Universidade do Futebol

Guilherme Costa

17/03/2014

Memória afetiva – as lendas que o futebol conta

O esporte tem uma capacidade incrível de criar lendas. É um traço fundamental do segmento, e talvez isso não seja igualado por nenhuma outra seara. A literatura e o cinema, por exemplo, mais se apoderam de feitos do que os disseminam.

Basta pensar no primeiro treino de Garrincha no Botafogo, em 1953. O ponta direita acabou com Nilton Santos, lateral esquerdo que já era um dos maiores do país, e o desempenho fantástico foi visto por milhões de pessoas. Duvida? Basta perguntar a qualquer um que era vivo na época e ver quantos vão dizer que estavam lá.

O mesmo acontece com um gol de Pelé contra o Juventus, marcado na Rua Javari, que o próprio Rei considera o mais bonito da carreira. O jogo não foi sequer televisionado, e o documentário “Pelé Eterno” precisou reconstituir digitalmente o lance. Ainda assim, considerando a quantidade de gente que diz ter visto in loco, o acanhado estádio da capital paulista devia ter mais gente nas arquibancadas do que o Maracanã na decisão da Copa do Mundo de 1950.

O mais curioso é que essas “testemunhas” têm uma memória afetiva extremamente exagerada. Já ouvi relatos de que o treino de Garrincha foi “uma das maiores exibições de um jogador na história do futebol” e “um dos maiores bailes que um lateral já levou”. E isso foi contado, é claro, por pessoas que estavam lá no dia.

Essas lendas que o esporte cria afetam diretamente algumas análises sobre o jogo. No último fim de semana, por exemplo, ouvi de quatro comentaristas diferentes a mesma história. Todos eles usaram a seleção brasileira de 1970 para questionar a escalação de times atuais.

A história que eles contaram é que o técnico da equipe brasileira na Copa do Mundo daquele ano, Mário Jorge Lobo Zagallo, ousou encaixar Gerson, Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino no time, a despeito de eles estarem acostumados a desempenhar funções parecidas em seus clubes.

O recado que Zagallo passou, segundo os comentaristas, é que craques sempre têm espaço e que sempre é possível aglutiná-los na equipe. Essa tese foi usada por comentaristas de São Paulo no fim de semana para falar sobre Palmeiras, Santos, São Paulo e até o Barcelona.

No Palmeiras, Bruno Cesar e Valdivia estiveram juntos pela primeira vez na formação titular. Eles foram armadores em um time que teve Leandro e Alan Kardec como atacantes. O Santos improvisou Gabriel como meia em uma equipe que teve Rildo, Geuvânio e Leandro Damião na frente. A discussão no São Paulo é sobre qual a posição ideal para Alexandre Pato, contratado neste ano. No Barcelona, questiona-se a viabilidade de Messi e Neymar como dupla ofensiva.

A resposta dos comentaristas para todos os casos é que sempre é possível acumular craques. Afinal, Zagallo fez isso em 1970.

Sempre que eu ouço esse tipo de ilação, penso em uma frase atribuída a Albert Einstein: “Loucura é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Há três aspectos fundamentais que devem ser considerados na decisão de Zagallo: o perfil dos jogadores que ele reuniu, o quanto eles estavam dispostos a sacrificar individualidades pelo time e a realidade do futebol daquela época. O esporte praticado em 1970 simplesmente não existe mais.

Usar o passado como forma de explicar o presente é um artifício válido em muitos momentos. Em algumas situações, e esse é um caso, trata-se de uma muleta rasa e que acaba desviando o foco das reais discussões.

As “posições de origem” dos jogadores são apenas dados para preencher fichas. O mais importante é saber o que eles podem fazer e o que eles estão dispostos a fazer pelo time.

O técnico Pep Guardiola dá exemplos constantes disso. No Bayern de Munique que ele comanda, Philipp Lahm é lateral direito, lateral esquerdo, primeiro volante ou armador. Thiago Alcántara e Bastian Schweinsteiger também passeiam por várias posições do meio, e Thomas Müller pode ser armador central, meia pela lateral ou até centroavante.

Quando Guardiola coloca Thiago em campo, portanto, ele pode fazer uma alteração defensiva, uma mudança ofensiva ou até ambos. O meio-campista da seleção espanhola é um símbolo perfeito do quanto é possível adaptar uma peça a diferentes funções do jogo.

No Barcelona, é impossível recorrer a Zagallo de 1970 para dizer que o time é obrigado a encaixar Messi e Neymar. Os dois são finalizadores de jogadas, agudos, e qualquer discussão precisa considerar fatores como esse. Quando estão juntos no setor ofensivo catalão, ambos precisam mudar um pouco o estilo e dividir as conclusões de lances.

Isso não quer dizer que os dois tenham de disputar um mesmo espaço no Barcelona. Usar a goleada dos catalães por 7 a 0 sobre o Osasuna, com três gols de Messi e Neymar afundado no banco de reservas, seria simplista e “resultadista”.

O ponto é que não existe uma resposta pronta para o problema do técnico Gerardo “Tata” Martino. É impossível ter como único parâmetro o Zagallo de 1970 ou a goleada do último domingo.

Futebol, como cansa de dizer o gênio Tostão, é uma síntese da vida. É um jogo complexo, sobretudo porque envolve gente. E nós temos uma tendência impressionante de simplificar comportamentos, ideias e atitudes. Isso vale também para o esporte.

O esporte cria lendas, como o primeiro treino de Garrincha, o maior gol de Pelé ou a seleção de 1970. Na memória afetiva das pessoas, tudo isso tem valor maior do que o real. A questão é que quem analisa futebol não pode ser guiado por coisas como a memória afetiva.
 

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