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“Milhares bradando hinos a plenos pulmões, bandeiras hasteadas e flamulando ao vento, tambores ritmicamente sendo tocados, rostos (quando não, também corpos) pintados, todos fardados por uniformes de idêntica coloração, uma massa, uma turbe, unida em função de um mesmo propósito…”

Essa poderia facilmente ser a descrição de uma tropa militar ou um exército medieval, marchando em direção ao combate, assim como de jovens estudantes em manifestação contrária a alguma forma de poder dominante e, também, se encaixa facilmente, na descrição de uma torcida organizada que se desloca em direção ao estádio para mais um jogo de seu time…

Seja com o presente, certamente com o passado e muito provavelmente com o futuro, o futebol se confunde e se mistura com a vida, suas mazelas e benignidades. Se, no passado, essa cena descreveria tropas medievais indo para batalha, em defesa de suas terras e ideais, no presente, vimos esta cena quase que todos os finais de semana em estádios de futebol ao redor do mundo.

Porém, em alguns casos, as questões territoriais e/ou ideológicas também se fazem presentes, seja no clássico escocês da cidade de Glasgow, o “OldFirm” entre Rangers e Celtics, onde a questão religiosa está fortemente presente, tendo Celtic sido fundado pelo Padre Walfrid, um sacerdote Católico que buscava ocupar o tempo ocioso dos jovens para não deixá-los à mercê das investidas dos protestantes. Estes por sua vez, vendo a repentina ascensão do time Católico, passaram por adotar o Rangers como sua equipe, dando início a uma rivalidade religiosa que invadiu as quatro linhas. Ou no jogo entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, em 13 de maio de 1990, que na época ainda pertenciam a antiga Iugoslávia (que posteriormente foi dividida em 6 novos Estados independentes, Kosovo é o 7º, porém não tem sua independência reconhecida por todos os países da ONU) , partida que aconteceu no estádio do Dinamo, o Maksimir, que foi palco de uma verdadeira batalha campal entre os Bad Blue Boys, torcedores do Dinamo, e os Delije, torcedores do Estrela Vermelha, batalha que aconteceu num cenário do futebol, mas que a motivação partiu das questões nacionalistas entre os Croatas do Dinamo e os Sérvios do Estrela Vermelha. Muitos historiados atribuem a este fatídico dia o estopim para a dissolução da Iugoslávia, pouco mais de um ano depois a Croácia declarava sua independência.

Continuamente os times de futebol são usados por seus torcedores como símbolos de suas ideologias. É oportuno também lembrar do Athletic Bilbao que possui restrições para admitir jogadores que não sejam oriundos do País Basco (região que compreende parte do extremo norte espanhol e extremo sudoeste francês).

Mas não é somente de episódios violentos que o futebol extrapola os gramados, por vezes uma partida de futebol foi utilizada como pretexto para cessar fogo de guerras. O Santos de Pelé, em 1969, realizou uma excursão pela África, paralisando guerras no Congo e Nigéria para que as partidas fossem disputadas. O atacante Didier Drogba teve papel fundamental no fim dos conflitos armados que atingiram seu país, a Costa do Marfim, em meados dos anos 2000, o jogador ainda construiu diversos hospitais infantis no país. Todos os anos jogos beneficentes são disputados para angariação de fundos em função de causas humanitárias, tendo como um dos ícones, o “Jogo da Paz” que é organizado pelo Papa e reúne renomados jogadores do futebol mundial.

Não são poucos os exemplos de como o futebol, o jogo de bola com os pés, dá espaço a causas que transcendem seu papel de “simples esporte”, até porque, mesmo que se excluam todos estes fatos históricos, o jogo por si só, permite que se enxergue uma parte daquilo que cada um traz dentro si. Quando na faculdade ouvi o Prof. Dr. Alcides Scaglia dizer que “no jogo as máscaras caem”, uma grande confusão tomou conta de meus pensamentos, de início não consegui compreender plenamente o que tal afirmação significava, até então, minha percepção do jogo era ainda um tanto quanto egoísta, simplista, da perspectiva apenas de um jogador. Mas seguindo os anos da faculdade e, principalmente, no ambiente de estágio onde tive que sair da perspectiva individual de um jogador para a global (e posteriormente sistêmica) de um professor, passei a compreender que enquanto jogam, os jogadores, as pessoas, revelam seu egoísmo e vaidade ao não passar a bola ou não voltar para ajudar na marcação, sua falta de coragem e atitude ao não arriscarem nenhum tipo de jogada que possa representar o mínimo risco a sua equipe, assim como, a liderança daquele que encoraja e coordena os companheiros em campo, a superação e consciência coletiva de um time com menor competência técnica que ultrapassa seus limites individuais através do trabalho em equipe, a honestidade e lealdade de um jogador que admite uma infração, etc. Assim como na vida, o jogo exige muitas tomadas de decisão, que são diretamente influenciadas por nossas crenças, aspirações, caráter, pelo modo como lemos o jogo/entendemos a vida.

O jogo de futebol proporciona situações (principalmente pelo estado de jogo) que obrigam a pessoa a se revelar, a mostrar quem realmente ela é, expõe comportamentos que talvez ela busque esconder ou mascarar em sua vida, mas que durante o jogo, dificilmente o conseguirá fazer. Pode parecer um pouco radical, mas pela experiência de vida e de futebol, uma pessoa que apresenta índole de mau-caratismo no jogo, dificilmente apresentará postura diferente na vida fora de campo (e vice-versa). Não se iluda meu amigo, simular uma falta na pelada ou usar o gatonet, são atos corruptos como desviar dinheiro público. O que claro, ao meu ver, não impede uma reeducação da pessoa. E podemos ver questões como estas também no comportamento das torcidas, seja no pai que busca passar o amor pelo clube ao filho, no baderneiro disfarçado de torcedor ou ainda naquele torcedor que reclama do “futebol moderno” (muito em função da postura ética que muitas vezes este exige também do torcedor), mas louva e deseja acompanhar do estádio uma final de Champions League, que é um dos principais produtos que o futebol moderno pode proporcionar em todos os sentidos.

Não somente o futebol, mas o esporte em si, ilustra e traduz situações do cotidiano de nossas vidas, ou um atleta que se empenha nos treinos para alcançar um índice olímpico tem mais valoroso esforço do que um estudante que se debruça sobre os livros antes de uma prova? Um jogador voluntarioso, que se doa plenamente pelo time, joga com garra, vigor, não pode servir de inspiração para um pai de família que levanta cedo para o trabalho, abdica muitas vezes de desejos pessoais, a fim de trazer o sustento necessário para a família? O jogo, além de proporcionar prazer e regozijo, tem um descomunal poder de transformar realidades, de educar, incitar ou enfraquecer guerras, desigualdades e tantas outras realidades da nossa sociedade. Tudo vai depender da capacidade, interesses e motivações daqueles que fazem uso dele, seja para promoção de benefícios egoístas ou coletivos.

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