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20/02/2019

Sobre as variáveis do meio-campo em losango

Um olhar inicial de algumas das singularidades do 4-3-1-2
Marco Giampaolo, treinador da Sampdoria: uma das raras equipes que jogam em 4-3-1-2 na temporada atual. (Foto: LaPresse – Jennifer Lorenzini/ Divulgação: Minuto Settantotto)

 

Uma rápida lembrança sobre como jogava cada seleção na última Copa do Mundo da FIFA, e teremos uma informação interessante do ponto de vista estrutural: das 32 seleções, apenas uma adotou, com alguma regularidade, um 4-3-1-2. Foi o Uruguai. De alguma forma, este é um retrato interessante do locus ocupado pelo losango de meio-campo na hierarquia das ideias de treinadores mundo afora.

Neste texto, quero dedicar algumas linhas ao losango, não exatamente do ponto de vista histórico, mas mais como estrutura: vamos discutir algumas das potencialidades e limitações que fazem dele tão singular.

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A maior peculiaridade do 4-3-1-2 reside, evidentemente, na disposição de meio-campo. A primeira ideia que me ocorre é a seguinte: imagine um 4-4-2 ortodoxo, com duas linhas de quatro e uma terceira linha de dois atacantes. Essa estrutura apresenta, de modo geral, três linhas horizontais (traçadas entre as duas laterais) e quatro linhas verticais (traçadas entre as duas linhas de fundo), correto? Do ponto de vista geométrico, acho razoável dizer que se trata de uma estrutura conservadora. Não como juízo de valor, mas apenas como constatação.

Mas quando saímos dessa estrutura e pensamos em um losango, há uma primeira modificação importante: agora, ao invés de apenas uma linha horizontal no meio-campo, você haverá de convir comigo que temos três: volante + meias externos + armador(os termos são secundários), de modo que podemos traçar cinco ou seis linhas horizontais – caso os atacantes não estejam em linha. Da mesma forma, ao invés de quatro linhas verticais, talvez possamos ter até seis ou sete. Evidente que, em si, as linhas não dizem absolutamente nada. Mas quando contextualizadas, elas podem representar um ganho fundamental, especialmente no ataque: a equipe parte, desde o início, de um ataque em diversas alturas diferentes, cujas diagonais podem ser potencialmente incômodas para o adversário, partindo da grande possibilidade de que ele se defenda em linha. Ao menos de cara, é uma estrutura levemente subversiva.

Para equipes interessadas em atacar apoiado, especialmente a partir do corredor central, o losango me parece uma alternativa realmente muito interessante. São várias as possibilidades de conexões por dentro, com distâncias relativamente curtas entre os meias (o que também possibilita eventuais movimentos velozes da bola), sabendo que, de acordo com a ocupação espacial do adversário, ou o volante ou o armador da equipe em losango têm boas possibilidades de encontrarem-se livres em algum momento. Daí a importância, aliás, de que este volante tenha qualidade para jogar. Quem fez isso muito bem em um passado recente, inclusive nessa mesma estrutura, foi Leandro Paredes, recentemente contratado pelo Paris Saint Germain.

A concentração de jogadores na faixa central tem uma outra implicação importante do ponto de vista estratégico: os flancos do campo, em largura e profundidade, são setores quase que exclusivos dos laterais. Em um primeiro momento, talvez isso nos faça pensar que as exigências físicas sejam maiores. Mas, para além disso, vejo que os laterais precisam ser altamente inteligentes. Especialmente quando precisam defender.

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Talvez uma das dúvidas importante do losango esteja na organização defensiva. Qual ideia é melhor: defender-se também em losango ou defender-se em linha?

Começaria a resposta por outra pergunta: quais são as referências de marcação da equipe? Se nossas referências forem individuais ou individuais no setor, não me parece que defender-se em losango seja uma boa alternativa, talvez por um motivo muito simples: se a referência é o adversário, então a criação de qualquer forma geométrica será secundária, submetida ao movimento do adversário. Ou seja, o losango raramente existirá, de fato. Por outro lado, se nossa referência for zonal, se quisermos ocupar o espaço em função do movimento da bola, aí a conversa é distinta. Podemos manter a estrutura do losango, agora flutuando de acordo com a bola. A Sampdoria, treinada por Marco Giampaolo, é uma das raras equipes que adotam essa estrutura na atual temporada.

A compactação é tão grande que podemos ver até dois supostos losangos de meio-campo. Mas o ‘verdadeiro’ é o que está mais abaixo. Repare como a referência é zonal e como a equipe terá várias linhas de passe disponíveis assim que recuperar a posse. (Reprodução: Serie A Pass)

 

Quando os comportamentos estão consolidados, essa é uma estrutura que realmente me agrada muito. A própria Sampdoria, diga-se, é uma equipe agradabilíssima de se ver jogar. Mas defender-se em losango, mesmo com referência zonal, tem uma fragilidade importante: a estrutura de meio-campo provavelmente deixará espaços importantes nos lados, logo à frente dos laterais. Neste caso, uma alternativa razoável para quem ataca é a seguinte: levar a bola para um dos lados, direcionando toda a defesa, e então buscar uma inversão, às costas dos meias do losango, eventualmente construindo uma situação de 1 v 1 entre o extremo oposto e o lateral. A Juventus, quando recebeu a Sampdoria, em dezembro, abusou dessas inversões e o primeiro gol sai exatamente em uma delas: Cristiano Ronaldo recebe de frente para o lateral e finaliza. Veja o gol aqui, a partir dos 0:20.

Por outro lado, há também a possibilidade de atacar em losango, mas defender-se em linha. Salvo engano meu, é algo próximo do que fez, por um bom tempo, o Botafogo de Jair Ventura – para usar um exemplo nacional. Quando defendida, a equipe desfaz a estrutura em losango e recompõe-se em outra linha de quatro. É bem verdade que essa estrutura permite defender melhor os espaços em largura, diminuindo, por exemplo, as possibilidades de inversões como as que citei acima. Por outro lado, sinto uma perda importante para as equipes que se defendem em linha: as possibilidades em transição diminuem sensivelmente. Especialmente se a intenção for transitar por dentro, com apoios, as conexões em potencial serão sensivelmente menores quando se defende em linha, não apenas pela possível redução da superioridade próxima ao setor da bola (quando comparamos com um bom losango) como, especialmente, pela inexistência das diagonais, que citamos no começo do texto. Novamente, sem qualquer juízo de valor, talvez a manutenção do losango, no ataque ou na defesa, denote um olhar ligeiramente mais ofensivo por parte do treinador, enquanto a organização em linha mostre uma certa predileção pela defesa.

Faço ainda uma breve observação sobre as equipes que se defendem em losango e sobem as linhas. Defender-se em um losango alto é tarefa que exige enorme sincronia e coordenação, especialmente por parte dos dois meias abertos neste losango. São eles que, caso o adversário circule a bola até o flanco, provavelmente pressionarão os laterais adversários, de modo que o suporte de volante e meia oposto é primordial. Mais uma vez, acho o comportamento zonal mais adequado neste caso, ou então os espaços potencialmente abertos por dentro serão fatais. Ainda na pressão, as regras de ação do trequartista, o meia logo atrás dos atacantes, também são importantes: caso ele fique responsável por fazer a cobertura dos atacantes, é preciso ser um pêndulo tão eficiente quanto o volante o é quando a equipe se defende. Para este jogador, em específico, talvez não seja uma tarefa tão confortável. Caso o adversário jogue com uma linha de cinco atrás (como são Lazio e Atalanta, para ficar nos exemplos italianos), talvez o armador suba para a linha dos atacantes, de modo que cada um dos três fique responsável por um zagueiro, enquanto os dois meias e o volante (responsável pela cobertura) seguem com o comportamento zonal.

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Teríamos ainda muitos tópicos a explorar: se o losango favorece mais ataques posicionais ou funcionais, a influência das distâncias e das diagonais (ou não) dos atacantes no momento ofensivo, poderíamos refletir sobre a história do losango, passando por nomes como Johan Cruyff, Louis van Gaal, Pep Guardiola. Pretendo falar sobre tudo isso futuramente.

Por ora, acho que temos um bom debate sobre uma estrutura que me agrada muito e que, como disse no início, não apenas parece escanteada em nível internacional, como também por aqui. Talvez o losango seja um escape interessante para um futebol que, progressivamente, parece se homogeneizar.

 

Comentários

  1. Ótima reflexão Hudson! Para clarear ainda mais, poderia citar alguns exemplos de times/seleções que funcionariam bem na sua opinião com losango no meio e quais peças escalarias nesse esquema?

  2. Ótima reflexão Hudson! Para clarear ainda mais, poderia citar alguns exemplos de times/seleções que funcionariam bem na sua opinião com losango no meio e quais peças escalarias nesse esquema?

  3. Francisco Abreu disse:

    Muito boa reflexão sobre o assunto! 👍 👏 ⚽

  4. Igor Medeiros Rodrigues Belém disse:

    A sampdoria ataca em posicional ou funcional? tentei assistir um jogo inteiro pelo youtube, mas não consegui identificar. Belo texto, seria interessante mesmo essa continuação que você sugeriu, sobre o uso dessa estrutura em losango em diferentes formas de organização ofensiva.

  5. Luís Mariano disse:

    O Tite iniciou o trabalho na seleção com um losango e como todos sabem, deu muito certo até ele mudar com a entrada do William. O formato tinha o Casimiro protegendo a zaga, Paulinho e Renato Augusto armavam e infiltravam e o Coutinho jogava atrás dos atacantes. Como vimos, a alteração destruiu aquela velocidade que a seleção possuía nas eliminatórias e passou a jogar de forma muito burocrática. Este é o meu esquema tático preferido.

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