O impacto das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro – possíveis caminhos

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A partir de uma reflexão crítica sobre a alta rotatividade de treinadores no futebol brasileiro, nosso estudo investigou as principais causas e consequências das mudanças de comando técnico no Brasileirão por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, cujos dados contemplam 16 temporadas (2003 a 2018). Respeitando regras, parâmetros e testes estatísticos estabelecidos pela metodologia científica que já reconhecemos na literatura de administração e economia do esporte (reunindo estudos similares em 15 países), chegamos a evidências contextualizadas à realidade do Brasil.

Durante o período da nossa amostra o Brasileirão apresentou taxas de mudança de comando técnico muito superiores a outras importantes ligas da Europa e América do Sul (conforme ilustrado na PARTE 1). Além dos números absolutos e relativos de trocas ao longo das 16 temporadas sob observação, também chamou a nossa atenção a incidência de treinadores repetidos em cada ano (22,7% em média), bem como a consistência de oportunidades a novos entrantes em cada edição da liga nacional (34,6% em média). Mesmo antes dos cálculos estatísticos, já foi possível perceber o alto nível de insegurança e volatilidade que os treinadores de futebol vivenciam no território nacional.

Ao avaliar as causas (PARTE 2), identificamos que o rendimento esportivo da equipe numa janela de 4 jogos sequenciais representa um sério indicador que afeta a permanência do treinador no cargo, evidenciando uma mentalidade de curtíssimo prazo por parte de dirigentes no Brasil. Já as expectativas por resultados positivos não apenas aparentam ser superestimadas pelos clubes, como também reforçam a miopia e a atitude especulativa na tomada de decisão sobre a continuidade do treinador na função. E de forma surpreendente, o desempenho em competições paralelas destacou-se como o fator de maior influência ao determinar mudanças de comando técnico no Brasil, já que uma eliminação da Copa Libertadores basicamente se traduz em uma rescisão contratual durante a liga nacional (muito embora as competições tenham formatos de disputa distintos sob um viés de alto rendimento no esporte).

Considerando o real impacto da rotatividade de treinadores e as consequências sobre o rendimento esportivo (PARTE 3), somente um sinal de influência mínima foi identificado após as trocas, porém é necessário aguardar 7 jogos até que uma coleta de pontos possa ser parcialmente assinalada como consequência da mudança de líderes na equipe (sem evidências adicionais que sustentem esse mínimo efeito após o sétimo jogo). Embasados pelos resultados estatísticos e pela literatura acadêmica, concluímos que o treinador de futebol no Brasil sofre com o ritual do bode expiatório (uma teoria reconhecida e estudada pela gestão do esporte mundialdesde a década de 1960). Na prática, as mudanças de treinadores respondem a outros interesses, sem associação à melhoria efetivado rendimento esportivo. Entre os resultados da nossa análise ao longo das 16 temporadas sob observação, fatores como o mando de campo e a diferença de pontos em comparação ao adversário (antes do jogo) revelam consequências maiores sobre o rendimento das equipes, com prognósticos superiores ao impacto de novos nomes assumindo o cargo. Aliás, o processo de recrutamento para a escolha do treinador deve ser conduzido de forma cuidadosa, uma vez que nossas estatísticas demonstram um efeito negativo
sobre a coleta de pontos quando o líder da equipe é estrangeiro ou preenche a função apenas como treinador interino.

Visando fornecer informações assertivas e com base científica para melhores decisões adiante, despertamos uma série de implicações práticas que podem apoiar a carreira dos treinadores, o trabalho dos dirigentes e o acompanhamento dos torcedores de clubes brasileiros.

Implicações práticas para os treinadores

Para os treinadores, o principal ponto crítico de reflexão extrapola a profissão. Isto porque, além de evidenciarmos a instabilidade crônica da sua função no país, também percebemos sinais de frustração, ansiedade e estresse reportados publicamente pelos profissionais brasileiros ao longo desta pesquisa acadêmica. Ou seja, a insegurança na carreira profissional carrega indícios prejudiciais à saúde mental e física dos treinadores, que sofrem com oscilações de temperamento, sono desregulado e até mesmo disfunções cardiovasculares em casos extremos. Consequentemente, não seria incomum o treinador testemunhar reações agressivas ou transtornos de impaciência na sua relação com jornalistas, com membros do próprio clube, ou até com familiares em situações mais agudas. Priorizando a sua condição humana com um cuidado maior à sua saúde pessoal, o treinador pode tentar amenizar a pressão recorrente no seu ambiente profissional.

Embora os resultados estatísticos do nosso estudo revelem alguns ângulos que podem estender a sobrevivência dos treinadores no cargo através de decisões estratégicas ao aceitar ou declinar propostas de emprego, ao evitar saídas voluntárias quando já empregados, e também ao exercer prioridades na disputa de competições paralelas ou dentro de uma sequência curta de jogos, não devemos restringir a interpretação final somente ao reflexo dos números. Coletivamente, o treinador tem menos espaço prático para o desenvolvimento do seu potencial no futebol brasileiro, dificultando sua projeção de carreira devido a decisões limitadas ao curto prazo no local onde o seu trabalho é julgado. Com isso, reivindicar avaliações objetivas por parte dos seus empregadores poderia ser uma defesa coletiva dos treinadores em todo o território nacional. Ainda assim, a união profissional somente fortalece a classe quando os indivíduos passam a defender a mesma teoria, executando-a de forma conjunta (e consistente) na prática.

Implicações práticas aos dirigentes

Para os dirigentes (leia-se diretores, conselheiros e presidentes dos clubes), os principais pontos críticos de reflexão são a racionalidade e a responsabilidade nas tomadas de decisão. Com números alarmantes em absolutamente todos os 41 clubes participantes do Brasileirão ao longo de 16 temporadas, não há mais como negar (ou tentar esconder) a parcela de (ir)responsabilidade que os dirigentes detêm na situação atual e histórica de seus clubes, cujas decisões irracionais atrasam o progresso qualitativo do futebol brasileiro.

Felizmente, medidas profissionais podem ajudar a modificar tal postura crônica, como a implementação de um recrutamento cuidadoso e criterioso na seleção dos treinadores, aliado a produção de conteúdo estratégico com o departamento de comunicação do clube (apoiando o treinador com iniciativas que transmitam uma visão construtiva do líder técnico aos seus torcedores), além do investimento primordial em ciência e tecnologia como mecanismos que potencializem o trabalho do treinador e sua comissão técnica, beneficiando o rendimento esportivo do clube em longo prazo.

Contudo, vale ressaltar que mudanças estruturais não reproduzem diferenças práticas se o comportamento cultural dos dirigentes permanecer o mesmo (independente da estrutura organizacional, seja em um clube-associativo ou clube-empresa, os resultados tendem a ser semelhantes até que a postura do dirigente se altere a parâmetros racionais). Em um sistema político como o futebol brasileiro, onde ainda prevalece a disputa pelo poder, mérito e atenção, decisões impulsivas, emotivas e com interesses desassociados ao aprimoramento profissional do clube são comuns e recorrentes.

Com os resultados da nossa avaliação econométrica em mente, torna-se nítida a necessidade por uma melhor administração das expectativas, bem como de critérios profissionais em detrimento a julgamentos subjetivos ao avaliar os treinadores no Brasil. Além disso, reagir de forma exagerada ou impulsiva após eliminações de competições paralelas (em especial na Copa Libertadores) não apenas escancara a falta de planejamento estratégico, como tende a comprometer objetivos mais realistas de longo prazo numa temporada (afinal, o Brasileirão não é disputado em formato eliminatório). Aceitar, assumir e dividir responsabilidades em momentos desfavoráveis pode ser o caminho profissional que avance e modifique o comportamento entre os dirigentes brasileiros, a fim de compartilhar publicamente a complexidade e a dinâmica de um esporte coletivo de alto rendimento sem realocar toda a pressão (interna e externa) ao treinador empregado no momento adverso.

Implicações práticas aos torcedores

Para os torcedores, o principal ponto crítico de reflexão volta-se à demanda por maior transparência de seus clubes de coração (e consumo). Após identificarmos que 264 indivíduos vivenciaram 594 mudanças de comando técnico sem carregar efeitos positivos sobre o rendimento esportivo no panorama completo com todos os 41 clubes participantes do Brasileirão entre 2003 a 2018, o sinal de alerta (ou insatisfação) dos torcedores deveria ser redirecionado aos responsáveis pelas decisões, em vez de aceitarem a narrativa crônica de que a solução sempre vem com a troca dos treinadores. Afinal, nenhum clube passou ileso, tampouco nenhum treinador passou imune ao comportamento dos dirigentes (independente da idade, nacionalidade ou experiência como jogador profissional).

Conforme revelamos entre os resultados, fatores como o mando de campo e as expectativas pré-jogo carregam prognósticos de grande influência na nossa análise estatística. Em ambos os casos, há o envolvimento dos torcedores como peças integrantes desses dois fatores, que ajudam a manifestar o peso da opinião pública sobre os clubes de futebol no Brasil. Aliado ao fato do torcedor ser essencialmente quem subsidia o sistema (ou financia as contas), seja de forma direta com a aquisição de ingressos e produtos oficiais, ou de forma indireta com o consumo de canais esportivos que detêm os direitos de transmissão das competições, exigir transparência significa monitorar tanto a alocação de recursos, como os objetivos e as decisões conduzidas dentro do clube. Afinal, baixos níveis de transparência prejudicam a sustentabilidade da organização e do esporte em todo o país.

Com preferência a opiniões arbitrárias e argumentos subjetivos em detrimento a teorias acadêmicas e embasamento científico, a cultura de relações sociais que rodeia o ambiente político de dirigentes no Brasil ainda desvaloriza o seu compromisso profissional perante os torcedores, manipulando a opinião pública de acordo com interesses temporários. Especificamente no tema do nosso estudo, quando um clube modifica rotas de liderança técnica na mesma temporada, não apenas o treinador permanece por tempo insuficiente para desenvolver o seu potencial, como a organização também se torna refém do curto prazo, apressando (ou negligenciando) o processo de recrutamento dos substitutos. Ou seja, enquanto o treinador tem poucas semanas para comprovar sua escolha, o clube tem ainda menos tempo para atualizar suas especulações, fomentando alternâncias cíclicas que não atraem melhoria efetiva ao rendimento esportivo. Acima de tudo, rescisões contratuais frequentes geram dívidas trabalhistas exponenciais, que nem sempre são honradas pelos empregadores, acumulando despesas financeiras com treinadores, advogados e demais credores envolvidos em cada um dos processos, os quais consequentemente afundam a organização esportiva enquanto a atenção pública se volta ao treinador (o protagonista no ritual do bode expiatório).

Limitações do estudo

Apesar de expandirmos a avaliação das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro a níveis mais criteriosos por meio deste estudo científico, ainda reconhecemos algumas lacunas que merecem consideração em pesquisas acadêmicas posteriores.

Primeiro, não examinamos a influência de eleições (presidenciais e de conselho deliberativo) que acontecem a cada 2 ou 3 anos nos clubes do Brasil, afetando as decisões políticas que sustentam o julgamento de dirigentes em trocas contínuas de treinadores.

Segundo, infelizmente não foi possível mensurar o efeito das posições na tabela ao longo do período, pois o calendário de jogos do Brasileirão sofreu com disparidades na sua programação original em 15 dos 16 anos sob análise na nossa amostra (conforme adiantado na introdução do estudo) e, portanto, qualquer comparação histórica com as posições na tabela seria ilusória.

Terceiro, não estudamos a composição dos elencos dos clubes participantes, cujo entendimento certamente ajudaria a explicar tanto as mudanças de comando quanto os prognósticos de rendimento esportivo devido a diferenças em qualidade e quantidade de recursos humanos à disposição do treinador.

Quarto, não encontramos fontes confiáveis para coletar dados sobre os torcedores presentes nos estádios (em números absolutos e relativos) em todos os jogos da nossa amostra, que nos beneficiaria a compreender como o estímulo da torcida pode influenciar resultados ou decisões no Brasil.

E quinto, teríamos um grande diferencial se pudéssemos examinar as oscilações na narrativa, eloquência e retórica praticadas pela imprensa esportiva brasileira em fases de trocas de treinadores, a fim de verificar o efeito de reportagens, opiniões e cobertura editorial na construção ou manutenção da pressão externa, que evidentemente é repassada com maior intensidade ao treinador.

Conclusão

Esta investigação científica tem como objetivo revelar uma referência acadêmica valiosa para o melhor entendimento de treinadores, dirigentes e torcedores de futebol do Brasil sobre o que efetivamente influencia as mudanças de comando técnico no Brasileirão, além do real impacto das trocas de treinadores e as consequências sobre o rendimento esportivo de seus respectivos clubes.

Ao aplicar teoria na prática, a administração baseada em evidência já colaborou para dissolver julgamentos e suposições arbitrárias em outros ângulos no esporte, como por exemplo ao divulgar ineficiências na análise de desempenho de atletas no beisebol (Moneyball: O homem que mudou o jogo) ou reivindicar a implementação de novas políticas de saúde após constatações sobre riscos letais na prática do futebol americano (Concussion: Um homem entre gigantes). Tais cenários, embora não relacionados diretamente ao futebol brasileiro, costumavam ser tratados como assuntos de mero acúmulo de experiência prática até que a econometria, a ciência e a inteligência acadêmica romperam os argumentos subjetivos de gestores, dirigentes e políticos rumo a uma nova mentalidade no esporte profissional.

Portanto, ao fortalecer o pensamento crítico sobre avaliações objetivas no cenário do futebol brasileiro, o estudo em questão avança o processo de conhecimento e discussão teórica em um território que ainda carece de evidências científicas (contextualizadas à sua realidade) para contradizer alegações irracionais na gestão da modalidade esportiva que levou o Brasil a se tornar uma referência global há anos (ou décadas atrás). Mas, ainda hoje, insiste em queimar suas próprias cartas.

“Eu fico envergonhado quando vejo algum jogador meu errar um fundamento, porque na verdade a culpa não é dele. Sendo treinador, é minha obrigação ensiná-lo a como aprimorar sua técnica, mesmo que isso leve mais tempo do que o esperado. É para isso que eu trabalho”Telê Santana, 1992

Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade do Esporte da Alemanha, na cidade de Colônia, professor e pesquisador em Ciências do Esporte na Universidade de Bielefeld, também na Alemanha e além de ser consultor esportivo e parceiro da Universidade do Futebol.

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