podem evitar problemas que, muitas vezes, surgem não pela falta de amor ou comprometimento dos pais, mas simplesmente pela ausência de referências sobre como agir.
Não existe pai ou mãe perfeito, assim como não existe treinador perfeito ou processo de formação sem erros. Também não existe um manual capaz de determinar o comportamento correto para todas as situações. Existe, entretanto, conhecimento disponível, profissionais preparados e experiências que podem ajudar as famílias a compreender melhor o papel que ocupam.
Se dedicamos tanto tempo a preparar o atleta para aquilo que ele encontrará no futebol, talvez seja coerente também preparar aqueles que caminharão ao lado dele. Ser pai ou mãe de atleta não exige saber tudo sobre futebol. Exige reconhecer a importância que esse papel possui na trajetória de um filho e estar disposto a buscar conhecimento para exercê-lo cada vez melhor. Orientar e preparar os pais também é uma forma de cuidar da formação do atleta. Em uma carreira na qual treinadores, clubes, companheiros e agentes podem mudar inúmeras vezes, poucas influências serão tão duradouras quanto a família.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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