Universidade do Futebol

Colunas

26/07/2016

Convicção

São etapas fundamentais no processo de comunicação, e o futebol é apenas um exemplo escancarado disso

Vanderlei Luxemburgo era o técnico do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro de 2015. Reformulou o elenco, mudou a forma de a equipe jogar, perdeu seis partidas seguidas e foi demitido. Mano Menezes assumiu, terminou o torneio nacional e começou a pensar no que seria do time mineiro para a temporada 2016. Antes disso, porém, preferiu trocar a Toca da Raposa pelo futebol chinês. Deivid foi a aposta da diretoria para esta temporada, mas não resistiu a um início claudicante e à eliminação no Estadual. Foi substituído pelo português Paulo Bento, outra novidade promovida pela cúpula celeste, que chegou perto do início do Nacional e comandou outra revisão no grupo de atletas. Afundado na penúltima posição e na zona de rebaixamento, contudo, o Cruzeiro demitiu seu quarto treinador em um ano. Fazer futebol, assim como fazer comunicação, é praticamente impossível se não houver convicção.

É totalmente contraditório o Cruzeiro, time que fez duas apostas em treinadores na temporada 2016, ter demitido Deivid e Paulo Bento antes que essas novidades tivessem tempo para provar qualidades ou espaço para desenvolver suas ideias. O técnico ideal da diretoria no início do ano não resistiu a uma campanha ruim no Mineiro, e a melhor opção para o atual cenário caiu antes de completar sequer um turno no Brasileiro.

Entre Luxemburgo, Mano, Deivid e Paulo Bento, o Cruzeiro buscou quatro perfis diferentes e quatro visões diferentes de futebol. Mais do que isso, jogou um peso a seus cofres por ter interrompido precocemente os trabalhos – o português receberá até o fim de 2017, por exemplo, e vários atletas contratados nessas gestões mudaram de status no clube durante essas transições.

O Cruzeiro não deu apenas demonstrações de que dá pouca estabilidade a seus técnicos. Com tantas mudanças, escancarou incertezas sobre seu próprio elenco e reconheceu ter feito apostas erradas em contratações ou escalações. O que fica para o torcedor, depois de tudo isso, é um enorme ponto de interrogação sobre as próximas medidas da diretoria celeste. Como confiar em alguém que não confia no próprio trabalho?

Não existe sucesso sem convicção. E não existe convicção se não houver clareza de objetivos e processos. São etapas fundamentais no processo de comunicação, e o futebol é apenas um exemplo escancarado disso.

Quando o Campeonato Brasileiro começa, por exemplo, há 20 times dizendo que sonham com o título. Cinco ou dez rodadas depois, mais da metade ainda fala em condição de taça ou em vencer todos os próximos rivais. No discurso, a verdade é que nos acostumamos com um futebol de enganação e de ilusões.

É assim que construímos falsos craques, falsas verdades e falsas expectativas. É assim também que buscamos culpados quando essas pretensões não são atingidas. Paulo Bento virou culpado por um desempenho negativo do Cruzeiro, mas o que a diretoria esperava de um elenco que foi remodelado com o Brasileiro em curso? Qual era o objetivo do clube para o atual estágio da competição e quanto o português ficou devendo em relação a isso?

Não defendo aqui que alguém cometa sincericídios e faça qualquer tipo de propaganda negativa sobre seu clube. Não defendo aqui que os clubes esvaziem seus jogos, diminuam o sonho de seus torcedores ou desrespeitem o nível de suas tradições.

Defendo, isso sim, que os clubes entendam que futebol se faz com processos. Que não há sucesso no esporte que seja unicamente baseado em imediatismo e mudanças abruptas de direção. É preciso definir um caminho, planejar um tempo para percorrê-lo e fazer cobranças paulatinas de acordo com a relação entre rendimento e meta.

Comunicação também se faz assim. Que tipo de futebol você deseja para seu time? Quais são os processos até que esse nível seja alcançado? Quanto tempo isso demora? Como você vai comunicar isso aos torcedores sem esvaziar jogos no caminho ou reduzir o interesse do público pelo produto?

É por isso que a comunicação no esporte não pode viver apenas de resultados. Não há como vender apenas vitórias ou derrotas, ou essa relação com os resultados vai criar um cenário incerto para todo o trabalho. Comunicação no esporte precisa contar histórias, humanizar, e esse é um trabalho que deve permear a vida de todos que trabalham no segmento.

Pode ser difícil sonhar com médio ou longo prazo num ambiente de tanta pressão e de tanto escrutínio público quanto o futebol brasileiro. Enquanto o cenário for esse, porém, não adianta termos qualquer tipo de surpresa com mudanças como as demissões de técnicos. Enquanto faltar convicção eles vão seguir sofrendo.

Comentários

  1. Daniel disse:

    Mesmo com os erros da direção no planejamento para 2015, o trabalho do Marcelo Oliveira não caminhava bem naquele ano. A demissão do técnico mineiro, aparentemente injusta, talvez tenha sido pautada na convicção de que seus métodos de treinamento não estavam de acordo com o que se costuma ver no futebol da atualidade, conforme muitos acabaram atestando após sua passagem pelo Palmeiras.

    Luxemburgo foi convicção do presidente quando o futebol do clube ainda estava à deriva desde a saída de Alexandre Mattos. O presidente Gilvan sempre disse abertamente que sonhava com a volta do técnico campeão da Tríplice Coroa. Não demorou a se mostrar um equívoco. Certas determinações do Luxa encontraram resistência no elenco e não se via evolução no time, pelo contrário, sobretudo no mês que culminou com sua demissão, após cinco derrotas e um empate. Marinho e Uillian Correia, os dois contratados por indicação daquela comissão técnica, perderam espaço e foram emprestados na transição para 2016.

    Imediatamente após a saída de Luxemburgo, finalmente o Cruzeiro reestruturou seu departamento de futebol, promovendo o diretor da base Bruno Vicintin a braço direito de Gilvan e contratando Thiago Scuro para diretor de futebol.

    A opção por Mano Menezes era óbvia diante de suas credenciais, mas o trabalho foi interrompido no fim da temporada por decisão do próprio profissional, sem culpa da diretoria. Aí sim começa a falta de convicção. Com dificuldades financeiras e sem confiança nos técnicos disponíveis, optaram pela promoção do Deivid, auxiliar fixo do Cruzeiro e responsável por definir o time que fez campanha de recuperação no returno do Brasileirão – para quem não se lembra, Deivid comandou interinamente após a saída de Luxemburgo e fez várias alterações na equipe, praticamente todas mantidas por Mano até o final do ano.

    O discurso era de que Deivid representava continuidade ao trabalho deixado por Mano Menezes. Contudo, desde os primeiros momentos de 2016 ficou claro que o novo técnico pretendia alterar profundamente o padrão da equipe, jogando com linha de defesa alta e muito mais posse de bola. O time não teve bom desempenho, apesar de bons resultados na primeira fase do estadual, e como o principal argumento a favor do Deivid (continuidade ao Mano) não tinha sido concretizado, acabaram optando por nova troca.

    Que Paulo Bento não foi uma escolha convicta sempre esteve bastante claro. Antes dele, três tentativas frustradas se tornaram públicas (Seedorf, Jorginho e Ricardo Gomes). Foram mais de duas semanas sem técnico, perdendo tempo precioso para trabalhar o time antes do começo do Brasileirão.

    Apesar dos problemas de planejamento, sobretudo a montagem do elenco no meio da temporada (foram nove contratações após o estadual), a expectativa era de que hoje o time estivesse pelo menos em posição intermediária na classificação. Próximo do final do primeiro turno, estar em penúltimo com apenas uma vitória em casa é muito abaixo do esperado mesmo considerando todos os pormenores. Por isso considero que a demissão foi aceitável, sobretudo com a clara perspectiva do retorno de Mano Menezes, o que acabou se confirmando.

    Diante dos fatos e da limitação de informações que temos acesso, me parece que os dois principais erros da direção do Cruzeiro em 2016 foram:
    1. Promover o Deivid sob a bandeira de “sucessor do Mano” sem ter verificado que na verdade os dois possuem ideias diferentes sobre comportamentos fundamentais do time. Se a intenção era dar liberdade para mudança de conceitos, talvez tivesse sido mais interessante optar por alguém com currículo mais confiável.
    2. Oferecer contrato longo a um técnico escolhido sem convicção. O Cruzeiro deve ter grande prejuízo com a rescisão do Paulo Bento, sendo que era consideravelmente previsível que seria demitido no meio do caminho

    Não considerei a reformulação do elenco no meio da temporada como um erro, pois aparentemente estava prevista desde o início como parte do processo de reestruturação financeira do departamento de futebol, portanto foi um mal necessário.

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