Universidade do Futebol

Eduardo Barros

19/05/2014

O jogo de futebol, a saída jogando e a posição do corpo

O jogo de futebol moderno exige, cada vez mais, qualidade nas decisões e ações sob pressão espaço-temporal. É tendência no jogar das equipes de alto nível o adiantamento coletivo das linhas de marcação e a indução do adversário ao erro na tentativa de recuperação da posse de bola mais próxima da meta oponente.

Em resposta ao pressing do adversário, equipes que priorizam o jogo construído, e não a ligação direta, necessitam de mecanismos individuais e coletivos devidamente ajustados às circunstâncias do jogo para retirar a bola do setor de pressão e dar sequência ao momento ofensivo na tentativa de concluir a jogada com finalização.

Tais mecanismos individuais e coletivos, como abertura de linhas de passe, desmarcações, ampliação do espaço efetivo de jogo, formação de triângulos e qualidade técnica de passes curtos e longos, são competências que, se aplicadas, minimizam a ocorrência de perda da posse de bola e, estatisticamente, aproximam a equipe da vitória (se aliadas às demais ações relativas ao cumprimento da Lógica do Jogo).

O treinamento de todas estas ações em especificidade, como habilidade aberta, imprevisível, logo semelhante às situações-problema que acontecem no jogo, pode potencializar os acertos no ambiente competitivo. Uma tarefa complicada tanto na formação quanto no profissional se inserirmos no contexto a pressão por resultados (e o consequente detrimento do espetáculo), o risco de perder a posse de bola em regiões do campo próximas à própria meta e a qualidade técnica contextualizada especialmente de zagueiros e goleiro que, em linhas gerais, são pouco estimulados em fases sensíveis de aprendizado das competências essenciais (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação).

Os treinadores que mesmo cientes do referido contexto e, respaldados ou não, optam pela saída jogando com qualidade precisam atentar-se a todos os detalhes que darão efetividade a esta ação ofensiva.

Um detalhe que, recorrentemente, necessita de ajustes refere-se ao posicionamento corporal dos jogadores responsáveis pelas ações iniciais de construção.

O goleiro tende a ficar com o tronco de frente para a bola, semelhante ao posicionamento para defender. Desta forma minimiza a participação na saída jogando, pois reduzem o campo de visão e, consequentemente, as possibilidades de ação caso receba um passe.

Bolas recuadas para goleiros, geralmente, exigem dos zagueiros um posicionamento corporal que deixem suas costas voltadas para a linha de fundo ou para a linha lateral. Caso estejam próximos à linha da bola a primeira opção é a mais recomendada, caso estejam à frente da linha da bola, a segunda opção tende a ser mais efetiva. Em ambos os casos o posicionamento ideal busca um maior alcance da visão para o processo de decisão-ação. É muito comum observar em bolas recuadas para o goleiro, os zagueiros correrem de costas para o gol adversário, esta ação restringe sistemicamente as opções de passe do goleiro que acaba forçado ao chutão.

Laterais e volantes também necessitam de ajustes constantes no posicionamento corporal. Laterais que recebem a bola de costas para a faixa lateral do campo tendem a perder boas opções de progressão vertical no campo de jogo por condução ou passe. Se optarem por voltarem o corpo para a meta adversária após receberem o passe, perdem segundos preciosos na busca por desequilíbrio na organização defensiva adversária.

Do mesmo modo, volantes que recebem a bola de costas para a meta adversária têm como opção predominante o passe para trás, que distancia a equipe da meta adversária. Logo, movimentar-se para receber em diagonal pode facilitar a percepção da chegada de adversário e se é possível girar o corpo (para ficar de frente para a meta adversária) para dar sequência à ação ofensiva.

Como sabemos, a equipe é um organismo vivo em que suas ações influenciam e são influenciadas por todos os elementos do sistema, inclusive os adversários. Posicionar bem o corpo para sair jogando é apenas mais um dos milhares de ajustes que devem ser feitos em uma equipe para a boa prática do jogo de futebol.

Já cansamos de ouvir que futebol é um jogo de detalhes. Então, é melhor não duvidarmos e treinarmos todos eles.

Abraços e até a próxima semana.

Comentários

  1. Lucas Zeferino disse:

    muito bom o artigo…parabéns!!!

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