Universidade do Futebol

Colunas

26/01/2018

Entre o Direito, o seu clube e o atleta depois da base

Especial Copinha 2018 – Parte 04

Bem-vindos ao fechamento do Especial Copinha 2018 sobre o futebol de base aqui no nosso “Entre o Direito e o Esporte”. Hoje vamos conversar um pouco sobre mais uma maneira que o seu clube tem para ter um retorno quando investe na formação de um jogador: o “eu voltei” do futebol de base. Vamos começar com um resumo desse mês para chegar na origem do “mecanismo de solidariedade” até explicar o que é e como funciona.

Vamos lá?

A base do nosso futebol não é brincadeira. De lá saem os atletas que jogam pelos nossos times em todo o Brasil, de lá saem os craques que representam o nosso país na seleção canarinho, de lá saem os jogadores que são transferidos e dão retorno para o seu clube quando não conseguem mais fazer a diferença em campo – seja por uma falta de salário aqui, umas férias no Peru ali, ou até falta de qualidade técnica mesmo.

Afinal, entre o Direito, o Esporte e a Base, o seu clube tem que pagar as contas também.

E os clubes conseguem esse dinheiro quando investem na formação do jogador. O futebol de base é a base do nosso futebol. E como a gente tem conversado nesse último mês, os clubes que investem na formação de um jogador precisam que o departamento de base seja sustentável. Ou seja, que a base não gaste mais dinheiro do que ganha – como tudo deveria ser, né?

É por isso que falamos sobre o Certificado de Clube Formador (CCF) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que serve como um “manual do bom clube” de base. Esse CCF é uma maneira de proteger o seu clube em troca da sua base fazer o “mínimo do mínimo” e tratar a criança como pessoa e como jogador durante o “período de formação” dela.

É aí que o seu clube pode assinar aquele primeiro contrato (de formação) com o jogador, e receber aquele primeiro respiro financeiro quando tem planejamento. A indenização por formação é um dos jeitos de ter dinheiro em caixa com o futebol de base. É uma das maneiras de deixar a base do nosso esporte autossustentável. Só que não é a única.

Imagina que em 10 de janeiro de 2008 um menino de 15 anos estreava na Copa São Paulo de Futebol Junior – a “Copinha”. Esse menino dez anos atrás já estava na capa do jornal que dizia que ele “estreia e mostra talento”. Esse menino já era tratado como joia pelo seu time e era apadrinhado pelo “Rei das Pedaladas”. Esse menino, segundo os jornais, já tinha uma multa de 25 milhões de dólares em um contrato (de imagem) com o clube dele. O clube dele via o menino como o próximo Pelé até.

O resto da história a gente sabe: o menino virou jogador, o jogador virou ídolo, o ídolo virou craque. E o craque foi ser rei em outro lugar. Foi ser rei em outro país. Foi ser rei em outro continente. E para entender melhor como essa história ainda afeta o seu clube formador, a gente tem que conversar sobre o mecanismo de solidariedade no futebol.

A gente, torcedor, fala que o jogador hoje em dia não tem amor pela camisa e vai para fora só para ganhar mais dinheiro. A gente, torcedor, fala que lá atrás o que valia era esse amor pela camisa e que aquilo que era futebol. A gente, torcedor, fala que o futebol no Brasil hoje é mais fraco por isso. Não importa se isso é verdade, certo, ou mesmo justo, e, sim, que lá atrás existia o “passe” e hoje não.

Resumindo décadas de história em uma linha: um jogador belga conseguiu romper os “ferros” do futebol nos anos 90, e isso mudou todo o sistema de transferência de atletas no mundo. E um de seus reflexos aqui no Brasil foi o fim do “passe”. A ideia desse “passe” era que o jogador continuava “preso” ao seu clube mesmo que não fosse mais empregado e só era “liberado” quando o seu clube dava o “passe” para outro. Hoje não é mais assim, e os jogadores estão livres quando seu contrato acaba. Aliás, como a gente bem sabe, mesmo durante o contrato os jogadores podem ir para outro time, outro país, outro continente.

Para compensar os clubes, a FIFA criou um novo sistema para que entrasse dinheiro no futebol de base. Um sistema que ajudasse os clubes a manter seus jogadores. Um sistema que desse um retorno aos clubes mesmo depois que um jogador seu saísse. É aí que entra o “mecanismo de solidariedade” – o bom “eu voltei” do futebol de base.

Esse mecanismo é parte da síntese do futebol moderno que nem o “mercado de transferência” de hoje e a “indenização por formação”. E, como síntese do futebol brasileiro com seus dribles, irreverência e talento, o Neymar é o melhor exemplo de tudo isso desde quando vi a sua estreia no profissional contra o Oeste de Itápolis pelo Campeonato Paulista lá em 2009 no Pacaembu quando ele tinha 17 anos. Seu sucesso foi instantâneo. Convocado em 2010 para a seleção brasileira, transferência para o Barcelona de tantos outros craques nacionais em 2013, e um dos líderes no ouro olímpico em 2016.

E quando ele saiu da Espanha rumo a Paris por 222 milhões de euros, o Santos Futebol Clube ainda sorriu e ganhou dinheiro com ele mesmo depois de todos esses anos.

O atleta tem seu “passaporte”. Esse “passaporte” é o histórico do jogador. Lá você vai achar todos os clubes que ele fez parte desde os 12 anos de idade. E se o seu clube é um desses, é motivo de sorriso. Toda vez que esse atleta se transferir para outro clube por algum dinheiro, o seu clube vai ganhar até 5% do valor dessa transferência.

O valor que o seu clube vai receber depende de duas coisas: de quanto tempo o jogador ficou no seu time durante período de formação dele, e se vai para fora ou outro clube daqui. Para o seu time receber 5% da transferência quando o ex-jogador do seu clube vai de um time brasileiro para outro, ele tem que ter treinado no seu time dos 14 aos 19 anos. Já se ele vai para fora, o “período de formação” começa aos 12 anos e acaba aos 23 anos.

É por isso que o Paris Saint Germain repassou cerca de R$ 33 milhões ao Santos Futebol Clube como mecanismo de solidariedade quando o Neymar foi para lá, cerca de 4% do valor total para tirar ele do F.C. Barcelona. Neymar ficou no Santos dos 12 aos 21 anos, e por isso vai continuar distribuindo sorrisos na base do seu clube formador até se aposentar.

É isso, espero que tenham gostado do nosso “Especial Copinha 2018”. Eu fico por aqui, e em fevereiro retornamos para falar um pouco sobre “entre o Direito e a Torcida”. Convido vocês para falarem comigo nos comentários ou pelas redes sociais, toda ideia é bem-vinda. Um bom final de semana a todos e até a próxima!

Comentários

Deixe uma resposta