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01/10/2018

Choque de realidade

O Campeonato Brasileiro de 2018 é um dos mais emocionantes da história. A 11 rodadas do término, há apenas quatro pontos entre o Palmeiras, que assumiu no último domingo (30/09) a liderança do certame, e o Flamengo, quarto colocado. No entanto, não é a competitividade o assunto na principal competição do esporte mais popular do país. O que chama mais atenção na atual temporada é que ela tem sido um retrato fiel (e fielmente preocupante) de algumas questões fundamentais sobre o atual momento do futebol no país.

A recente mudança no comando técnico do Palmeiras, que trocou Roger Machado por Luiz Felipe Scolari, foi uma senha para o time alviverde abraçar o jogo reativo, o que ganhou ainda mais força com o uso de formações alternativas no Campeonato Brasileiro. Os paulistas preservam titulares na principal competição do país, apostam em um repertório pobre – o que é reforçado pela ausência de seus grandes nomes – e vencem. Cria-se então um ciclo reforçado pelos resultados.

Internacional e São Paulo, outros times de jogo reativo e que usam passes longos para quebrar linhas, completam o pódio atual do Campeonato Brasileiro. E o Flamengo, dono de um dos maiores orçamentos do país, viveu durante grande parte da temporada um conflito justamente pela personalidade de seu jogo. O potencial financeiro carrega consigo uma pressão por ser propositivo e dominante, coisas que os rubro-negros não têm conseguido de forma linear.

O Campeonato Brasileiro – e isso não é de hoje – é uma competição de quem não quer a bola. O Corinthians campeão de 2017 já havia sido um grande exemplo de time com repertório pobre, caracterizado pelo jogo reativo e pela falta de domínio de suas partidas.

Há ainda o elemento Grêmio. Campeão da Libertadores em 2017, o time gaúcho notabilizou-se por uma clara definição de prioridades. Sempre que houve sobreposição de calendário ou dificuldade para administrar o elenco, o técnico Renato Gaúcho tirou titulares do Campeonato Brasileiro.

A principal competição do futebol nacional, portanto, é um evento em que os principais times têm outras prioridades, o calendário é canibalizado pela própria organizadora (a CBF tira sobrepõe partidas da seleção e do Brasileiro, afinal) e não há qualquer discussão sobre o modelo de jogo vigente. Mais do que isso, rodada após rodada, o assunto no país do futebol segue sendo a extensa coleção de erros dos árbitros e auxiliares.

Existe uma crise de ideias no futebol brasileiro, e um reflexo disso é a participação que os jogadores nascidos no país têm em outros ambientes. Na Liga dos Campeões da Uefa, por exemplo, a maior parte dos representantes dos pentacampeões mundiais atua em posições lineares. O contingente em funções de criatividade é exponencialmente menor.

Isso ficou claro nas semifinais da Copa do Brasil, por exemplo. Assistir aos jogos entre Palmeiras e Cruzeiro e Corinthians e Flamengo horas depois de partidas da Liga dos Campeões é suficiente para mostrar como o futebol no Brasil é mais lento e menos propositivo, o que acaba refletindo também na formação de atletas.

O futebol brasileiro precisa de discussões que aprofundem temas. Precisa de debates que não se limitem à participação dos árbitros ou ao clubismo. Precisa de um olhar que seja verdadeiramente interessado e que considere o choque de realidade promovido pela comparação com o que acontece na Europa.

A questão é: quem tem interesse nisso?

 

Comentários

  1. Alexandre Chemello disse:

    Guilherme, tua opinião está descontextualizada quando faz comparativo entre Liga de Campeões e Copa do Brasil (Brasileirão também). Os times que apresentam modelo de futebol de posse de bola são poucos até na Liga de Campeões. As que tem essa qualidade são equipes “top” em nível de atletas, os mais caros do mundo. Outra coisa, os programas de televisão de canais como ESPN e Sportv já fazem comentários sobre isso que você destaca como sendo caracteristicas das equipes, modelos de jogos etc. É exagero dizer que não dão atenção para isso. Os clubes série A e B, recém estão entendendo que a formação dos atletas devem tem um viés mais moderno, de periodizações (táticas, de jogo). Então, é preciso também tempo para os resultados aparecerem. Abraço

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