O impacto das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro – Por que os clubes demitem?

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Conforme antecipado na PARTE 1, para avaliar efetivamente os treinadores de futebol no Brasil, torna-se imperativo considerar a realidade contextual que rodeia o seu trabalho, além de aplicar cálculos matemáticos avançados antes de qualquer tentativa de comparação de resultados. Assim, é necessário mensurar critérios objetivos que possam traduzir o comportamento de dirigentes, as expectativas de torcedores e as condições disponíveis em torno do profissional que executa a função como treinador. Sobretudo em um sistema político sustentado por suposições arbitrárias, cujas opiniões subjetivas e julgamentos simplistas tendem a responsabilizar exclusivamente o treinador em momentos desfavoráveis, apresentar um método de avaliação racional pode beneficiar a cadeia produtiva do esporte no país (seja a partir de um clube isolado até o eventual desdobramento em toda a estrutura nacional).

Vale reforçar que o foco deste estudo é a relação das trocas de treinadores durante o Brasileirão. Portanto, mudanças realizadas antes do primeiro jogo e após o término do último jogo da liga nacional (entre uma temporada e outra do Brasileirão) não foram computadas na nossa amostra. Isto porque quando a liga nacional não está em atividade, há um contexto diferente rodeando as tomadas de decisão nos clubes brasileiros (considerando resultados da temporada anterior, movimentos na janela de transferência no início do ano, reestruturação de elenco, incidência de campeonatos estaduais, ou inclusive o efeito de novos presidentes e conselheiros assumindo a direção política do clube).

Independente se o treinador deixou o cargo de forma voluntária (se demitiu) ou involuntária (foi demitido), a mudança de comando foi computada da mesma forma na nossa amostra, pois representa uma troca efetiva de líderes no comando de um grupo específico de jogadores. Em situações quando o treinador foi suspenso ou não compareceu fisicamente ao jogo por qualquer motivo (ainda empregado no cargo), ele permaneceu como o líder responsável pela sua equipe na partida mesmo estando ausente do banco de reservas no dia. A única exceção refere-se aos treinadores interinos, tratados como figuras temporárias na liderança do grupo durante a transição (num período máximo de 15 dias) entre a saída de um treinador efetivo e a chegada do seu substituto, conforme explicado na PARTE 1.

Enfim, respondendo à primeira pergunta do estudo (Quais são os fatores determinantes para as trocas de comando técnico no Brasil?) por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, nosso modelo de análise de regressão foi capaz de classificar 95,5% dos casos corretamente. E a fim de facilitar a compreensão do artigo científico (que ainda traz uma série de variáveis de controle e percentuais relevantes para a interpretação prática), reunimos os principais resultados estatísticos em um agrupamento de 3 núcleos, dispostos a seguir:

A) Rendimento esportivo numa janela de 4 jogos sequenciais (curtíssimo prazo)

B) Expectativas (superestimadas)

C) Desempenho em competições paralelas (torneios eliminatórios)

Em suma, a econometria se baseia em uma análise estatística avançada com um volume elevado de dados sob observação. Devido à complexidade dos cálculos matemáticos, bem como os parâmetros estatísticos que devem ser respeitados como parte da metodologia científica, a leitura dos dados pode parecer confusa em um primeiro momento. Por isso, buscamos ilustrar os resultados estatísticos por meio de percentuais que traduzem um aumento ou diminuição na probabilidade de mudança de comando técnico.

A) Rendimento esportivo numa janela de 4 jogos sequenciais (curtíssimo prazo)

Muito embora a extensão da nossa análise de rendimento esportivo (considerando os pontos coletados por jogo e a diferença de gols por jogo) tenha se prolongado a até 5 jogos antes das mudanças de comando técnico, o quinto jogo que antecede a saída do treinador não apresentou resultado estatisticamente significativo (ou seja, sem uma constatação científica suficientemente forte para ajudar a explicar a decisão da troca). Por outro lado, para cada ponto coletado dentro de uma janela de 4 jogos sequenciais, a probabilidade de sobrevivência do treinador mostrou índices de aumento entre 15,2% a 33,1% (por ponto, variando de acordo com a ordem dos jogos – vide tabela abaixo). O mesmo raciocínio é válido para o efeito contrário: a cada ponto não coletado numa faixa de 4 jogos, reduz-se entre 15,2% a 33,1%, por ponto, a probabilidade do treinador seguir no comando da equipe.

Já com relação a diferença de gols no jogo, chegamos a resultados estatisticamente significativos dentro de uma janela de apenas 3 jogos sequenciais (tornando os placares da quarta e da quinta partida anteriores à mudança de técnicos como insignificantes pelo viés científico). Ou seja, para cada gol marcado a mais do que o adversário na partida, o treinador aumenta entre 11,9% a 25,6% sua chance de permanência. Logo, em caso de goleada com um saldo bem superior ao adversário, esse percentual é cumulativo, com os valores variando de acordo com a ordem do jogo (vide tabela abaixo). Entretanto, vale reforçar que esse raciocínio prevalece somente numa janela imediata de 3 jogos sequenciais (o que diminui o impacto de uma goleada ou saldo positivo no placar do quarto ou quinto jogo que já passou).

Transportando a evidência científica ao entendimento prático, o treinador de futebol no Brasil pode testemunhar um cenário favorável para permanecer no comando técnico caso sua equipe não desperdice pontos ou saldo de gols frente aos adversários numa janela de 3 a 4 jogos sequenciais. Caso contrário, a probabilidade de ser substituído aumenta devido a uma sequência não-positiva, especialmente se a equipe do treinador sofrer com derrotas sucessivas numa faixa de 4 partidas. Tal efeito ilustra como reações imediatistas são recorrentes no comportamento passional e emotivo de dirigentes em clubes de futebol no Brasil, que optam (com frequência desproporcional) por uma alteração de rotas em um prazo curtíssimo de tempo. Validando cientificamente o jargão popular do futebol brasileiro (“Perdeu três, está fora!”), nosso estudo atualiza a frase, corrigindo o número de 3 para 4 partidas, pois sem coletar pontos ou saldo positivo de gols em 4 jogos sequenciais, o treinador dificilmente sobrevive no Brasileirão.

B) Expectativas (superestimadas)

A fim de medir o efeito das expectativas pré-jogo (resgatando a realidade do momento que antecedeu cada partida da nossa amostra), implementamos em nosso estudo uma variável de mensuração de probabilidades de resultados (leia-se, expectativa de vitória ou expectativa mínima de empate) baseada em algoritmos históricos de apostas profissionais e que replica técnicas de estudos recentes com a Bundesliga alemã. Essa medida é reconhecida como uma métrica confiável na literatura acadêmica por não ser suscetível a manipulações, já que os algoritmos reúnem o máximo de informações públicas e estatísticas de rendimento esportivo disponíveis para gerar previsões realistas antes de cada jogo de futebol.

Fortalecendo o pensamento de curto prazo nas decisões de mudanças repentinas (e frequentes) no Brasileirão, as expectativas por resultados positivos aparentam ser superestimadas entre os dirigentes dos clubes participantes. Isto porque o simples fato de um clube ter previsão mínima de um empate dentro de uma janela de 3 jogos sequenciais pode prejudicar a manutenção do treinador no cargo da equipe, aumentando a probabilidade de mudança entre 38,1% a 61,6% (vide tabela abaixo).

Antes mesmo da equipe entrar em campo dentro de uma sequência de 3 jogos imediatos, se a expectativa do antepenúltimo jogo fora de pelo menos um empate, o risco de mudança já aumentara em 38,1%. No penúltimo jogo, se a previsão externa fora de vitória, o treinador sofrera um aumento de 36,2% sobre o risco de deixar o comando. E por fim, imediatamente antes do último jogo nessa faixa de 3 confrontos sequenciais, se a expectativa de resultado indicara o mínimo de um ponto (empate), as chances de se testemunhar uma mudança de comando técnico aumentaram para 61,6%. É importante reforçar também que, embora estatisticamente não-significativos, as expectativas de rendimento sobre o quarto e quinto jogos que já passaram traduzem como a memória na tomada de decisão dentro da organização se mantém viva apenas para o momento atual.

Nitidamente, as expectativas de rendimento esportivo (sem que a equipe sequer tenha pisado no gramado do jogo) já conduzem altos índices determinantes para as trocas de treinadores no Brasileirão. E, sobretudo, reforçam o desenho de curtíssimo prazo enquadrado no julgamento de dirigentes, que evidentemente transferem a pressão externa ao treinador em situações inoportunas.

Aliado a esse raciocínio, outro resultado estatisticamente significativo que encontramos em nossa análise sustenta ainda mais o pensamento superestimado dos tomadores de decisão. Considerando a disposição da tabela, para cada ponto a mais que a equipe do treinador apresenta em comparação ao seu adversário antes da partida (em qualquer momento do campeonato), a probabilidade de uma mudança de comando aumenta em 2,1% (por ponto). Antes mesmo de entrar em campo, somente o fato de somar mais pontos do que o adversário já parece instigar sinais de exigência no clube por um resultado positivo, exagerando as expectativas por aparentemente não aceitar insucesso frente a um adversário com pontuação inferior no momento.

Ao escancarar uma mentalidade especulativa alimentada por precipitações e expectativas supervalorizadas, devemos questionar se os dirigentes brasileiros fornecem um ambiente minimamente favorável aos treinadores, a fim de atrair resultados construtivos de acordo com os recursos, estrutura e condições disponíveis. Afinal, se uma troca imediata (ou frequente) de capital humano ocorre dentro de uma organização, a origem dos erros se torna explícita no processo de recrutamento conduzido pelos decisores, que são os encarregados por contratar e substituir treinadores e também devem, portanto, ser responsabilizados pela situação em que os clubes se encontram (no momento e na história recente).

C) Desempenho em competições paralelas (torneios eliminatórios)

De forma impressionante e até mesmo surpreendente (devido ao peso dos percentuais), ser eliminado da Copa Libertadores representa o fator mais impactante para a sobrevivência do treinador durante o Brasileirão. Isto é, quando o treinador vê a sua equipe finalizar a sua participação (sem o título de campeã) na principal competição continental de clubes da América do Sul (disputada em formato eliminatório, cujo contexto, circunstâncias e preparação são totalmente distintos quando comparados ao formato de pontos corridos da liga nacional), a probabilidade de manutenção do seu cargo é drasticamente reduzida entre 182,4% a 560,6%. Ou seja, segundo a nossa constatação estatística, mesmo que o treinador consiga manter o cargo (milagrosamente) por até 4 jogos no Brasileirão após a sua eliminação da Copa Libertadores, ele ainda enfrenta o risco substancial de uma mudança.

Em resultados preliminares deste estudo, também chegamos a um impacto semelhante após a eliminação da Copa Sul-Americana (a diferença é que o treinador ainda receberia um prazo de 5 jogos no Brasileirão até que a pressão se instalasse sobre o seu cargo). Porém, após reforçar os cálculos para garantir maior robustez estatística, notamos que o resultado perdeu significância. Mesmo assim, isso poderia servir de indício adicional (ou sinal de alerta) com relação a competições continentais durante a vigência do Brasileirão. Curiosamente, eliminações da Copa do Brasil não afetam as decisões de mudança.

Esta evidência científica destaca como os clubes brasileiros também superestimam suas participações em disputas internacionais, exigindo o sucesso como fator determinante para a manutenção do treinador durante a temporada da liga nacional (vale lembrar, novamente, que o Brasileirão representa um sistema de disputa oposto a torneios eliminatórios sob o contexto de alto rendimento).

Ainda sobre torneios paralelos no calendário anual, caso o treinador seja finalista estadual no mesmo ano sob análise, ele tende a aumentar em 30,0% sua longevidade no cargo ao longo do Brasileirão. Ou seja, uma final estadual na mesma temporada influencia positivamente a média de permanência no comando técnico durante a liga nacional. Contudo, o efeito pode ser testemunhado em uma equipe diferente daquela que ele conduziu à final, já que o treinador pode ser demitido ao perder o título e ser contratado mais tarde por um novo clube que o valorize justamente por ter sido finalista regional no início do ano.

Para finalizar o resumo das principais causas, nossa avaliação econométrica também desmistificou argumentos midiáticos que tendem a manipular a opinião pública a respeito de atributos demográficos dos treinadores atuantes no Brasil. Embora a imprensa esportiva compare treinadores mais jovens e mais velhos, nascidos dentro e fora do país, com ou sem experiência como jogador profissional, nenhum desses três fatores mostrou resultados estatisticamente significativos para favorecer ou reduzir uma probabilidade de mudança de comando técnico no Brasileirão. Ou seja, o fato de um treinador ser brasileiro ou estrangeiro, sua idade (independente do número de anos) e sua experiência como ex-jogador profissional não apresentam comprovação científica para definir as trocas no país ao longo de 16 anos de pontos corridos. Devido ao alto volume e taxa relativa de rotatividade, a evidência científica que constatamos traduz que todo e qualquer treinador que passa pela liga nacional (independente do estereótipo em termos demográficos sobre idade ou nacionalidade) está sujeito aos mesmos efeitos, sem imunidade.

Seguindo adiante, a PARTE 3 irá tratar das respostas da segunda pergunta do estudo, explicando o impacto da alta rotatividade de treinadores e as reais consequências sobre o rendimento esportivo.

Por fim, a PARTE 4 concluirá o conteúdo, revisando as principais implicações práticas em torno dos treinadores, dirigentes e torcedores interessados no avanço do futebol brasileiro.

Clique aqui para baixar o arquivo original do artigo

Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade do Esporte da Alemanha, na cidade de Colônia, professor e pesquisador em Ciências do Esporte na Universidade de Bielefeld, também na Alemanha e além de ser consultor esportivo e parceiro da Universidade do Futebol.

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